Entrevista

Com o Presidente Neto aprendi a não meter a mão naquilo que é do Estado

Guilhermino Alberto

Pouco se tem falado sobre a relação do Presidente Neto com o bairro do Golfe, em Luanda, que mais tarde passaria a chamar-se Kilamba Kiaxi, o nome adoptado durante a guerrilha pelo primeiro Chefe de Estado angolano. Para uma conversa solta sobre este e outros assuntos, o Jornal de Angola foi à “fronteira” entre o Bairro Popular e o Kilamba Kiaxi ouvir, na primeira pessoa e sem ruídos, o Mais Velho Sebastião Muzumbi, que teve com o Presidente Neto uma ligação muito próxima.

17/09/2022  Última atualização 06H45
SEBASTIÃO MUZUMBI © Fotografia por: Arquivo

Para início de conversa, quem é o Mais Velho Sebastião Muzumbi?

Sebastião Muzumbi é um cidadão angolano, que nasceu na Quiçama no ano de 1939, o mesmo ano em que começou a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e veio para Luanda, definitivamente, em 1958, depois de fazer a 4ª classe. Conheci o Presidente Neto em 1959, quando regressa de Lisboa,  a partir do seu consultório médico, na Estrada da Brigada, naquela rua que vai para a Cuca, onde trabalhava um primo meu, Luís Eduardo João, filho do Ti Duia. Isso consta no livro do Presidente Neto. O Ti Duia era primo do Presidente Neto e marido de uma tia minha. Eu andava muito com esse meu primo, que era sobrinho do Presidente Neto, e foi através desse meu primo que passei a frequentar o consultório. Éramos três os que frequentávamos o consultório do Presidente Neto. Além de mim e do meu primo, também frequentavam o consultório os nossos amigos Francisco Mena e António Adão da Silva.

Entretanto, o Presidente Neto não falava connosco em termos políticos. Ele ia dando algumas pistas e só quem tinha luzes conseguia captar a mensagem. Eu captava com muita facilidade as mensagens do Presidente Neto porque em 1959 eu já estava no MPLA, recrutado por Sebastião "Pisco”, que morreu já nesta fase da Covid-19. Infelizmente, por razões de biossegurança, não pude ir ao seu óbito. Mas voltando atrás, entramos em 1961 e ficamos todos dispersos, como consequência das acções do 4 de Fevereiro e da resposta descomunal dos portugueses. Fugi de Luanda para a Quiçama, para escapar da cadeia ou mesmo da morte. Nessa altura, o Presidente Neto é preso e eu já não estava em Luanda.

 

Quando é que volta a ter contacto directo com o Presidente Neto?

O meu convívio de perto com Agostinho Neto volta a acontecer depois do 25 de Abril, quando ele regressa do Congo-Brazzaville, porque nessa altura eu era o coordenador da célula "Mavu a tema”, que em português significa "Terra em chamas”, que operava no Bairro Golfe, à época em construção. Quando vem a delegação oficial do MPLA a Luanda, eu sou nomeado coordenador da subdelegação do Golfe. E Agostinho Neto tinha um interesse muito particular pela subdelegação do Golfe. Isso porquê? Porque foi no Golfe onde, pela primeira vez na história do MPLA, o movimento içou uma bandeira numa cidade. Isso foi muito antes da assinatura dos acordos com os portuguesas. E o içar da bandeira no Golfe teve uma grande repercussão a nível nacional e internacional. E nós, a célula "Mavu a tema”, é que estivemos por trás deste feito. Por isso, quando Neto regressa a Luanda dedica especial atenção à subdelegação do MPLA do Golfe. Foi por conta disso que passo a ter a linha telefónica directa com o Presidente Neto, no Palácio. Eu tinha linha verde para, a qualquer hora, ligar  para o número pessoal do Presidente Neto.

 

A proximidade com o Presidente Neto não teve outros factores? Apenas se devia ao feito histórico protagonizado pela célula "Mavu a tema” no Golfe?

Não foi apenas por isso. Eu na altura, isso antes da Independência, trabalhava na Inspecção de Crédito e Seguros, instituição através da qual se faziam as transferências de dinheiro para o estrangeiro. Naquele tempo, como os portugueses já estavam a fugir de Angola, era através da Inspecção de Crédito e Seguros que faziam a transferência de dinheiro para Portugal, África do Sul e outros destinos. Eu passava todas essas informações da movimentação das transferências ao Presidente Neto e ao major Saidy Mingas, que por sua vez  davam instruções para retardar ao máximo essas transferências, que na verdade estavam a prejudicar os cofres públicos. Estávamos a ficar sem dinheiro.

Estamos a falar de algo que ocorreu antes da independência. O país ainda estava sob o jugo colonial. Que autoridade o Mais Velho tinha para travar a saída desenfreada do dinheiro de Angola para o estrangeiro?

Naquele tempo conturbado da nossa história eu cuidava da transferência das rendas de casa de Cabinda ao Cunene. Portanto, tinha toda a informação do movimento do dinheiro relacionado a esse processo. Que fique, entretanto, claro que não eram operações ilegais, eram actos financeiros normais, mas que antes não eram realizados com aquela frequência, porque os portugueses sempre pensaram que nunca iam deixar Angola. O golpe de Estado do 25 de Abril em Portugal, que derrubou Marcelo Caetano, acelerou todo esse processo. As pessoas sabiam que isso abriria, inevitavelmente, o caminho para a Independência de Angola. E com a entrada nas cidades dos movimentos de libertação, os conhecidos turras, os colonos faziam tudo para tirar o seu dinheiro daqui.

 

E o Mais Velho Sebastião conseguiu travar esse movimento financeiro?

Nós éramos três, um casal e eu. Eu era o responsável das transferências de todas as rendas de casa do país, de Cabinda ao Cunene. Isso permitiu levar ao Presidente Neto informações importantes que depois serviram as novas autoridades do país. Tanto mais que depois eu sou requisitado da Inspecção de Crédito e Seguros para o Golfe, para trabalhar como coordenador,  em tempo integral, na subdelegação do MPLA no Golfe, que funcionava ali onde está hoje o Comité Municipal do Kilamba Kiaxi.

 

E o que aconteceu depois disso?

Depois disso, a nossa relação com o Presidente Neto estreitou-se ainda mais. Tanto mais que o próprio Saydi Mingas, isso já durante o Governo de Transição, passou a receber todas as informações de um grupo de camaradas que eu tinha identificado na Inspecção de Crédito e Seguros, depois que fui transferido para o Golfe. Saydi Mingas era o ministro do Planeamento e Finanças durante o Governo de Transição, composto por ministros dos três movimentos de libertação (MPLA, FNLA e UNITA) e alguns quadros de Portugal. 

 

E qual é a relação que Sebastião Muzumbi tem com Saydi Mingas depois que este é indicado pelo Presidente Neto para exercer o cargo de ministro do Planeamento e Finanças no Governo de Transição?

Quando o camarada Saydi Mingas vai para o Ministério das Finanças encontrou lá muita indisciplina. Aquilo estava muito mal. Em conversa com um nosso camarada de nome Cirilo, que na altura era o inspector-geral da Inspecção de Crédito e Seguros, este diz a Saydi Mingas que conhecia alguém que o podia ajudar a pôr ordem na casa. Saydi Mingas quis saber onde encontrar esta pessoa e o camarada Cirilo disse que estava no Bairro Golfe. Saydi Mingas disse que ia requisitá-lo para trabalhar com ele nas Finanças. Entretanto, o camarada Cirilo foi logo alertando que isso não seria tarefa fácil, Saydi Mingas tinha antes que negociar isso com o Presidente Neto, porque eu era seu homem de mão na subdelegação do MPLA no Golfe.

 

E o que aconteceu depois? Saydi Mingas foi negociar com Agostinho Neto para levar o Mais Velho Sebastião às Finanças?

O Saydi foi sim negociar com o Presidente Neto, que pessoalmente foi reunir com a nossa subdelegação e disse aos militantes para prepararem um outro coordenador, porque  "o camarada Muzumbi vai desempenhar outras funções" no Ministério do Planeamento e Finanças. Foi assim que fui parar às Finanças, tanto é assim que quando tiveram lugar os trágicos acontecimentos do 27 de Maio de 1977, em que Saydi Mingas foi uma das vítimas mortais, eu estava nas Finanças.

 

A relação com Agostinho Neto foi até quando?

A nossa relação foi até 1979, quando o Presidente Neto morreu. Depois do 27 de Maio, eu faço parte da Comissão Política Provisória de Luanda, hoje Comité Provincial do MPLA em Luanda, do qual também faziam parte os camaradas Mendes de Carvalho, Beto Van-Dúnem, Romão, Tiago da Silva e outros. Estou com receio de estar a falar mais de mim do que do próprio Presidente Neto.

 São partes importantes da História recente de Angola que devem ser registadas. Pensei que estava a exagerar, porque o que se pretende é falar mais de Neto do que de mim. A minha relação com o Presidente Neto foi muito profunda. Eu não marcava audiência. Quando quisesse falar com o Mais Velho ia ao Palácio e era imediatamente recebido. Tanto mais que depois do 27 de Maio, o Presidente  Neto tira-me do Ministério das Finanças e na última viagem a Kaxicane dá ordens ao Pacavira para nomear-me delegado provincial de Luanda da Agricultura. E eu sou nomeado.  Na última viagem que o Presidente Neto faz a Malanje, em 1979, para inaugurar a Escola Básica Agrária de Ngangasol, encontra-me lá. E ele, surpreendido, pergunta-me o que estava ali a fazer? Eu disse que só estava ali para esperar a delegação que vinha de Luanda, porque por causa do meu estado de saúde tinha deixado o cargo de delegado da Agricultura para ser nomeado chefe de Departamento dos Recursos Humanos. Essa foi a última vez que estive com o Presidente Neto.

 

Cem anos depois do seu nascimento, que imagem guarda de Neto?

O Presidente Neto, para mim, é daquelas figuras que marcaram o século XX. Figuras como Neto não nascem todos os dias. Eu trabalhei, como disse, na Inspecção de Crédito e Seguros,  uma instituição onde circulava muito dinheiro, mas nunca me atrevi a tirar de lá nada. E de Neto tenho a satisfação de dizer que era um homem profundamente honesto. Com o Presidente Neto, aprendi que o que é do Estado não se deve meter as mãos para nosso benefício pessoal.  

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