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Cerca de 20 milhões de vacinas necessárias para a segunda dose

África precisa de pelo menos 20 milhões de doses da vacina AstraZeneca/ Oxford, nas próximas seis semanas, para conseguir administrar as segundas doses a todos os que receberam a primeira, disse a Organização Mundial de Saúde (OMS).

30/05/2021  Última atualização 10H58
© Fotografia por: DR
"À medida que os fornecimentos escasseiam, a partilha de doses é uma solução urgente, crítica e de curto prazo, para assegurar que os africanos com maior risco de Covid-19 obtenham a tão necessária protecção”, disse Matshidiso Moeti, directora regional da OMS para África.
"África precisa de vacinas agora. Qualquer pausa nas nossas campanhas de vacinação levará à perda de vidas e à perda de esperança”, acrescentou a responsável da OMS, sexta-feira, na conferência de imprensa semanal sobre a evolução da pandemia no continente africano.

A organização recorda que uma dose única da vacina da AstraZeneca dá cerca de 70% de protecção durante pelo menos 12 semanas, enquanto a vacinação completa, com um intervalo de 12 semanas, dá 81% de protecção durante um período prolongado.
Por isso, defende a OMS, são necessários pelo menos 20 milhões de doses para conseguir vacinar com a segunda dose, num período entre oito e 12 semanas, todos os que receberam a primeira toma do imunizante.

Além destas, são necessárias mais 200 milhões de doses de qualquer vacina Covid-19 aprovada pela OMS para que o continente possa vacinar 10% da sua população até Setembro de 2021. Até à data, foram administrados apenas 28 milhões de doses de diferentes vacinas nos países africanos, o que representa menos de duas doses por 100 pessoas.
Números que contrastam com os 1,5 mil milhões de doses de vacina dadas a nível mundial.

"É demasiado cedo para dizer se África está na iminência de uma terceira vaga. No entanto, sabemos que os casos estão a aumentar e o tempo está a passar, pelo que apelamos, urgentemente, aos países que vacinaram os seus grupos de alto risco para que acelerem a partilha de doses para proteger totalmente as pessoas mais vulneráveis”, pediu Moeti.
O apelo da directora da OMS para África reforça o pedido também feito pelo director-geral da organização, Tedros Adhanom Ghebreyesus, na Assembleia Mundial da Saúde, no início da semana, para que todos os Estados-membros apoiem os esforços de vacinação nos países em desenvolvimento.
A França foi o primeiro país a partilhar vacinas contra a Covid-19 da sua reserva, doando mais de 31.000 doses à Mauritânia, tendo outras 74.400 para entrega iminente, de um compromisso de partilha de meio milhão de doses com seis países africanos nas próximas semanas.
Portugal doou também 24 mil doses a Cabo Verde, no âmbito do seu compromisso de destinar 5% das vacinas adquiridas para os Países Africanos de Língua Portuguesa e Timor-Leste. A União Europeia e os Estados-membros prometeram mais de 100 milhões de doses para países de baixos rendimentos, até ao final de 2021.

Os Estados Unidos da América anunciaram que vão partilhar 80 milhões de doses e outros países de alto rendimento manifestaram interesse em partilhar vacinas. Para a OMS, "a aceleração destas promessas é crucial”, sendo a plataforma Covax "uma ferramenta comprovada para uma entrega rápida”. Também os países africanos que não conseguem utilizar todas as suas vacinas estão a partilhá-las.

A OMS reafirma a necessidade de, a longo prazo, África aumentar a sua capacidade de fabrico de vacinas, admitindo, no entanto, que "não há uma solução rápida” e que todo o processo "pode demorar anos”.
"As renúncias à propriedade intelectual são um primeiro passo crucial, mas devem ser acompanhadas pela partilha de conhecimentos especializados e tecnologias essenciais”, defende a organização.
Pelo menos 100 países membros da organização, incluindo os 54 africanos, patrocinam um projecto de resolução nesse sentido, liderado pela Etiópia, e que foi discutido na Assembleia Mundial da Saúde da semana que termina.
A resolução visa reforçar a produção local, promover transferências de tecnologia e inovação e alcançar um acordo sobre os Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados com o Comércio.

Continente vive as piores crises de deslocados
África enfrenta oito das dez crises de deslocados mais esquecidas do mundo, segundo o Conselho Norueguês de Refugiados (NRC), que coloca a Venezuela e as Honduras nessa lista em quarto e quinto lugares, respectivamente.
Na sua classificação anual sobre crises de deslocados mais negligenciadas em 2020, o NRC classificou a República Democrática do Congo (RDC), que tem "mais de cinco milhões” de deslocados internos, em primeiro lugar.
Segundo o NRC, um milhão deixou a RDC e fugiu para países vizinhos, onde vive como refugiado. Este país está a passar por "uma das piores crises humanitárias do século XXI. Uma combinação mortal de violência em espiral, níveis recordes de fome e abandono total levou a uma mega crise que justifica uma mega resposta”, disse o secretário-geral do NRC, Jan Egeland.

As crises em África dominam há mais de um ano o índice realizado pela organização humanitária, na qual a RDC é seguida pelos Camarões, Burundi, Venezuela, Honduras, Nigéria, Burkina Faso, Etiópia, República Centro-Africana e Mali.
Camarões, que liderou a lista em 2018 e 2019, é afectado, entre outros problemas de violência, por ataques do grupo ‘jihadista’ nigeriano Boko Haram no extremo norte, que forçaram "mais de 300.000 pessoas a fugir de casa”.
Fora de África, destaca-se a crise na Venezuela, que no ‘ranking’ de 2019 ficou em quinto lugar e no ranking de 2020 subiu para a quarta posição.

"Os venezuelanos continuaram a sofrer com a pressão de sete anos de queda livre económica e hiperinflação, além de um impasse político em 2019, causado pelo presidente da Assembleia Nacional, liderada pela oposição, que se declarou Chefe de Estado”, disse a organização humanitária.
De acordo com o NRC, mais de cinco milhões de venezuelanos fugiram do país devido à "repressão e à escassez de alimentos e medicamentos, desde 2014, tornando-se uma das maiores crises de deslocados do mundo”.
"Embora o fluxo de pessoas para fora da Venezuela em 2020 tenha sido travado pelo encerramento das fronteiras e restrições de movimento devido à pandemia (Covid-19), as medidas levantaram problemas de protecção para refugiados e migrantes em trânsito”, disse Jan Egeland.

As Honduras entram no ‘ranking’ pela primeira vez, "devastada por duas tempestades tropicais em 2020” e "anos de insegurança alimentar crónica, gangues de criminosos, violência de género, alterações climáticas e desemprego generalizado, agravado pelas consequências económicas da Covid-19”.
O NRC indica também sobre as Honduras, de onde "dezenas de milhares de pessoas foram deslocadas pela violência ou perderam a esperança de uma vida decente em 2020 e embarcaram em viagens perigosas em busca de segurança no México e nos Estados Unidos”.

Além dos problemas específicos de cada país, Egeland advertiu que "a pandemia da Covid-19 fez com que milhões de pessoas, que já lutavam para sobreviver em crises negligenciadas, ficassem ainda mais para trás”.

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