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China pode ficar mais isolada com a política de “Zero Casos”

A variante Ómicron pode tornar a China vítima do seu sucesso, à medida que a política de “Zero Covid” prolonga o isolamento do país, quando o resto do mundo vislumbra uma fase endémica para a doença, apontam analistas.

10/01/2022  Última atualização 07H55
© Fotografia por: DR
"Em 2022, a China vai enfrentar a altamente transmissível (variante) Ómicron, com vacinas aparentemente menos eficazes e muito menos pessoas protegidas por anticorpos criados por infecções anteriores”, observou a consultora de riscos políticos norte-americana Eurasia Group, num relatório.

As medidas de bloqueio para conter os surtos deverão ser ainda mais frequentes e duras, envolvendo dezenas de milhões de pessoas, lê-se no mesmo documento.

"Esta crise vai continuar até que a China possa lançar vacinas de RNA mensageiro, desenvolvidas internamente, e reforços para os seus 1,4 mil milhões de habitantes, o que ainda deve demorar pelo menos um ano”, acrescentou.

A política de "Zero Casos” implicou a suspensão das viagens de negócios e turismo ou intercâmbios académicos com o exterior.
Quem chega ao país tem que realizar uma quarentena, cujo período varia entre duas e quatro semanas, dependendo da província de destino. As autoridades exigem ainda a apresentação do certificado negativo dos testes serológicos tipo IgG e IgM e o teste de ácido nucléico PCR antes do embarque.

Internamente, as autoridades adoptam o mesmo zelo: a detecção de um surto resulta na aplicação imediata de medidas de confinamento, testes em massa e restrições nas deslocações. Dois anos após os primeiros casos de Covid-19 terem sido diagnosticados na cidade de Wuhan, centro da China, o país afirmou-se assim como um exemplo de sucesso de saúde pública.

Segundo dados do Governo chinês, desde o início da pandemia, 102.932 pessoas ficaram infectadas e 4.636 morreram. Em comparação, os Estados Unidos, o grande rival geopolítico e ideológico da República Popular, somam mais de 800.000 mortos.
A rápida recuperação da actividade económica permitiu também aos fabricantes chineses aumentar a sua quota no mercado global, num período em que os concorrentes estrangeiros lidavam com sucessivas medidas restritivas de prevenção contra a doença.

O triunfo reforçou a narrativa do regime sobre a superioridade do autoritarismo, face ao "declínio" do Ocidente liberal.
"A ideia de que o Ocidente fazia tudo melhor acabou", resume à agência Lusa um diplomata europeu colocado em Pequim, acrescentando: "Após esta epidemia, os chineses nunca mais vão olhar para nós da mesma forma".

Mas o discurso triunfal de Pequim parece agora ter encurralado o país numa posição com impacto imprevisível. O ritmo de crescimento da economia chinesa, a segunda maior do mundo, está já a desacelerar para os níveis mais baixos das últimas décadas. As viagens domésticas abrandaram também, à medida que os turistas temem o surgir de novos surtos. O consumo interno regista altos e baixos, mediante o intensificar de medidas de prevenção.

Diplomacia

O país também pode sofrer diplomaticamente. O Presidente chinês, Xi Jinping, não sai da China ou recebe visitantes estrangeiros desde o início de 2020, numa altura em que enfrenta crescente rivalidade com os Estados Unidos e outros países ocidentais.

A abordagem afecta também as regiões semi-autónomas de Hong Kong e Macau. Na tentativa de alinharem as suas políticas de prevenção com o continente chinês, o centro financeiro global e a "capital” mundial do jogo, respectivamente, arriscam prejudicar as suas principais actividades.

As consequências para os mercados globais serão significativas, incluindo para fornecedores de matérias-primas que têm a China como o principal mercado de exportação de petróleo, minério de ferro ou soja.

O Eurasia Group aponta para os riscos de perturbação económica e ressentimento entre a opinião pública, mas ressalva que a China é uma experiência política singular, capaz de desafiar estas previsões.

"A China prova há décadas que o seu sistema político autoritário cria um grau de controlo político que não vemos em outros países importantes, sejam democracias ou outros estados autoritários”, nota.

"À medida que a China se torna muito mais inovadora tecnologicamente, o seu Governo e segurança pública têm ferramentas cada vez mais eficazes para manter esse controlo”, considera.

Testes

A cidade do norte da China de Tianjin anunciou que irá testar quase 14 milhões de residentes depois de detectar dois casos locais da variante Ómicron, os primeiros de transmissão local no país. As autoridades locais disseram que os dois casos estão ligados e fazem parte das últimas 20 infecções locais detectadas na cidade, todas no mesmo distrito.

Tianjin já tinha sido a primeira cidade chinesa a registar um caso de Ómicron em meados de Dezembro, embora nesse caso fosse um "importado", isto é, vindo do estrangeiro. Os testes em massa começaram sábado (no horário de Angola).

A cidade, situada a pouco mais de 100 quilómetros de Pequim, confinou 29 áreas residenciais, fechou parcialmente duas linhas de metro e cancelou pelo menos 144 voos no aeroporto de Binhai.

O epidemiologista Zhang Wenhong, citado pelo oficial Global Times, rejeitou que a variante ómicron seja considerada menos virulenta do que outras mutações e disse que o mundo só deveria "reabrir" quando for construída uma "forte barreira imunológica" e as taxas de mortalidade de Covid-19 forem "muito baixas".

Esta semana, o chefe da equipa nacional de peritos médicos da Covid-19, Zhong Nanshan, considerou que o país já tinha atingido a "imunidade de grupo" depois de mais de 83% da população já ter recebido a vacinação completa.

A nação asiática começou 2022 em alerta devido a vários surtos desde meados de Outubro do passado, que resultaram em mais de 7.000 casos - quase 5.000 dos quais transmitidos localmente - mas nenhuma morte.

Este ano será um ano-chave para o país, pois acolhe os Jogos Olímpicos de Inverno a partir de Fevereiro em Pequim e, em Outubro, um grande congresso político do Partido Comunista da China (CPC), que se realiza apenas de cinco em cinco anos e no qual o seu líder, Xi Jinping, procura um novo mandato.

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