Cultura

Circuito Internacional de Teatro - 2023 destaca qualidade do processo criativo

Manuel Albano

Jornalista

A oitava edição do Circuito Internacional de Teatro (CIT), que movimentou a Baixa da cidade de Luanda, com espectáculos de quinta-feira a sábado, no Teatro Elinga, encerrou na quinta-feira, no Royal Plaza, em Talatona, com resultados positivos, durante os quatros meses de duração, afirmou o director do festival.

16/09/2023  Última atualização 12H40
Colectivo de Artes Felomena Musanzala encerrou a gala com a exibição do espectáculo “Nzagi” © Fotografia por: DR

No discurso de encerramento, Adérito Rodrigues "Bi” disse que a realização do CIT, iniciativa do projecto "Cultura para Todos”, teve, este ano, como propostas nos espectáculos, a construção de novos valores culturais e sociais.

O director do festival adiantou que a maioria dos espectáculos procurou analisar temas didácticos como forma de incentivar os bons costumes, promover os valores da cultura angolana, por via da exibição de espectáculos, que fossem destacar a identidade nacional, dentro do vasto mosaico artístico e cultural do país.

A realização do CIT desde 2016, destacou, sempre teve como propósito a promoção dos valores culturais por intermédio da composição, encenação e exibição de peças de teatro, valorizando o artista.

Foi com grande alegria, reconheceu, que a organização do festival conseguiu concluir com êxito o festival, numa programação que arrancou em Maio do corrente ano, mesmo com os poucos recursos financeiros.

O CIT, reconheceu, teve este ano a colaboração do Secretariado Permanente para a UNESCO em Angola e o apoio de parceiros oficiais, como Ministério da Cultura e Turismo, Governo Provincial de Luanda, Administração Municipal de Luanda, a Ciry Design, Xikote Produções, Odontocar, Academia de Artes Atelier Isabel André, TPA, RNA, Elinga Teatro, Horizonte Njinga Mbande, Guilherme Mampuya, Jornal de Angola, TV Zimbo, os grupos de teatro, técnicos, produtores, equipa técnica do CIT e do projecto "Cultura para Todos”.

Este ano, disse, realizou-se 35 espectáculos de teatro, com a participação das províncias de Luanda, Huambo, Benguela, Huila, Namibe, Uíge, Cuanza- Norte, Cabinda e Lunda-Norte, tendo lamentado as ausências dos grupos internacionais por falta de dinheiro. 

O director do festival fez a entrega do Diploma de Reconhecimento pelo apoio da Angola Telecom, ao jornalista Joaquim Freitas "Tio Quim”, Nário Sá Pinto e ao "Melhor Comandante do Voo CIT 008- 2023”, Estêvão Costa.

Numa mensagem lida durante a gala de encerramento, o secretário permanente da Comissão Nacional da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), Alexandre Costa, felicitou a organização do festival pelos vários espectáculos, em particular os que tiveram como tema de fundo a divulgação dos diferentes aspectos da cultura angolana, mas também a formação, treinamento, aprimoramento dos artistas com processos criativos e a produção de peças ligadas à literatura angolana como o "Teatro da Ampulheta”.

Na perspectiva de formação, disse, o CIT alinha-se às recomendações da UNESCO, referentes à concepção de uma cultura performativa que engloba artistas, administração pública e a sociedade, cultura essa que não pode ser medida, mas que, pelas peças demonstra uma qualidade na interpretação dos factos históricos e do quotidiano pelos fazedores do teatro.

Ao longo desta edição do CIT, realizada sob o lema "Conhecer Angola com o Teatro”, ressaltou que apoiar e participar nesta magnífica festa internacional do teatro serviu para unir diversos grupos nacionais e internacionais. "A prática das artes cénicas proporciona vários benefícios para o desenvolvimento de habilidades humanas, entre elas estão: o intercultural em todas as idades, estímulo ao autoconhecimento, aumento da auto-estima, elevação do interesse pela literatura e o estímulo para a criatividade, permitindo assim a partilha dos valores identitários do nosso povo e a inclusão deste povo com várias origens e costumes”.

Distinções durante o festival

A oitava edição do CIT homenageou o encenador e director artístico Adelino Caracol, da Companhia de Artes Horizonte Njinga Mbande, pelo seu contributo em prol do crescimento das artes cénicas, no geral, e em particular, do teatro a nível nacional.

Na gala de distinção e premiação foram atribuídas dez distinções, com destaque para o "CIT Angola Telecom”, cinco "Prémios Buntu” e o "Prémio Mena Abrantes”.

A oitava edição teve como novidade, no mês de Agosto, a defesa da monografia em teatro em palco, dos 13 finalistas do 4º ano da Faculdade de Artes de Luanda, com a exibição da peça "Mayombe”, uma adaptação do romance homónimo de Pepetela.

Nos últimos anos, o CIT tem sido uma das maiores plataformas de teatro a nível internacional e de incentivo à troca de experiências entre companhias nacionais e estrangeiras, o que tem permitido criar novos factos culturais e artísticos.

Carteira profissional e homenagem do GPL

Um dos pontos altos, nesta edição do CIT, foi a entrega da carteira profissional para o homenageado Adelino Caracol, pelo presidente da Comissão de Carteira Profissional do Artista, Maneco Vieira Dias.

Este ano, os actores e agentes ligados ao movimento artístico e cultural, que ao longo dos últimos anos se destacaram em prol da preservação, valorização e divulgação do teatro, receberam diplomas de mérito, numa iniciativa do Governo da Província de Luanda (GPL), entregue pelo vice-governador de Luanda para Área Política e Social, Manuel Gonçalves.

Entre os actores e grupos distinguidos com os diplomas de mérito, destacam-se o Grupo Experimental de Teatro, a organização do CIT, Adelino Caracol, António de Oliveira "Delón”, Armando Rosa, Cláudia Nobre, Beto Cassua e Walter Cristóvão. Os grupos que participaram nesta edição do CIT também foram agraciados com diplomas de participação, atribuídos pela organização.

A sala do Royal Plaza Hotel foi pequena para o número de convidados que assistiram ao encerramento do CIT, edição 2023.  Ao longo da oitava edição do CIT foram igualmente distinguidos com o "Prémio Carreira”, o encenador Beto Cassua. O prémio "Artista CIT” ficou com o actor Pinto Nsimba do projecto Affro Théâtro, o mesmo projecto que ficou com o prémio "Grupo Popular”. Os prémios "Coreografia” e "Texto Dramático” foram para o projecto Gente do Sol, enquanto o grupo Tunjimguenji arrebatou o prémio "Caracterização”.

Fátima António, do grupo Madiwano, foi distinguida com o prémio de Melhor Actriz, enquanto o de Melhor Actor foi para Nataniel Paulo, do grupo Twassakidila. Cláudia Nobre, do projecto Gente do Sol, obteve o prémio de melhor encenadora. A distinção "Grupo CIT” foi para o Feloma Mussanzala.

O poder da tradição

O Colectivo de Artes Felomena Musanzala encerrou a gala com o espectáculo "Nzagi”, que aborda um dilema recorrente muito nas famílias angolanas, sobre o problema da partilha de herança quando o chefe da família morre.

De acordo com o enredo do espectáculo, Nkembo Nkossy é bacongo e casou-se no estrangeiro com a jovem Nhakatolo, da cultura tchokwe das Lundas. No regresso ao país, Nkembo morre por doença supostamente originada por membros da sua família. Em seguida, a família do malogrado decidiu receber todos os bens da viúva e do filho do casal.

Esta acção negativa não foi bem recebida pela família Lunda, provocando assim um grande conflito entre a cultura bakongo e tchokwe. A peça é baseada sobre dados apresentados pelo Instituto Nacional da Criança (INAC), que tem registado várias denúncias de casos de órfãos que foram abandonados e sem a possibilidade de ter acesso à herança deixada pelos pais. A actividade terminou com a actuação do músico Kanda.

Prémio "José Mena Abrantes” é incentivo à criação artística

Mais de 20 candidatos participaram no processo de inscrições da primeira edição do prémio de escrita para teatro denominado "José Mena Abrantes”, que decorreu de 27 de Março a 23 de Junho do ano em curso.

O júri da primeira edição do prémio foi constituída por José Mena Abrantes (presidente), Filipe Correia de Sá e Tony Frampénio.

O júri do "Prémio de Escrita para Teatro José Mena Abrantes” decidiu premiar a autora Lowengo Paulina Afonso André, com o pseudónimo "Pequena Grande”, com a peça intitulada "Navita, a Filha Amaldiçoada”.

O prémio está avaliado em dois milhões de kwanzas e define como critérios de avaliação para "A Melhor Escrita para Teatro” aquela que atende a um conjunto harmónico e criativo, assim como ser um trabalho inédito. A instituição do prémio visa fomentar a literatura teatral, premiando os textos de maior qualidade e inéditos, de autores de nacionalidade angolana ou autores de países membros da CPLP, nas categorias de teatro para adultos.

Prémios Ubuntu

A Ubuntu - Casa de Cultura e Artes distinguiu os melhores grupos ou companhias de teatro nas categorias de conteúdos, figurino e sonoplastia, durante a oitava edição do Circuito Internacional de Teatro (CIT).

Essa distinção, esteve no valor de 600 mil kwanzas, como resultado de uma parceria entre ambas  as instituições.

Foram vencedores os grupos Miragens Teatro que arrebatou o valor de 200 mil kwanzas, Feloma Mussanzala, Twassakidila, Affro Thêatro e Projecto Gente do Sol, que receberam 100 mil kwanzas, cada um.

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