Cultura

Colecção de Roberto de Almeida disponível no Museu da Moeda

Francisco Pedro

Jornalista

O baú de notas da colecção privada de Roberto de Almeida pode ser apreciado até quarta-feira, 8 de Junho, dia do encerramento da exposição patente no Museu da Moeda, na baixa de Luanda. Trata-se de uma mostra inédita, que contempla múltiplas dimensões sócio antropológicas visíveis em 166 notas históricas.

05/06/2022  Última atualização 08H55
Notas da colecção privada de Roberto de Almeida © Fotografia por: DR

O Museu da Moeda, situado na Avenida 4 de Fevereiro – Marginal de Luanda -, acolhe uma das mais belas e históricas exposições individuais sobre dinheiro em notas, de 75 países, do coleccionador Roberto de Almeida. Faltam três dias para o encerramento da exposição, aberta das 9 às 14 horas a partir de amanhã até quarta-feira.

A exposição junta 166 notas adquiridas em países africanos, asiáticos, europeus, americanos, do Médio Oriente, mundo árabe, Oceânia e Pacífico Sul, adquiridas por Roberto de Almeida ao longo de 60 anos como coleccionador.

Cada uma das 166 notas apresenta uma resenha histórica, sob vários ângulos, ou dimensões política, militar, económica, cultural, artística, geográfica, ambiental, arquitectónica, demográfica, científica, etc., etc.

À arte de coleccionar dinheiro chama-se numismática. É considerada como um estudo, sob o ponto de vista histórico, artístico e económico das cédulas, moedas e medalhas.

Essa ciência, a numismática, começou a se desenvolver primeiramente na Europa, no Século XIX, sendo muito recorrente no auxílio à História, pois fornece dados culturais e económicos importantes, ou indispensáveis, sobre uma determinada época e sociedade.

A 1 de Dezembro é comemorado, anualmente, o Dia do Numismata, profissional que se dedica ao estudo de moeda, papel-moeda, medalhas e também dos objectos que eram usados para a fabricação desses objectos.

Em texto publicado no catálogo da exposição, com o título "O gosto pelo coleccionismo”, Roberto de Almeida afirma que: "A numismática foi durante muito tempo uma paixão que guardei só comigo. O que me movia era a ânsia de saber, de conhecer a história de outros povos e culturas, viajar na minha cabeça sem sair de casa, uma forma de estar comigo em silêncio e sempre cultivando a minha mente com conhecimento”.

A motivação de coleccionar dinheiro surgiu do seio familiar, concretamente dos irmãos mais velhos, Pedro Sobrinho e Deolinda Rodrigues, e incluía, também, a filatelia. É lícito que a "Dedicatória” do catálogo recaia para "A Deolinda Rodrigues e Pedro Sobrinho, a título póstumo, por me terem incutido o amor ao coleccionismo”, escreve  Roberto de Almeida, na contracapa do catálogo.

Paralelamente à exposição individual, o espaço alberga uma mostra integrada, intitulada "Kitadi kia Angola” (O Dinheiro de Angola), inspirada na exposição permanente do Museu da Moeda, que foi fundado em 2016.

O Dinheiro de Angola apresenta diversos conceitos artísticos, um prima sobre a importância do dinheiro em Angola, nas suas vertentes histórica, estética e pedagógica. A exposição é composta por um espólio artístico diversificado, e inclui quadros do artista plástico Marco Kabenda, com a técnica de pintura acrílica, colagem de artefactos em suporte rijo cujos temas são inspirados em "bitcoins” e um painel de pintura sobre a fachada principal do Banco Nacional de Angola,  com motivos simbólicos de figuras do quotidiano luandense (zungueira, polícia, taxista, cantor, entre outras), em permanente actividade económicas.

"Kitadi kia Angola” apresenta, ainda, um vídeo que retrata a história das notas e moedas de Kwanzas, e  um painel de tecelagem, de Maria António e Conceição Alves, com motivos ornamentais e cronológica do dinheiro desde o período pré-colonial, com uso do sal, tecidos de ráfia e zimbos, passando pela "Macuta” até aos nossos dias. Uma das novidades nesse bloco de "Kitadi kia Angola” são os cinco painéis de azulejos, de Jaime Pereira e Miguel Pinto, inspirados na temática das notas de Kwanza – moeda de Angola – nos quais se destacam elementos arquitectónicos, urbanísticos, antropológicos e fauna.

"Educação pela arte”

A curadoria da exposição pertence a Isilda Alves Coelho e a N’Dalo Rocha, ambos assinam o texto "Educação pela Arte”, em que ressaltam o seguinte: "O convite feito pelo Governador do Banco Nacional de Angola para  realizarmos a curadoria da Colecção de Numismática de Roberto de Almeida, remeteu-nos para uma preocupação presente, a educação.

Embora seja esta uma colecção de notas oriundas dos cinco continentes, optamos por sair do formato tradicional das exposições de numismática, empreendendo uma abordagem pedagógica, na qual, desafiamos as audiências, promovendo o conhecimento inerente a cada realidade geográfica dos diversos países que integram esta colecção.

Cedo percebemos que as notas não são elementos abstractos, antes pelo contrário, contêm informação essencial de cada cultura e nação.

A ambição de partilhar essa mesma informação, levou-nos a empregar métodos pedagógicos comumente usados pelos sistemas de ensino, aguçando a concentração, o senso crítico e a curiosidade, pois entendemos que cabe também aos museus fornecer conteúdos didácticos de modo a possibilitar o desenvolvimento cognitivo e o interesse pela arte.

Foi-nos possível abordar várias áreas do conhecimento como a economia, a geografia, a história e a religião, fazendo sempre a relação com as notas, extrapolando assim o âmbito puramente financeiro”.

Visão de Roberto de Almeida "O gosto pelo coleccionismo”

"Tudo começou com uma herança que ganhei do meu irmão mais velho, Pedro Sobrinho. Estávamos em 1953 – nunca me esqueci, tinha eu 12 anos – o meu irmão partiu para Portugal para continuar os estudos superiores e deixou-me a sua colecção de selos que despertou em mim o amor pelo coleccionismo.

As moedas chegaram-me também por herança, desta vez da minha irmã Deolinda Rodrigues. Como todos sabem ela era uma nacionalista que morreu tragicamente lutando pela independência de Angola. Em 1974 vou a Brazzaville e consigo reaver alguns dos seus pertences, entre os quais estava uma colecção de moedas que ela tinha deixado na base de guerrilheiros e um primo meu tinha guardado. Eram muitas moedas e eu comecei a coleccioná-las.

Só mais tarde é que comecei a coleccionar as notas.

Em Dezembro de 1975 – um mês depois da independência de Angola – fiz parte de uma delegação partidária chefiada pelo camarada Lúcio Lara, convidada ao I Congresso do Partido Comunista Cubano e nessa primeira viagem trouxe algumas notas de Cuba e também um álbum de selos. Pouco tempo depois, integrei outra delegação da qual faziam parte Onambwe e Paulete Lopes. A missão que tínhamos era informar sobre a situação em Angola e do jovem País. Fizemos um périplo diplomático por vários países como a Jamaica, Venezuela, Peru, Guiana e México entre outros, tendo eu trazido comigo várias notas desses mesmos países.

Com o passar do tempo dei sequência e comecei a pedir às pessoas conhecidas que viajassem, que me trouxessem notas para a colecção.

A numismática foi durante muito tempo uma paixão que guardei só comigo. O que me movia era a ânsia de saber, de conhecer a história de outros povos e culturas, viajar na minha cabeça sem sair de casa, uma forma de estar comigo em silêncio e sempre cultivando a minha mente com conhecimento.

Após todos estes anos, considerei chegada a altura de partilhar este passatempo que remonta a uma época na qual não havia computadores e ocupávamos os nossos tempos livres de outra forma.

Espero que os nossos jovens gostem e aprendam com esta partilha”.

 

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