Cultura

Classe artística preocupada com a dinamização do sector

Manuel Albano

Jornalista

A capacidade de superação e a procura constante de novos factos culturais continuam a ser a palavra-chave para os artistas e promotores culturais, com o intuito de “não deixar morrer”, o sector cultural.

31/12/2021  Última atualização 09H10
Presidente da AAT, Adelino Caracol © Fotografia por: DR
A realização das mais variadas manifestações culturais e artísticas nos últimos dois anos tem servido de contra-ataque às limitações da Covid-19, numa tentativa de continuar a driblar os constrangimentos artísticos, vividos no sector cultural um pouco por todo o país. 



Devido ao surgimento da gripe e das suas variantes, ainda assim, as actividades artísticas continuam presentes no quotidiano angolano. As políticas culturais do Executivo para alavancar o sector, associadas às outras iniciativas particulares, permitiram, em 2021, dar uma outra rotina na agenda cultural dos angolanos.



Luanda, por ser a capital do país, em que ocorrem as principais actividades e movimentos culturais, teve mais eventos sem desprimor do trabalho desenvolvido nas demais províncias.



De realçar que ao longo dos últimos dois anos têm existido várias iniciativas com as suas particularidades e finalidades, umas com projectos consolidados, outras à procura de afirmação, merecendo a atenção do público.


Os constrangimentos verificados nos últimos tempos, que provocaram o afrouxamento na dinâmica das actividades culturais, parecem estar a ficar para a história. O empenho do Executivo no combate à pandemia, de certa forma tem permitido, gradualmente, a abertura dos estabelecimentos culturais no novo estado de convivência. 


O papel do empresariado nacional no processo de desenvolvimento da cultura nacional, para apoiar vários projectos, à luz da Lei do Mecenato, embora com registos tímidos, aponta para uma reviravolta nos próximos tempos com o envolvimento do sector empresarial na  dinamização das artes.

 
Dinamização do sector

O Governo da Província de Luanda (GPL), por via da Direcção Provincial da Cultura, Turismo, Juventude e Desporto, vai prestar maior atenção ao sector, sendo que um dos propósitos da nova direcção é a criação de uma agenda cultural e artística dinâmica para a cidade de Luanda.



Olhando para as dinâmicas que o movimento cultural deve ter em Luanda, essa agenda permite aos agentes culturais, segundo Manuel Gonçalves, imprimirem outra dinâmica em todo o processo, em que o Estado deverá assumir, apenas, o papel de coordenador. Referiu que a Rota Turística de Luanda agrega várias expressões culturais a nível da capital do país, para o fortalecimento das mais variadas actividades artísticas.

 
União dos Escritores

Nesta senda, há que realçar o espírito combativo dos poucos funcionários da União dos Escritores Angolanos (UEA), que ainda acreditam em dias melhores, volvidos 24 meses sem salário, o que deixa a associação mais vulnerável e enfraquecida,  tem cumprido com os ideias dos seus fundadores.


De lá para cá, contribuiu para o desenvolvimento das letras e sempre foi vista como uma associação de grande valor sociocultural. Infelizmente, os tempos mudaram e, actualmente, a UEA deixou de ser aquela associação brilhante, de destaque cultural, intelectual e sociopolítico.


O secretário-geral, David Capelenguela, lembrou que a instituição primou, sempre, pelo  debate aberto, através de uma democracia de ideias, contribuindo para o fortalecimento da democracia e aproximação dos angolanas, numa fase em que o país vivia momentos  de conflito armado.


Reformas na UNAC-SA

A União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC-SA) tem cumprido com os principais desafios assentes na valorização da classe artística nacional, com base no programa de acção do quadriénio 2019-2023. Dar continuidade aos projectos das direcções anteriores tem sido uma das apostas do actual conselho directivo, embora não seja um exercício fácil, tendo em conta os desafios que se apresentam para materializar os programas da instituição.


Durante uma edição especial do programa radiofónico, "Quintal do Ritmo”, da RNA, realizado em Setembro, por ocasião de mais um aniversário da instituição, o presidente Zeca Moreno afirmou que um dos grandes ganhos deste ano foi a obtenção da licença de cobrança dos direitos de autores e conexos.



Actualmente, a UNAC-SA tem conquistado a confiança de todos os seus membros, pois já constatam as mudanças positivas. Nesta senda, o responsável tem feito vários apelos a todos no sentido de contribuírem com ideias ou projectos para melhorar o funcionamento da instituição.

 
Apoio aos artistas

Por culpa da pandemia da Covid-19, desde o ano passado que a Sociedade Angolana dos Direitos de Autor (SADIA), dirigida pelo escritor Lopito Feijó, para minimizar as dificuldades financeiras que a classe artística enfrenta, criou o "Fundo Cultura” e o "Cartão da Arte”, em benefício dos associados.


A criação de políticas culturais, capazes de responder às expectativas dos membros está entre as prioridades da SADIA, no âmbito das suas responsabilidades sociais. Nesta fase da pandemia de Covid-19, muitos autores e artistas que dependem dos proventos provenientes das actividades artísticas e culturais regulares enfrentam dificuldades financeiras, apesar de, gradualmente, se observar o desconfinamento social e o retorno das actividades culturais e artísticas, por causa dos avanços do Executivo no combate à pandemia.

Políticas culturais
O vice-presidente da Mesa da Assembleia-geral da União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP), António Tomás Ana "Etona” defende a redefinição das políticas ligadas à cultura, de forma a permitir a criação de bases concretas que desenvolvam, valorizem e garantam maior dignidade aos criadores.


A necessidade de se criar, cada vez mais, uma consciência activa sobre a importância da arte e da cultura na sociedade tem sido uma das preocupações manifestadas desde algum tempo, quer pela UNAP, quer pela UEA e UNAC.



Em Junho, as três agremiações reuniram, por acreditarem que de forma isolada e com as inúmeras dificuldades financeiras, não estariam à altura de resposta positiva aos anseios dos associados, diante das actuais adversidades do mercado nacional.  Etona afirmou que, a Covid-19 agravou mais o quadro que se apresentava já precário.


Por essa razão, pensou-se na criação de uma Confederação das Organizações Artísticas Nacionais, que funcionaria como um interlocutor válido e forte junto do Executivo e da sociedade, no intuito de criar condições para a melhoria do movimento artístico nacional.
 
Mais filmes nacionais

Por seu lado, a APROCIMA - Associação Angolana de Profissionais de Cinema e Audiovisual agenda para 2022 uma forte aposta na concretização dos projectos dos seus associados, uma vez que 2021 foi um ano em que concluíram que "o melhor é produzir sempre e não parar, ainda que seja com poucos recursos financeiros", advogou o secretário-geral, Francisco Keth.

Prosseguir com a Mostra de Cinema Independência, criada em Novembro, para saudar o aniversário da proclamação da independência nacional, cuja primeira edição aconteceu no Centro Cultural Brasil-Angola, e diversificar e ampliar as actividades do 27 de Outubro, Dia Mundial do Património Mundial, instituído pela UNESCO, assim como a retomada da parceria entre APROCIMA e a Fundação Arte e Cultura, que visa a exibição de filmes na Ilha de Luanda, formando novos públicos, e formando futuros cineastas, constam entre as principais acções da APROCIMA, realizadas no ano que finda.



Outras acções não menos importantes, ocorridas em 2021, e que terão sequência em 2022, são as parcerias com produtores estrangeiros, a nível do países membros da CPLP, para assegurar o intercâmbio internacional entre produtores e realizadores angolanos e estrangeiros.

Gestão de espaços
A criação de vários projectos culturais e artísticos, muitas vezes, peca na concepção por falta da participação directa das associações culturais, na concepção de ideias e projectos, a acrescentar valor excepcional aos programas executados. Ao longo dos anos a classe artística tem se mostrado agastada, pelo facto de a maioria das vezes não ser convidada para a elaboração dos mais variados projectos e programas artísticos, num desrespeito aos artistas.


Ao reagir, recentemente, ao Jornal de Angola, sobre o impacto das obras de requalificação e apetrechamento do futuro Palácio da Música e Teatro de Luanda, orçadas em 85 milhões de dólares, de acordo com um despacho publicado no Diário da República, de 4 de Novembro de 2021, o presidente da Associação Angolana de Teatro (AAT), Adelino Caracol, considerou importante que a gestão desses espaços seja entregue aos próprios artistas, para maior rentabilização dos mesmos e criar independência financeira dos grupos.


A Companhia de Dança Contemporânea de Angola (CDC Angola) reagiu, igualmente, em nota de imprensa, manifestando indignação pela designação atribuída ao antigo Cine Restauração, o qual, após ter sido a sede da Assembleia Nacional, surge como Palácio da Música e Teatro de Luanda.


Embora reconheça os benefícios que poderá trazer às artes, por um lado, a CDCA defende que a designação de Palácio, "há muito caiu em desuso, por nos remeter para um contexto de regimes políticos em decadência que instrumentalizavam as artes mantendo-as cativas da sua grandiosa máquina propagandística ditatorial, por outro, marginaliza, numa total falta de respeito e consideração, os artistas profissionais da dança que têm contribuído, em diversos contextos, géneros e formas, para o surgimento e visibilidade de outras propostas estéticas e de outras linguagens artísticas que incluem e transcendem a música e o teatro”.






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