Reportagem

Chitotolo investe numa nova central de escolha

Leonel Kassana

Jornalista

Ao encontro das operações mineiras nas províncias das Lundas Norte e Sul, pudemos testemunhar a complexidade de todo o trabalho de engenharia, desenvolvido a pensar nos depósitos aluvionares de diamantes, que passaram a ser mais valorizados, a partir de 2018, com a implementação de um novo modelo de comercializacao, que eliminou os chamados “clientes preferenciais”.

06/07/2021  Última atualização 08H45
© Fotografia por: Agostinho Narciso |Edições Novembro
A primeira paragem foi no N’zaji, município de Cambulo, base das operações da SMC (Sociedade Mineira do Chitotolo), desde 1986, com a pesquisa e exploração de várias minas, primeiro como Associação em Participação. Com uma área de concessão de 5.400 metros quadrados, é hoje a maior empresa em-pregadora da região, com um efectivo de 910 trabalhadores, 87 por cento dos quais nacionais.

Idos da cidade do Dundo, para onde voáramos directamente de Luanda na véspera e sob  altas temperaturas nesta altura do ano, como em todo o território da Lunda-Norte, encontrámos no N’zaji um ambiente típico de uma mina, com um frenesin total de máquinas em todo o perímetro, sobretudo na vasta área hidrográfica do rio Luembe.

A objectiva de Narciso Agostinho registou um mo-vimento imparável de escavadoras ligeiras, pesadas, buldozers pesados, camiões basculantes, articulados, pás carregadoras, motoni-veladoras, motoscrapers, potentes sondas e outros meios técnicos, em números que impressionam a quem chega pela primeira vez a uma mina.

Uns ainda novos e outros com mais de oito anos, são, no total, 120 equipamentos e todos fazem parte da vasta engrenagem para a procura de diamantes na região do Nzaji. O quadro, criado com a nova política de comercialização dos diamantes angolanos, trouxe vantagens que permitem, hoje, aos gestores do Chitotolo encararem com mais optimismo o futuro, depois de uma aposta vigorosa em equipamentos de última geração, de que é exemplo uma sofisticada Estacão Central de Escolha.
A nova unidade, a ser montada no Chitotolo, vem substuir a actual, que, construída há  69 anos, apresenta, há algum tempo, uma acentuada degradação estrutural, embora ainda esteja em funciamemento.

Aos jornalistas foi explicado que a aquisição do novo equipamento representa um in-vestimento integral de 6,5 milhões de dólares e está em linha com a ambição da Sociedade Mineira do Chitotolo de tratar grandes volumes de concentrado. Porém, fonte desta companhia diamantífera, que tem uma forte componente de implantação na região do N’zaji, abarcando sectores como saúde, educação, ambiente e outros, confirmaria em Luanda que esse valor pode ascender aos oito milhoes de dólares, a traduzir, claramente, a dimensão do empreendimento.


Aposta tecnológica

A mesma fonte disponibilizou dados sobre a tendência do movimento financeiro em 2019 e 2020, bem como os investimentos para este ano. Há dois anos, as vendas atingiram 122 milhões de dólares, enquanto no ano seguinte caíram para 91,86 milhões. De Janeiro a Abril, as receitas líquidas já vão em 35,28 milhões de dólares, algo que pode indiciar um bom encaixe financeiro, quando faltam ainda por contabilizar os resultados de Maio e Junho.

Mas há outros factos relevantes, que foram partilhados com os jornalistas.
Em 2019, foram investidos 20,49 milhões de dólares, com 85 por cento a ser direccionado para equipamentos de remoção de terras e veículos pesados, como escavadoras hidráulicas, tractores de rasto, carregadoras frontais, camiões basculantes, cisternas e oficina. Os veículos ligeiros e mistos, geradores, unidades pré-fabricadas e outros equipamentos consumiram a outra parte do investimento da SMC.

No ano passado, foram realizados investimentos de 18,91 milhões de dólares, sendo que 93 por cento serviram para a nova Central de Escolha do Chitotolo. Para este ano, os investimentos foram estimados em 8, 7 milhões de dolares, com o equipamento de remoção de terras a ficar com quase 70 por cento da fatia. O restante fica para os meios metalúrgicos, veículos ligeiros e pesados, geradores, sistemas de bombas e bombas para a exploração, construção civil e sistemas de vídeovigilância. O engenheiro Alexandre Albuquerque, director de operações da Sociedade Mineira do Chitotolo, foi o nosso principal cicerone, enquanto permanecemos na área do N’zaji. Foi dele que soubemos que essa companhia mineira, que está a caminho de fazer 25 anos, é o maior projecto aluvionar de exploração de diamantes alguma vez feito em Angola.

Sobre a aquisição da nova unidade de escolha de diamantes, ele não tem dúvida do valor acrescentado que traz  para a empresa, depois de anos de alguma retracção nos investimentos em meios técnicos, primeiro devido à queda brusca do preço dos diamantes no mercado internacional e, depois, com a anterior política de comercialização, que teve contornos pouco transparentes, afectando signficativamente o sector.

"Esta é a última aquisição que estamos a fazer, em ter-mos de tratamento metalúrgico, ou seja, a compra de uma nova unidade para a concentração final de diamantes”, explicou Alexandre Albuquerque, referindo que nesta altura estão se ser transportados, uns de Luanda e outros da África do Sul, todos os equipamentos, para a montagem na nova central.
No local, o trabalho está a ser feito ao detalhe, com centenas de pessoas envolvidas nas diversas obras.

Trata-se de uma operação logística de elevada envergadura, que, como pudemos constatar na vila do Nzaji, conta já com uma impressionante concentração de centenas de contentores, máquinas e outros equipamentos, com o que se pretende concluir, rapidamente, a empreitada.
"Aqui está uma grande diferença tecnológica, a complexidade das operações obriga-nos à aquisição de equipamentos muito mais actualizados, que permitem o tratamento de maior quantidade de material”, sublinhou o mineiro, que leva mais de 30 anos de experiência.

É uma corrida contra o tempo. Os gestores da SMC querem ver em operação a nova unidade ainda este ano. "Contamos concluir a sua montagem até Agosto ou Setembro”, referiu o director de operações, insistindo nos ganhos com a nova política de comercialização dos diamantes angolanos.
"A implementação da  nova política de comercialização, a partir de 2018, trouxe ganhos que permitiram uma redinamização da nossa actividade, com a compra de mais e melhores equimentos e, sobretudo, a projecção sequencial, que estamos a efectuar neste momento”, referiu.


Resiliência do projecto

O engenheiro Alexandre Albuquerque revelou que a descida do preço dos diamantes e a pandemia da Covid – 19 levou ao encerramento, rápido, de algumas áreas de mineração, como as do Sangulungo e Camule, todas no Chitotolo, para se avançar para outras que permitissem resultados desejáveis, face ao momento crítico que se vivia.
"Entre 2016 e 2018, tivemos a mineração de cascalhos da zona de rácios entre Maluita, para que nós obtivéssemos a receita necessária ao normal desenvolvimento da SMC”, referiu.

Acrescentou que tal estratégia passou pelo rápido aumento do nível de tratamento de cascalho, exploração e, também, a implementação de várias unidades mineralúrgicas.
Alexandre Albuquerque referiu-se aos "momentos muito difíceis”, num cenário em que, por vezes, as receitas eram quase insuficientes para manter a continuidade do projecto, com o Conselho de Gerência a concentrar-se na manutenção dos salários dos trabalhadores, algo que foi conseguido, mesmo que em detrimento dos desejáveis investimentos.

Passado esse período, agora a aposta é a mistura das explorações em vários sítios, onde foram implementados substanciais investimentos, resultado da nova política de comercialização de diamantes, que permite um maior embolso financeiro, como clarificou o director de operações mineiras da SMC.

Indicou que de 2011 a 2017 que os rendimentos da companhia vinham descendo, consecutivamente, com reflexos para a capacidade de investimentos, registando-se uma mudança, a partir do ano seguinte, com o preço do quilate a passar de 323 dólares para  570, trazendo elevados ganhos.


Plano de contigência contra a Covid-19

Alexandre Albuquerque mostrou-se "seguro” sobre a evolução das operações, mesmo em períodos de crise, agravada pela  Covid-19.
"A evolução continua a ser positiva”,  sublinhou aos jornalistas, antes de explicar, ao detalhe,  o "Plano de Contingência” adoptado, para que o impacto da pandemia não fosse tal brutal nas operações mineiras.

Durante a fase mais aguda da crise pandémica, a força de trabalho da mina chegou a estar reduzida a apenas 38 por cento, com o Conselho de Gerência da SMC a avançar com medidas de protecção da continuidade da empresa. "Chegamos a ter apenas 38 por cento da totalidade da massa trabalhadora, justamente por incapacidade de alojamento nos acampamentos, pois a maior parte vive em zonas fora do Njazi”, referiu, Alexandre Albuquerque, destacando a capacidade de resiliência.

Tratou-se, na verdade, de um período vivido com inusitada incerteza na mina do Chitotolo, como, de resto, em todo o mundo, mas que parece começar a fazer parte da história, a crer no optimismo estampado no rosto de Alexandre Albuquerque, ja que como indicou, "com o tempo foram activadas as infra-estruturas necessárias à manutenção das operações mineiras”.

Nesta altura, cerca de 60 a 63 por cento dos trabalhadores já estão novamente alojados nos acampamentos do Chitotolo e Maludi, algo que representou um considerável esforço logístico. Agora, trabalha-se a um ritmo frenético na ampliação da capacidade de alojamento, para que, até Agosto, chegue pelo menos aos 75 por cento, no que é visto como o início do caminho em direcção à  retoma total das operações mineiras.

Próximo de atingir o regresso da totalidade dos trabalhadores às minas, a SMC inicia  o caminho para o retorno aos níveis de produção anteriores a instalação crise  pandémica.
 Dados disponibilizados aos jornalistas no N’zaji referem que em 2019, foram produzidos 247 mil 759 quilates e no ano seguinte, 172 mil 746. Para 2021, as projecções apontam para 224 mil 155 quilates, uma ligeira subida, a traduzir uma maior actividade da mina, com o regresso de mais trabalhadores, como se diz noutro espaço desta peça.

No Chitototolo, a observância das medidas de prevenção contra a Covid-19 é levada ao extremo. As condições para a utilização das máscaras, distanciamento, lavagem frequente das mãos e etiqueta respiratória foram reforçadas. Os expatriados fazem 10 dias de querenta em Luanda, antes do acesso à mina e com teste negativo, enquanto os nacionais acampados fazem sete dias de observação médica, antes de partirem para o trabalho.


Investimento social para as comunidades

Como pudemos constatar, a Sociedade Mineira do Chitotolo é já um processo consolidado de integração com as várias comunidades, que vivem dentro da concessão. Dir-se-ia que muita coisa gira à sua volta. Há um apoio directo à educação, de que é elucidativa a construção de escolas no N’zaji e Maludi, para receber  440 e 250 alunos,  respectivamente.

Para as comunidades da Muita e arredores, estão a ser erguidos, desde 2019, um complexo escolar com oito salas de aula, para 450 crianças e jovens, um posto médico e duas casas para os professores e técnicos de saúde. As infra-estruturas foram mostradas aos jornalistas e devem ser entregues, totalmente equipadas, ainda este ano, segundo informações no local do director de operações mineiras.

A SMC investe, mensalmente, como contributo para pagamentos de salários no município do Cambulo o equivante a cerca de 1,5 milhões de dólares, enquanto perto de 5.000 familiares dos trabalhadores e 350 reformados, com os respectivos cônjuges, têm garantida assistência médica e medicamentosa.

Um detalhe: Recentemente, parte do material de construção dessas infra-estruturas foi saqueado, um sério revés para o empreiteiro, mas que foi reconfortado pela empresa, que vai alargar o investimento na vedação das instalações. É algo que não estava previsto no orçamento inicial, de mais de 1.500 mil dólares, mas que confirma a crescente responsabilidade social da SMC. Inclu-indo a construção de três escolas e um laboratório de informática, nos últimos três anos os investimentos feitos na áreas social ascenderam para cerca de 4.000.000 de dólares, como garantiu fonte da sociedade.

Na mesma esteira, as autoridades municipais e comunais, tradicionais e entidades sociais, também têm beneficiado de apoio diverso desta sociedade mineira.
O director de operações mineiras  deixou claro que se pretende, agora, mudar o paradigma, ao referir que "a partir do momento que verificámos que estão repostas as condições normais de comercialização dos diamantes abrimonos mais e estamos em contacto com o Governo da Lunda-Norte e com a Administração do Cambulo, para a reorganização da nossa acção social”.

Explicou que tal passa pelo estabelecimento de um programa tripartido entre  o Gover-no, Caritas e Chitotolo, para "no lugar de apoiar apenas com a construção de escolas,começarmos a envolver toda a comunidade, que terá uma palavra a dizer sobre os projectos de  educação para as crianças e de construção de postos médicos em cada uma das aldeias”.
Trata-se do "Projecto Educar”, cujos detalhes  o Jornal de Angola, traz proximamente.


Processo de reflorestação

Alexandre Albuquerque mostrou-nos uma vasta plantação de árvores, a traduzir a crescente preocupação com a reposição das condições ambientais nas áreas de exploração mineira. Ele disse que o projecto, para o qual foi subcontratada uma empresa, foi, também ele, afectado seriamente pelas circunstâncias da pandemia da Covid-19.  "Temos uma empresa que nos está a prestar serviços neste domínio, mas que neste  momento está em stand by. Esperamos que regresse, para que em todas as zonas onde  estamos a explorar sejam repostas as condições ambientais e, com o tempo, ver até que ponto podemos buscar os efeitos colaterais havidos em épocas anteriores”, adiantou.

"Não podemos esquecer que há áreas de exploração diamantífera há cerca de 100 anos”, referiu o director de operações, como a que a antecipar-se a eventuais críticas sobre a sustentabilidade ambiental, com a remoção de grandes quantidades de terras nas zonas mineiras.

Ponto e vírgula nesta passagem pelo Chitotolo. Antes de deixar a vila do N’zaji, ao cair da noite, fomos levados a ver o centro de saúde da sociedade, numa "visita cirúrgica”. Está bem equipado e a campanha de vacinação contra a Covid -19 é prioridade entre os trabalhadores e seus dependentes.
O dia seguinte seria uma longa viagem de mais oito horas, desde o Dundo até a conhecida vila do Cafunfu, com passagem por Lôvua, Cuilo e Caungula. Ali esta o Projecto Cuango, que passou à Sociedade Mineira do Cuango, uma parceria entre a Endiama, ITM e a Lumanhe, que detém, na Lunda-Norte uma concessão de 3.000 quilómetros de extensão na zona do rio Cuango, que será a nossa próxima paragem nesta incursão aos projectos de exploração diamantífera na região das Lundas.

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