Desporto

Chico Afonso: “Ndunguidi foi um astro mas comigo não brilhava”

Augusto Fernandes

Jornalista

Francisco Afonso, mais conhecido por Chico Afonso, no futebol, notabilizou-se no Petro de Luanda, onde foi tetra-campeão nacional e na Selecção Nacional. Foi um central que impunha respeito aos seus adversários. Com um elevado grau de disciplina, foi sempre escolhido para ser capitão das equipas onde jogou. Partilhou os relvados com jogadores mais sonantes da sua época.

10/10/2020  Última atualização 19H41
Edições Novembro

No bairro dos Congolenses, Chico Afonso, ganhou o gosto pela bola, graças à influência de jogadores do Benfica do Congo, uma equipa dos mais velhos do Bairro. Fez parte do “exército de rapazes” que desbravaram o local onde é hoje o campo de São Paulo. Ele conta:

“Aquele recinto onde é hoje o campo de São Paulo, na época em que viemos morar nos Congolenses era mata. Fomos nós que a desbravamos e fizemos daquele local o nosso campo de futebol. Mais tarde o Estado tomou conta do sitio, preparou-o e foi inaugurado como campo Municipal de São Paulo, por volta de 1964, se a memoria não me atraiçoa.”

Nos primórdios dos anos 70 e a pedido da direção do Clube Desportivo Bairros Unidos, Chico Afonso, na companhia de Cavunge, Marinheiro e mais companheiros transferiu-se para aquele clube, onde ganhou um campeonato provincial de Juvenis.

“O jogo da final nessa categoria foi disputado no Estádio dos Coqueiros contra o Desportivo União de São Paulo, que era treinado por Nando Russo, e contava com jogadores talentosos como Massembela e outros bons jogadores. Foi um dia memorável na minha vida, pois, tratava-se do primeiro título da minha carreira futebolística, que estava só a iniciar” recorda-se Chico Afonso.

Em 1980, ainda no cumprimento do serviço militar FAPA/DAA, mesmo na condição de militar, foi convidado a jogar no Sport Clube do Maxinde, que na época era orientado tecnicamente por Severino Miranda Cardoso “Semica”. “Quando cheguei ao Maxinde, já lá estavam o Mendinho, Tonecas, Vítor Airosa, Nando Galinha, João Vigário, Gamito e outros. E joguei apenas por uma época no Provincial e saímos em 3º lugar”.

Em finais de 1980 Chico Afonso, Lito e Afonso Joaquim, foram convidados para representar o Petro de Luanda, que na altura era orientado pelo Búlgaro Vassili Moratev ou simplesmente Vesco, um técnico de máquinas que trabalhava, salvo erro, na Macambira, fábrica imperial de borracha e que praticamente já estava de saída, tendo sido substituído pelo brasileiro António Clemente.

“ Devo dizer, que não tivemos dificuldades de nos impor no onze principal, porque a nossa forma de jogar no Maxinde era praticamente idêntica a do Petro, mesmo sob orientação do Clemente, pois o Semica, privilegiava o jogo ao primeiro toque rente à relva e veloz” diz.

No seu segundo ano, ao serviço dos tricolores da capital, em 1982 ganha o primeiro dos quatro títulos, com as cores do Petro de Luanda. “Foi um grande momento para todos nós pois, marcou o início da nossa hegemonia a nível do futebol nacional e o fim de um ciclo para o grande 1º de Agosto, que viria a agudizar-se com a histórica goleada de 6-2 que infligimos, em 1982, em plena Cidadela desportiva”.

Continuando e sobre aquele jogo, diz: “aquele jogo marcou o início da grande rivalidade entre o Petro de Luanda e o 1º de Agosto que perdura até hoje, porque eles os seus adeptos estão à espera da desforra, porque a derrota está encravada na garganta dos militares até hoje”.

Curiosidades

Em toda sua carreira Chico Afonso, foi admoestado com dois cartões vermelhos. A primeira vez foi num jogo contra o Inter de Luanda. Ele conta como foi: “ Num lance o lateral esquerdo do Inter atropela o Abel, e pisou-lhe na cabeça. Então, fui ter com o árbitro que era o Sebastião Reis, para reclamar. O árbitro deu-me um amartelo. Quando me virei para regressar a minha posição, cuspi, normalmente, como acontece com qualquer jogador O Sebastião Reis achou aquilo um insulto, deu-me o segundo amarelo e fui expulso.

“Em outra ocasião”, num jogo contra o Construtores do Uige, o Santo António, esteve em picardias com o Alex que era um ponta de lança muito fogoso. A dada altura, eu disse ao Santo António, que deixasse o homem comigo. Só que nesta altura o Alex já estava a sangrar de tanta porrada que o Santo António, lhe havia dado. Num lance aéreo subimos os dois. Ele caiu por cima de mim. O lainer disse ao árbitro que eu havia esmurrado o Alex. E, como ele já estava a sangrar, o senhor Júlio Aveiro, expulsou-me”. Mais tarde esclareceu-se a situação, porque, quer o juiz bem como o auxiliar eram colegas de serviço de alguém que me é familiar, na Abamat, onde trabalhavam, mas, já eu tinha sido penalizado.”

O antigo defesa central do Petro de Luanda, diz que não tremia diante de nenhum avançado, mas tinha um grande respeito pelo Carlos Alves. “ Ele era um jogador possante e muito matreiro. Tinha jeito para irritar os defesas e aproveitava-se disto. Quisemos saber se não tinha problemas com o Ndunguidi. Ele disse: “ foi um grande astro, mas dificilmente ele brilhava onde eu estivesse, talvez, por conhece-lo bem. Com a bola nos pés era um autêntico perigo. Em certa ocasião, diante de uma equipa congolesa, passou por sete adversários e marcou um grande golo”.


A NÍVEL DE CLUBES
Peripécias marcantes
na competição africana

Chico Afonso, disputou vários jogos a nível dos Clubes dos Campeões de África. Mas dois deles marcaram-lhe profundamente. Ele conta, “ o primeiro foi contra a Canon de Yaoundé, em pleno estádio Ahmadou Ahidjo, nos Camarões. Depois de termos empatado a zero em Luanda, tínhamos no mínimo de empatar com golos lá. Na época, o Canon era o tri- campeão africano e dominava o futebol no continente. A escassos minutos do fim do jogo estávamos empatados a dois golos. Tínhamos o jogo bem controlado. Nisto, o árbitro, da República Democrática do Congo, Sebastian Mbaya, assinala um livre inexistente contra nós. A bola foi bombeada para a nossa área e o Emanuel Kundé, sobe, trança as pernas e cai sozinho sem nenhum toque da defesa e põe-se aos gritos. O árbitro corre em direcção à nossa área e marca grande penalidade”.

“ Perdi a cabeça” diz o antigo jogador tricolor “ fui atrás do homem e quis agarrá-lo e estrangulá-lo. Mas ele foi rápido esgueirou-se e escapou das minhas mãos. Eu estava tão furioso que quando o agente da Polícia tentou-me parar, eu empurrei-o e ele caiu, e fez algumas escoriações. Só depois de ver o homem no chão é que percebi que tinha de parar, isso, após notar a presença das boinas vermelhas. O árbitro nem teve coragem de me admoestar com um amarelo! Foi uma autêntica batota, foi um roubo”.

Em 1985, na República Centro Africana, no jogo contra o Tempête Mocaf de Bangui, Chico Afonso, e seus companheiros passaram por outras vicissitudes.
Antes do jogo já haviam passado por várias situações desmoralizantes que eram ou são muito comuns em África: desde comida mal confeccionada, autocarros impróprios para jogadores de alta competição e outras situações caricatas, como roubo de bolas à hora de reconhecimento do terreno de jogo, os ladrões mandaram as bolas para fora do recinto e à seguir pularam o muro, mas como o angolano não leva desaforo para casa, eu, Nsumbo, Abel, Lufemba e Bodú saltamos o muro apanhamos e “atropelamos” os assaltantes e regressamos para o treino. Após o regresso ao treino, Clemente chamou-nos malucos e terminou o treino logo à seguir. A polícia não se fez esperar. No dia do jogo e Já em campo, as coisas complicaram-se quando Laika, marcou o primeiro golo. “ O Laika, foi festejar o golo junto à rede de protecção. O público estava tão furioso que lançou um grande crucifixo em madeira contra o Laika que chegamos a temer o pior, em relação ao nosso atleta. A polícia que deveria acudir-nos, também foi para cima de nós, ameaçando-nos com cassetetes” disse.


Clemente era muito influente

Para Chico Afonso, o professor António Clemente, era mais que um treinador: “ Além de treinador, o Clemente era um grande psicólogo e excelente condutor de homens. Ele tinha soluções para tudo e enquanto esteve entre nós foi um autêntico tapa-furos. Houve uma altura em que não tínhamos condições para alojar os jogadores que vinham das províncias e não só, contratados pelo clube. Ele falou com a direcção e propôs a construção de quatro casas, ai no Catetão, com dois quartos, uma sala e WC cada uma, para hospedar os jogadores. Hoje, as referidas casas foram transformadas em escritórios. Foi ele que dirigiu aquelas obras “frisou.


Perfil

Nome: Francisco Afonso

Filiação: Quiala Afonso e de Joaquina Francisco Domingos

Naturalidade:  Luanda

Estado: civil Casado

Filhos: 12

Calçado :44

Perfume : Davidoff, Paco Rabane, Kouros

Prato preferido: Funjada de calulú e feijão de óleo de palma

Musica: Semba, fado e quase tudo que se faz ao nível de gospel

Do que mais tem medo: Da mentira

Cor preferida: Branco e castanho

Acredita em Deus: Evidentemente

Religião: Tocoísta

País que gostaria de conhecer: Japão

Cidade angolana: Luanda

Clube do coração: Petro de Luanda

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