Reportagem

Cokwe considerada a língua de unidade

Armando Sapalo | Dundo

Jornalista

A propósito do Dia Internacional da Língua Materna, que hoje se assinala, Muteteca Nauege afirmou que na Lunda-Norte cada uma das etnias tem a sua língua, mas, para se comunicarem, usam o Cokwe, por ser do domínio da maior parte dos habitantes da região

21/02/2022  Última atualização 07H45
© Fotografia por: DR

Apesar de a Lunda-Norte ser um mosaico de diversidade etnolinguística, a convivência entre   as distintas línguas locais é considerada pacífica, sendo o Cokwe o meio de unidade  comunicativa entre as várias tribos, disse, ao Jornal de Angola, o docente universitário Muteteca Nauege.

Falando a propósito do Dia Internacional da Língua Materna, que hoje se assinala, Muteteca Nauege afirmou que na Lunda-Norte cada uma das etnias tem a sua língua, mas, para se comunicarem, usam o Cokwe, por ser do domínio da maior parte dos habitantes da região.

Além de facilitar a comunicação, acrescentou, a língua Cokwe promove o sentimento de "unidade na diversidade”,  entre todas as etnias da Lunda-Norte.

Muteteca Nauege disse que os falantes de outras línguas respeitam e entendem que o Cokwe tem maior representatividade. O docente universitário explicou que há um mútuo acordo de  enriquecimento das diferentes línguas, onde o Cokwe  " busca empréstimos” de vocábulos.

O também especialista em Linguística Portuguesa, pela Universidade de Évora, Portugal, esclareceu que não existem línguas superiores, nem inferiores, embora do ponto de vista sociolinguístico algumas tenham maior predominância em termos de número de falantes.

Muteteca Nauege defende que a efeméride que hoje se assinala sirva de reflexão para a valorização, preservação e divulgação da importância das línguas, para o reforço da identidade cultural das pessoas.

O português, de acordo com a Constituição da República, é a única língua oficial de Angola e a  mais falada no país, sublinhou, acrescentando que observações empíricas dão conta que,  contrariamente à década de 1990 para baixo, desde 2000 a maior parte da população angolana na Lunda-Norte tem o português como língua materna.

"O português é a nossa língua oficial. Desde 2000, o  português  é a língua primeira de muitos angolanos na Lunda-Norte, mas no passado acontecia o contrário ", afirmou o docente da Universidade Lueji A´Nkonde.

Referiu que, no âmbito da política de planificação linguística do Estado, cada cidadão consegue ter noção da importância de se comunicar em português , mas sem desprimor às línguas  angolanas de origem africana.

 

Perigo de extinção

Muteteca Nauege considera que todas as línguas devem ser faladas e conservadas, com uma abrangência considerável para continuarem funcionais e não serem extintas.

Alertou que na Lunda-Norte existe uma etnia cuja língua identitária está em iminência de desaparecer. Disse tratar-se da língua matapa, da etnia com o mesmo nome, maioritariamente localizada no município do Cambulo, com fortes indícios que apontam que está a ser confundida com outra.

"A língua matapa corre o perigo de extinção, há já algum tempo, estando a ser confundida com a do ukongo, da etnia dos bandingas", explicou.

Segundo Muteteca Nauege, no quadro da efeméride que hoje se assinala, as autoridades da Lunda-Norte, particularmente o Gabinete Provincial da Cultura, Turismo, Juventude e  Desportos, bem como o Museu Regional do Dundo, em coordenação com o Instituto Nacional de Línguas Nacionais, devem fazer um levantamento sobre o fenómeno em referência.

Além da Língua Nacional Cokwe, a população da Lunda-Norte fala também txiluba, ukongo, urunda, bangala, upende  e outras que carecem de um estudo profundo das autoridades, para se ter a noção real de quantas existem, o número de falantes e a possibilidade da criação do  alfabeto com vista a conservação, preservação e divulgação, considerou.

Muteteca Nauege reconheceu que a inserção das nove línguas nacionais, incluindo o Cokwe,  ao sistema de ensino, é um ponto de partida para a sua valorização. Defendeu a necessidade da criação de condições  para a contínua formação de recursos humanos , investimentos na aquisição de material didáctico e pesquisas.

Deu a conhecer que na Universidade Lueji A ´Nkonde, através da Escola Superior Pedagógica do Dundo, já são ministradas as cadeiras de Língua Cokwe, nos cursos de linguística e ensino primário.

 

Cokwe resiste a Lingala

A lingala, uma língua com mais de quinze milhões de falantes na República Democrática do Congo ( RDC) e na do Congo (Brazzaville ) entrou de forma natural e espontânea no território angolano , principalmente nas províncias fronteiriças como Lunda-Norte e Moxico (Leste), Uíge, Cabinda e Zaíre (Norte ), devido à força comercial dos seus falantes.

A Lunda-Norte, particularmente, partilha uma extensa fronteira de 770 quilómetros, repartidos em 650 terrestres e 120 fluviais, com quatro províncias da RDC, nomeadamente Kassai, Kassai Central, Kwangu e Lualaba.

Ao todo, as quatro províncias da RDC totalizam cerca de 30 milhões de habitantes, contra  aproximadamente um milhão da Lunda-Norte. Questionado sobre a influência dos números em referência, aliada à questão da imigração ilegal, se as línguas locais, sobretudo o Cokwe, corre riscos de invasão do lingala, Muteteca Nauege disse que ainda é prematura antever esse cenário.

Muteteca Nauege justifica argumentando que, apesar da sua força comercial, a lingala ainda vai encontrar muita resistência do Cokwe, pelo facto de ser uma língua de unidade e comunicação de quase todas as tribos locais da Lunda-Norte.

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