Opinião

Com os pés na areia

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Faz tempo que não tinha uma viagem tão curta quanto intensa: fomos ao Cabo Ledo. A Rosa, o Jean, o Adam e eu fugimos da cidade e dos telejornais para um lugar distante, longe do ruído mundanal, da vida de bairro, da previsibilidade do devir, do medo do jogo político e partidário do dia-a-dia e das eleições gerais no nosso país que, a cada instante, parecem mais próximas.

03/08/2021  Última atualização 10H04
Fomos egoístas, abandonamo-nos ao corpo correndo ou andando à beira-mar e à reflexão, à autocrítica e análise desapiedada, aos sonhos e aos pensamentos fantásticos: viajar é sempre uma boa ocasião para questionamentos e para tomar decisões arriscadas que nos façam, no regresso, deixar de martelar os lugares comuns, evitar obsessões e fantasmas.

Em Cabo Ledo houve momentos de relaxe em família, umas vezes com os pés na areia e outras com os pés sobre o piso de madeira, vendo o cortejo entre pavões que se abrem como se estivessem a florir para atrair borboletas em vez de parceiras, sentindo o gosto por não olhar nem tocar o telemóvel a toda hora, adorando os silêncios: irrepetíveis eram as horas em que o que mais nos apetecia era decifrar a ementa do exótico restaurante com o paladar.

Faz tempo que não nos tínhamos uns aos outros assim: desfrutando da família, que é esteira e caixa de ressonância, aconchego e vassoura, chicote e farol.  Caminhar descalços sobre os montes de areia, esquivando caranguejos espertalhões e os restos de plástico trazidos pelas ondas do mar, deixando-nos assustar pelos galos que, a todo o instante, pensavam que o dia estava a raiar: faziam-nos pensar nos azares do destino.

Dias de conversa intergeracional sobre a existência individual e os desafios da vida que temos ou a que projectamos ter, afinal, nós somos uns cinquentões enquanto os gémeos, Jean e o Adam, têm, apenas, dezoito anos de idade e, na verdade, ainda não descobriram bem às quantas anda o mundo, nem o que realmente significa que tão perto de Luanda, a escassos cento e vinte quilómetros, tenhamos um lugar tão aprazível onde nos refugiamos, quando queremos fugir das agruras da vida profissional que nos absorve.

 Cabo Ledo ainda continua numa concha: é uma aposta turística que ainda não foi suficientemente explorada.
Por isso, foi muito bom ter lá estado. Já nem me recordava qual tinha sido a última vez que vivi, por curtos ou por largos instantes, sem medo de errar, fazendo nada, sem pudor nem receio de ser escrutinado pelo cão que passa, sem qualquer interesse em ouvir o que nos podem contar os caracóis secos, que passam de mão em mão, entre os meninos querendo vendê-los a todo o custo, só porque, ao pormos neles as nossas orelhas, ouvimos cânticos de mares antigos e infinidades de fábulas.

Fazia pouco mais de três anos que não parava para ver o dia amanhecer na varanda de um bungalow, enquanto lia, no caso, "Viagem por África”, de Paul Theroux, e filmar com os meus olhos o desconhecido que esfrega óleo pelo corpo todo como se quisesse voluntariamente ser peixe e ficar numa paisagem que fosse, também, uma frigideira e terminar o dia como uma iguaria crocante e desprezível.

Foi bom ficar vendo os montes e as montanhas que bordeiam o mar e o cabo: percorrer cada palmo da orla marítima, sentir o vento a embalar o tronco e as folhas das árvores, ver crianças sorridentes, velhotas vaidosas e moças com o umbigo de fora a passarem, desfrutar com as caras desconhecidas, com os andares por interpretar, com os potenciais surfistas e com os boémios inveterados.

Como o mundo é pequeno, Cabo Ledo permitiu-nos coincidir com gente nova conhecida, com velhos amigos e, também, com gente que não conhecia que era tão parecida a gente que conheço e que, afinal, resulta que é família daquelas que eu estimo e admiro. Cabo Ledo fez-nos ficar com os pés molhados e enquanto lá estivemos ir fazendo confissões às algas a apodrecer fora da água como se estivessem feitas de madeira, fazer e desfazer castelos na areia, disparatar ao lixo e apreciar o pôr-do-sol com os olhos alaranjados de uma luz longínqua.

Fazia muito tempo que não viajava para, uma vez mais, recomeçar tudo de novo com os pés no chão: reivindicamos o gosto pela aventura, prometemos aquilo que deixaremos de fazer ou aquilo que faremos no futuro, ainda que tenha que amanhecer de vez.

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