Reportagem

Cidadão tenta comprar “água do morto” e é detido

António Capitão | Uíge

Jornalista

“Tendo o funcionário da morgue se apercebido do destino a dar ao produto solicitado pelo referido cidadão, decidiu denunciá-lo à polícia, que, prontamente, o deteve por suposta prática de corrupção activa”, disse o superintendente Freitas Zama, porta-voz da Polícia na província.

22/08/2021  Última atualização 13H00
© Fotografia por: Edições Novembro
O subinspector Serafim Zacarias, responsável pelo Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa  do Serviço de Investigação Criminal, disse que nos últimos tempos é notório o número de pessoas que se dirigem à morgue do Hospital Geral do Uíge com fins desconhecidos. "Temos notado, com preocupação, a presença massiva de pessoas junto à morgue do Hospital Geral. Algumas informações, até então não confirmadas, referiam que há indivíduos que vão lá procurar obter a ‘água do morto’ para realizarem rituais misteriosos ligados à feitiçaria para enriquecerem ou obterem poderes sobrenaturais.  O que se veio a confirmar com este caso”, afirmou.

Vendedor de calçados, Matuidi Filipe confirmou que a sua pretensão era, efectivamente, obter a "água do morto”, por orientação de um kimbanda residente no município de Maquela do Zombo. Insatisfeito com o baixo volume do negócio, o ritmo das vendas e o fraco poder financeiro, o cidadão decidiu "procurar soluções” num kimbanda em Maquela do Zombo, a quem pagou 400 mil kwanzas. Não tendo obtido resultados satisfatórios na primeira sessão do "tratamento”, decidiu reclamar. Desta vez, o dito kimbanda orientou Matuidi Filipe a adquirir a "água do morto” para concluir o ritual.

"Estou muito arrependido pelo que fiz e no que me meti. Queria vender muito mais e ter muito dinheiro, foi assim que procurei o kimbanda que me cobrou 400 mil kwanzas  e depois me mandou levar a água que lavaram com ela os mortos, para que as minhas preces fossem atendidas”, frisou Matuidi Filipe.


Morgue nega venda

O chefe da morgue do HGU, Garcia Nunes, negou a prática da venda da água com a qual são lavados os cadáveres. Referiu que, por ser um caso insólito, o seu colega fez logo a denúncia à Polícia.

Garcia Nunes salientou que é responsabilidade das famílias procederem à lavagem dos corpos antes de os levarem para os procedimentos fúnebres. Informou que os cadáveres são lavados em pedras que possuem canais de evacuação das águas para a rede de esgotos.  "Nunca vendemos a água com que se lavam os cadáveres aqui na morgue. São as famílias que os lavam e trazem com elas a água. Durante o processo de lavagem todo o líquido vai para os esgotos. Como poderíamos obter essa água para comercializar?”, indagou. 

 Poder de dominação

O soba Afonso Mbala, representante das autoridades tradicionais do Uíge, confirmou a utilização da "água do morto” para diversos rituais misteriosos pelos kimbandas. Sublinhou que nas práticas ocultas a água com a qual se lavam os mortos "possui poder para dominar muitos problemas”.

"No ocultismo ou na feitiçaria os rituais com recurso à água com a qual foram lavados cadáveres é frequente e dela se obtém muito poder para a dominação de muitos problemas. Os gatunos conseguem, com este poder, mandar para o sono profundo os donos das casas que assaltam. Um sono idêntico àquele quando o bruxo está a apertar alguém e este apenas sente o corpo pesado e nem consegue se levantar ou despertar”, explicou o soba Afonso Mbala.

O representante da autoridade tradicional garantiu que a utilização da "água do morto” é do conhecimento público e que a sua comercialização na morgue do hospital do Uíge e noutras da província de Luanda "é uma realidade”.Afonso Mbala apela ao governo provincial, às administrações municipais e à direcção da Cultura a intervirem para, em conjunto com a Associação das Autoridades Tradicionais (ASSAT) trabalharem para desmantelar "esta rede nociva à sociedade”.

O soba Mbala defende a necessidade da institucionalização do poder judicial tradicional "para combater e reprimir os actos que atentem contra o bem da sociedade, as famílias e pessoas singulares, tudo porque uma dada pessoa quer prosperar mesmo sem ter competências, quer ser rico mesmo sem ter capital, ou simplesmente por inveja decide fazer mal a outrem”.

As autoridades governamentais, segundo Afonso Mbala, não devem continuar a ignorar a existência do feitiço. "É uma prática que existe e deve ser instituído o poder judicial tradicional para regrar ou combater esta prática”. 

Confrontado com o facto do responsável da morgue do HGU ter negado a prática da venda da "água do morto”, o soba Mbala Afonso sentenciou: "vejamos, porquê que o kimbanda de Maquela do Zombo orientou o seu cliente a se dirigir à morgue do HGU para obter a água, se naquele município também tem morgue e morrem lá pessoas? Ele tem a morgue do Uíge como referência para a fácil obtenção do líquido. O funcionário que denunciou apenas não sabia e não fazia parte do esquema”.  

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Reportagem