Reportagem

Cidade do Huambo completa 110 anos de existência

Estácio Camassete | Huambo

Jornalista

A história regista duas datas, a da elevação à categoria de cidade, no dia 8 de Agosto de 1912, através da Portaria 1040, assinada pelo general Norton de Matos, e o dia da sua inauguração, a 21 de Setembro de 1912, isto é 43 dias depois.

21/09/2022  Última atualização 08H40
Palácio do governador (ao fundo) foi construída com mão-de-obra local, entre 1939 e 1945, tendo na época sido chamado “Ombongue yewe”, que no português signfica “Palácio de pedra” © Fotografia por: Francisco Lopes | Edições Novembro
A cidade do Huambo, capital do Planalto Central, comemora, hoje, 21 de Setembro, 110 anos desde que foi inaugurada, pelo então governador-geral da província ultramarina portuguesa de Angola, general José Maria Mendes Ribeiro Norton de Matos, em 1912.

A inauguração da urbe, que até à Independência, se chamou Nova Lisboa, coincidiu com a realização da primeira viagem do comboio dos Caminhos-de-Ferro de Benguela (CFB), que trouxe a bordo Norton de Matos, facto que marcou, igualmente, a fundação e abertura da linha férrea que liga Huambo à cidade do Lobito.

A história da cidade do Huambo regista duas datas, a da elevação à categoria de cidade, no dia 8 de Agosto de 1912, através da Portaria 1040, assinada pelo general Norton de Matos e o dia da sua inauguração, a 21 de Setembro de 1912, isto é, 43 dias depois.

O acto de inauguração aconteceu no recinto ao lado da actual Biblioteca Municipal Constantino Kamoli, onde havia uma casa de pau a pique coberta de capim, onde foi proclamada a cidade do Huambo. A chave foi entregue ao presidente da Câmara Municipal, como símbolo do desenvolvimento.

O acto político e cultural das festividades da inauguração foi realizado no largo junto ao prédio do Pica-Pau, onde foram traçadas as metas do desenvolvimento da cidade em termos demográficos e urbanísticos. Em 1928, o engenheiro e projectista da cidade, Vicente Ferreira, e então governador da província de Angola, entre 16 de Setembro de 1926 e 2 de Novembro de 1928, atribui à cidade o nome de Nova Lisboa, com o propósito de que esta passasse a ser a capital de Angola, bem como de todas as províncias ultramarinas de Portugal, tendo em conta a arquitectura e o clima da região que se assemelha ao de Lisboa.

Com este título, as casas cobertas de capim em volta da nova cidade deram lugar a novas de construção definitiva e edifícios dos órgãos administrativos e religiosos e a vida da nova urbe estavam a progredir.

Mas o seu crescimento surgiu rapidamente nos últimos anos da década de 60, surgiu um parque industrial forte e a intensificação da actividade económica ficou mais diversificada.

O engenheiro Vicente Ferreira projectou a cidade segundo as orientações de Norton de Matos e preparou parcelas de terrenos e indicou os espaços para arquitecturas civil, militar, religiosas, funerárias e tantas outras.

O historiador Venceslau Kassesse disse que o Huambo nasceu para ser cidade e não precisou de evoluir para esta categoria, por possuir uma geoestratégia no país, por constituir um ponto de cruzamento de toda a rede de comunicação terrestre do Norte ao Sul, do Leste ao Oeste.

Por outra, a progressão do Caminho-de-Ferro de Benguela (CFB), que nasce na cidade do Lobito, em 1903, para além do objectivo de atingir o outro lado de África, para o escoamento de produtos, tinha, igualmente, outro objectivo: o de evacuar a mão-de-obra barata para servir os diferentes pontos do mundo. Por isso, era necessário haver uma grande cidade capaz de dar resposta a toda acção do regime português, sustentou o historiador..

Segundo as projecções populacionais de 2018, elaboradas pelo Instituto Nacional de Estatística, a cidade do Huambo, com uma área territorial de 2.609 quilómetros quadrados, tinha 815.685 habitantes, sendo o mais populoso município da província, da Região Central de Angola e o sétimo mais populoso do país. O município do Huambo é limitado a Norte pelo Bailundo, a Leste pela Chicala-Choloanga, a Sul pelo Chipindo (província da Huíla), e a Oeste pelos municípios de Caála e Ecunha. O município do Huambo é constituído pela comuna com o mesmo nome (equivalente a própria cidade) e pelas comunas de Chipipa e Calima. A cidade agrega os importantes distritos urbanos de Quissala, Dango de Baixo, Chiva Bomba e Cruzeiro. Forma com as cidades de Caála e Ecunha a Região Metropolitana do Huambo, sendo o centro demográfico e económico da área.

Principais infra-estruturas da cidade

O destaque recai ao palácio do governador que na época era chamado "Ombongue yewe”, "palácio de pedra”. Trata-se de uma estrutura construída com mão-de-obra local, entre 1939 e 1945, na base de pedra e cimento, uma estrutura magnífica e robusta que revela grande capacidade de projecção de uma cidade que nasce para ser capital de Angola.

 São, igualmente, estruturas imponentes construídas naquela época na cidade as sedes do Banco Nacional de Angola, do comité provincial do MPLA, do governo, da agricultura, o mercado municipal, Arcebispado e outros.

Em 1942, ocorreu a primeira emissão radiofónica na cidade, tornando o Huambo a quinta cidade angolana a alcançar tal feito. Em Outubro de 1946, foi aberto o hospital de Nova Lisboa e que só ganhou o edifício próprio em 1952, o actual Hospital Geral. Em 1949, a cidade ganhou a primeira instituição de ensino secundário-tecnico, a Escola Industrial e Comercial Sarmento Rodrigues, actual Instituto Superior Politécnico do Huambo.

A primeira instituição do Ensino Superior da cidade do Huambo foi o Seminário Maior Inter-diocesano de Cristo Rei, fundado em 18 de Setembro de 1947, uma vez que o primeiro pólo universitário público, ligado à Universidade de Luanda, foi criado em 1966.

Venceslau Kasese lembrou as estruturas das confissões Nova York, casa de grande dimensão comercial que produzia e vendia todo o tipo de roupas de marca "Sete e meio”, cujo produto era proveniente da cidade com o mesmo nome, nos Estados Unidos da América.

Na parte alta da cidade, entre os primeiros edifícios definitivos construídos destacam-se a actual biblioteca Constantino Kamoli, que funcionou como Câmara Municipal, o actual centro médico da Polícia Nacional, como primeira residência dos padres. Junto ao prédio do registo está a primeira escola e o actual museu era casa de passagem dos Serviços de Telecomunicações.

Junto ao mercado municipal encontramos o prédio verde que seria um casino e hotel de 5 estrelas, plantado num vasto espaço que seria um ponto turístico no centro da cidade. O projecto abrangeu a lagoa e estendeu-se até à estufa-fria. As obras nunca chegaram a terminar, porque, infelizmente, a empreitada começou anos antes da independência, depois entrou a revolução e tudo ficou abandonado.

Constantino Kamoli referiu que, até hoje, a cidade tem muitas estruturas que mostram o orgulho arquitectónico da província e devem ser salvaguardadas para que as novas gerações não pensem que as coisas nasceram do nada e manter intactas estas referências, para não sermos botados para o anonimato.

 

Alguns bairros conhecidos Depois de 110 anos, o desenvolvimento da província do Huambo nunca mais parou. Novos bairros surgiram em torno da nova cidade, destacando-se o Canhe, Benfica, Macolocolo, Rua do Comércio, São José, Aviação e tantos outros.

O bairro do Canhe é marcado com a história de evangelização da região do Huambo, zona povoada na época grandemente por trabalhadores do CFB, muitos nativos vieram de longe a procura de trabalho na transportadora ferroviária, tornando a maior parte da população na área.

Assim, em 1929, entre os operários da CFB, havia um jovem cristão, chamado Joaquim, vindo da Catumbela, Benguela, que congregava outros jovens aos quais ensinava a doutrina cristã e, por vezes, os levava à missão do Cuando. Lá fundou várias catequeses à volta do Canhe, apoiado pelo superior da referida missão, padre Vieira Baião.

O nome Canhe deriva da pronúncia errada do nome do engenheiro do CFB, Carney, que vivia naquelas imediações. Os nativos, por não compreederem a língua, pronunciavam sempre por Canhe e assim o nome pegou até hoje.

O bairro da Rua do Comércio foi o primeiro a desenvolver-se porque muitos comerciantes que saíram do forte da Kissala ali se instalaram. A linha férrea deu maior facilidade de se espalharem lojas ao longo da zona.

Neste bairro, havia na época uma loja chamada "Casa Latina”, cujo lema era "o troco é sempre”, porque neste estabelecimento tudo o que um cliente comprava tinha sempre direito a um troco. Mesmo não havendo motivo para tal, havia, necessariamente, um tostão para chamar mais clientes.

 

Alguns filhos do Huambo

Nos bairros citados surgiram várias personalidades nativas, os conhecidos "negros assimilados”, que se notabilizaram em várias actividades ligadas ao comércio, agricultura, desporto e música.

No bairro do São João, o historiador Venceslau Kassesse destacou a figura histórica do mais velho Carinone que ainda está vivo. No tempo colonial, já tinha muito poder económico que ombreava com muitos empresários portugueses. Chegou a oferecer um autocarro à administração portuguesa do Huambo e já exibia carros topo de gama de marca Citroen e outros.

Na fase da construção da cidade Venceslau Kassesse não se esqueceu do ancião Sukumulã que deu o seu contributo e que tinha as suas dezenas de carroças que transportaram pedras, a partir da localidade de Ngongowinga, para a edificação de diversas infra-estruturas que até hoje fazem a beleza da Cidade Vida.

No bairro Benfica, destacam-se os senhores Kalukango e Simão Victor, comerciantes que, com o seu saber, fizeram desenvolver o Huambo. No Canhe, havia o mais velho Sekepa, um dos que tinha a sua quota-parte no desenvolvimento da cidade.

No campo desportivo, destaca-se a figura de Tchimalanga, a família Arlindo Leitão, que movimentavam o Mambroa do Huambo, o avançado Lutucuta, irmão do antigo ministro da Agricultura, Gilberto Lutukuta, e tio da actual ministra da Saúde, grandes futebolistas que brilharam no Benfica do Huambo.

Na área da política e cultura, destaca-se Albano Machado, a quem coube a homenagem ao Aeroporto do Huambo e o literato Constantino Kamoli, cujas acções revolucionárias e académicas se fizeram sentir no tempo colonial.

Os músicos Lino Pessela e Tchinina abrilhantaram vários espectáculos no Huambo e não só, onde as mensagens das suas músicas apelavam à revolta contra o colonialismo, para despertar na sociedade que o país precisava da independência.

A nível religioso, sobressai o nome do arcebispo emérito do Huambo, Dom Francisco Viti, grande intelectual que antes de ser padre, já era defensor dos direitos dos nativos, protagonista de muitos empreendimentos sociais a favor dos negros, muitos dos quais conseguiram a formação através de tantas escolas por este criadas na província, depois da independência do país.

Aeroporto do Huambo

O aeroporto do Huambo, antes do actual espaço, funcionava, no bairro da Aviação, no sector comandante Nzagi, onde aterravam aeronaves de pequeno porte.

Em 1947, o aeroporto muda para a actual zona, entre os bairros Sassonde, Kavongue e Kapilongo, para receber todo o tipo de avião.

Depois da proclamação da Independência Nacional, deixou de ser chamado aeroporto de Nova Lisboa, para Albano Machado, cujo objectivo era  homenagear aquele nacionalista.

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