Cultura

Cicios com 80 ondas

Manuel Rui é um nato artista da palavra, híbrido no seu processo criativo e lúcido na harmonização do dizer sem dizer, mas dizendo na sabedoria empilhada em cada uma das suas oitenta ondas respirando Angola.

07/11/2021  Última atualização 09H10
Manuel Rui é um nato artista © Fotografia por: Edições Novembro
Tanto se alteia no verso, como se alça na prosa. Leva à narrativa a poética que caberia num poema que nunca escreveu, mas nos encantou quando qualquer questão retorquiu, viajando nas suas nutridas estórias que nunca acabam, sobrevoando vivências que nos põe a ouvir cheiros de suspeita sobre se realmente existiram ou é fruto da sua criatividade.

Sereno e com um olhar de soslaio, sempre de esguelha parecendo desconfiado, boné à Manuel Rui, maroto sorriso à Manuel Rui e barbela "cadeando” à Manuel Rui: encanta-nos na fadada narrativa falada na pausa(da) expressão duma Angola de saudades, infâncias e mocidades bem humoradas; uma Angola de estrelas mal cantadas, que pululam céus farolizando a nossa terra. Engrandecendo-a.
Manuel Rui é assim. Oitenta ondas não o mudaram. Sua poesia nos sacia. Seus romances nos empacham. Seus contos nos encantam. Sua arte nos angolaniza. Somos mais ricos com Manuel Rui. António Quino


Subverter a esperança de vida

Manuel Rui Monteiro, o agora octogenário, pertence a uma geração de intelectuais, artistas e actores do nosso processo histórico cuja vida e obra já não cabe na linearidade biográfica do indivíduo mas, na dialéctica da vida, em como nos espelhamos na trajectória que Angola nos lega. Pioneiro na transição entre as décadas de 1970 e 80, anos de guerrilha e revolução, entrelaço Manuel Rui nas aspirações do hino nacional, nas utopias mais nobres do País novo. Chegado ao meio urbano, acho Manuel Rui encarnando em forma de papel o griot que a guerra me roubou no Monte Belo em chamas. "SIM, Camarada!”, livro de capa encarnada, sempre disposto no gabinete do meu pai, em nós da OPA simbolizava a disciplina. Mas vejo também Manuel Rui na pedra do charco em Quem Me Dera Ser Onda, uma sátira que não deixa de denunciar a tensão pós-colonial ainda por resolver entre as classes sociais. É uma pena que por cá chegar aos 80 seja subverter a esperança de vida. Saudades dos avós!” Gociante Patissa



"(...) Às portas da independência é o Manuel Rui Monteiro o herói chamado para a composição da letra para o hino de Angola. E o fez com dedicação privilegiada, e Rui Mingas é chamado  para completar a sonoridade rítmica, um roque mágico que, de imediato soou bem aos ouvidos dos que o esperavam. É hoje esse cosmos icônico que se agrega à bandeira e a insígnia da República de Angola.” Akiz Neto, ensaísta



"Neste tempo de mudança de turno dos exploradores, não consigo visualizar no Manuel Rui a ausência de manifesto do homem novo, razão porque seu livro, o original "Quem Me Dera Ser Onda” esteve muito tempo adormecido, mesmo depois de publicada a decisão do corpo de jurado como vencedor do 1prémio literário do INALD. (…)” Carmo Neto, escritor:


Mestre das "sátiras pedagógicas”

Foi na ressaca dos dias fervorosos das greves estudantis em Luanda que li (a primeira vez) o livro "Sim, camarada”, de Manuel Rui, e logo se revelou a empatia do leitor pelo autor, até mesmo porque, muitas das cenas narradas, eram familiares. O quartel das TGFA’s, por exemplo, era-nos familiar naquela altura. Lá, o comandante Henrique Abranches ("cúmplice dos grevistas”), tinha sido também um fornecedor logístico: leite condensado, bolachas e feijão "espera sentado”, cubano.  Depois, reencontrei o então já um dos meus escritores angolanos preferidos em "Quem me dera ser onda”, muito mais tarde, eu já também um pré-escritor,  e  levei um exemplar para o Brasil.  Que alguém levou, emprestado, e nunca mais devolveu. Quem levou, deve-se ter apaixonado, seguramente, pelo "Carnaval da Vitória”. Finalmente, tenho que fazer uma revelação: muitas vezes (e em muitos dias) apanho-me a cantar "... palavras sempre novas, sempre novas / palavras deste tempo sempre novo / porque os meninos aprenderam coisas novas / que até já dizem que as estrelas são do povo”... Sobretudo nos momentos de profunda nostalgia. É isso. Manuel Rui é o mestre das "sátiras pedagógicas”, no dizer de Inocência da Mata, e, claro está, um dos pais da literatura angolana. Kajim Bangala


"Pude observar à distância  esta personalidade,  enquanto participante activa em actos inerentes à proclamação da Independência do nosso país e subsequentes, é uma figura prenhe de elevada erudição e acutilância, ironia e sátira muito peculiares. Autor de obra extensa, poeta, contista, ensaísta, crítico, realço o poema "Meninos do Huambo”, imortalizado no cancioneiro angolano. Manuel Rui Monteiro é um filho distinto da Nação Angolana.”Ana Maria de Oliveira, escritora:


"Manuel Rui Monteiro é barco pelo mar...
A sua criatividade aporta prosa, poesia e canções pelo cais da esperança e portos de morada dos seus leitores. Bem haja por mais um aniversário Mestre, pois, outros virão e, que eu assista. Deus no Leme.”  Amélia Dalomba, poeta:            

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