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Cheias em Calumbo provocam prejuízos avaliados em mais de trezentos milhões

Três mil famílias camponesas da Comuna de Calumbo, mu-nicípio de Viana, província de Luanda, sofreram prejuízos avaliados em mais de 300 milhões de kwanzas, em consequência das cheias provocadas pelo aumento dos níveis do caudal das águas do maior Rio de Angola, a partir da barragem hidroeléctrica de Cambambe, na província do Cuanza-Norte.

21/03/2020  Última atualização 19H11
Vigas da Purificação | Edições Novembro © Fotografia por: Inundações podem provocar carência alimentar e os principais mercados vão ressentir-se

Uma equipa do Jornal de Angola, que percorreu a montante e a jusante do leito do rio Kwanza, acompanhada pelo Administrador Comunal para a área técnica e infra-estruturas, Gilberto Vicente, constatou a inundação de, pelo menos, trezentos pomares de laranjeiras, limoeiros, goiabeiras, bananeiras, papaias e abacaxis, numa extensão de dois mil e quinhentos hectares. 

A fúria das águas do rio Kwanza irrompeu lavras adentro, penetrando em mais de três quilómetros de extensão de áreas cultivadas e semeadas, tendo provocado a submersão de mais de cinco mil toneladas de mandioca, batata-doce e hortícolas diversas, deixando as três mil famílias em situação de penúria alimentar.
Operações de busca e salvamento de pessoas e bens estão a ser empreendidas pelas autoridades administrativas comunais por, segundo o vice-administrador, existirem camponeses e agricultores que se recusam a abandonar as suas propriedades, por não terem onde se fixar e, também, na tentativa de se protegerem dos roubos e saques do pouco que sobrou das inundações, tendo em conta que o caudal atingiu sete metros de altura.
Não tendo o que comer, os camponeses usam como alimento diário carne de jibóia defumada. De acordo com os camponeses, os répteis invadiram os terrenos buscando ratazanas e pequenos roedores, para se alimentarem.
As operações de busca e socorro, coordenadas pela Admnistração Comunal de Calumbo e apoiadas pela delegação local da capitania do Porto de Luanda, permitiram resgatar setenta famílias camponesas dos campos de produção de Kingolo, Kaquila, Mbanza Calumbo, Vila de Calumbo, Quinzenza e Terra Nova. Nestes locais, foram destruídas setenta casas, trinta e três palhotas e vinte casebres, enquanto que canoas, redes e armadilhas de pesca foram arrastadas.
Entre os danos causados pelas cheias, está o cemitério de Kingolo. O local, usado para a gravação das cenas do filme “Ginga Mbande, a Rainha de Angola”, ficou completamente inundado. 

Desde a sede comunal de Calumbo a jusante, ficou destruída a barreira de protecção do canal de condução de água, que dá acesso aos tanques de captação e tratamento das águas do Kikuxi. A isso, juntam-se cinco restaurantes, ao longo das margens do rio, que ficaram submersos.
O caudal das águas do rio Muxita, que nasce na comuna do Bom Jesus, Icolo e Bengo, e desagua no Kwanza, na zona do embarcadouro do Parque Nacional da Quiçama, também transbordou e as cinquenta lavras ribeirinhas em redor desapareceram, mas não se registou qualquer vítima humana.
Segundo os sinistrados, as autoridades “agiram rápido e começaram por evacuar mulheres e crianças de tenra idade. Os pescadores e agricultores ficaram no terreno, por não terem onde refugiar-se”.

 

  Ancião de 90 anos perdeu o gado e cinco hectares de mangueiras

Francisco Sebastião António, ancião de 90 anos, nasceu e sempre viveu em Kingolo, a dois metros da berma do rio, onde permanece com mais cinco trabalhadores, pastores seus. 

Perdeu todo o gado e cinco hectares de mangueiras e laranjeiras, bem como mandioca e batata-doce. Come carne de gibóia fresca ou defuma-da, se aparecer, e improvisou um pequeno acampamento onde passa as noites em cama de pau, coberta com mosquiteiro. Quando chega o dia, vai caçar ou pescar para sobreviver.
“O Estado está longe. Não pode apoiar todos, então não cruzaremos os braços. Senão morreremos de fome”, disse. Com o ancião, vivem Domingos Francisco Tomás e Tomás Chinguéia Paulo, pastores dos bois do mais-velho. Ambos, são naturais do município da Chibia, província da Huíla.
Adão Sebastião, de 62 anos, é outro agricultor sinistrado pelas inundações do médio Kwanza. Perdeu trezentos cachos de banana, mais de mil toneladas de beringela, quiabos, batata-doce, mandioca, melancia, bem como três pomares com dois mil e trezentos hectares.
Com uma extensão territorial avaliada em 210 mil quilómetros quadrados e uma população de 69 mil habitantes, a comuna de Calumbo é muito pobre, carecendo de infra-estruturas de desenvolvimento e tem na agricultura intensiva de irrigação, suportada pelas abundantes águas do Kwanza, e na actividade piscatória, as suas principais fontes de rendimento.
As autoridades estimam que as inundações vão provocar uma carência generalizada de alimentos e que os principais mercados, tais como o de Luanda Sul , Quilómetro Trinta, bem como dos Congolenses vão ressentir-se.

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