Cultura

Centros de arte devem incluir conceitos mais amplos

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Entendemos os centros de arte e de cultura como um conceito amplo, que inclui, por exemplo, as instituições formais – escolas e academias de arte, museus, galerias de arte, livrarias, teatros, ou cinemas -, a reapropriação de casas e de edifícios abandonados, os centros recreativos e culturais, os hotéis e restaurantes com música ao vivo, os espaços habilitados nos centros comerciais ou ainda os novos empreendimentos concebidos especificamente para este fim.

23/07/2022  Última atualização 09H55
Palácio de Ferro é um dos espaços culturais na capital do país que faz a diferença e não obedecem aos horários da função pública © Fotografia por: Paulo Mulaza | Edições Novembro
Os centros recreativos e culturais que utilizam a música angolana de qualidade como seu principal atractivo são simultaneamente, tanto espaços de arte e de cultura, como espaços de lazer e de entretenimento. Aqueles que os frequentam podem ter uma boa e sólida base musical, que permitirá, caso se interessem mais, a ter sólidos conhecimentos sobre a história da música urbana. São típicas instituições que se encaixam com alguns dos nossos hábitos e costumes.

No entanto, salvo raríssimas excepções e de quando em vez, ir visitar os centros de arte e cultura "tradicionais”, em Luanda, é uma seca. O entendimento do museu como uma instituição morta prevalece sobre a sua consideração como espaço vital de produção de conhecimento e de circulação de ideias.

Ninguém quer entrar em lugares que cheiram a mofo, decadentes e nada atractivos. A ausência de uma programação regular e sistemática de actividades é uma característica dos centros de arte e de cultura estatais. Na sua maioria, os horários em que eles abrem não são os que as pessoas podem ir visitar e quando as pessoas, individualmente ou em grupo, podem ir visitá-los, normalmente estão fechados.

Isso não significa que não haja excepções, dignas de serem assinaladas. Alguns dos centros de arte e de cultura, em Luanda, fazem a diferença e é sempre agradável ir visitá-los ou assistir as actividades que organizam e geralmente não obedecem aos horários da função pública e têm maior flexibilidade: o Memorial Dr. António Agostinho Neto, na nova Marginal, o Palácio de Ferro, na baixa da cidade, a Casa das Artes, em Talatona, a Geração 80, no Alvalade, a Casa Rede, na Avenida Brasil, as actividades organizadas pelo Instituto Camões - Centro Cultural Português, pelo Goethe Institute ou pela Aliança Francesa, incluindo o trabalho da Kinoyetu ou o da Fundação de Arte Nesr são alguns exemplos incontornáveis.

Ainda assim, pelo menos em Luanda, desde um tempo a esta parte, vêm surgindo ou ressurgindo novos espaços de artes e de cultura, cuja quantidade ainda não corresponde com a da densidade populacional da cidade e as suas periferias e, por conseguinte, tanto pelo número, como pela sua diversidade, estão muito longe de satisfazer as necessidades e as inquietações artísticas e culturais básicas dos cidadãos e do que costumamos chamar de "classe artística”.

Há certas lógicas e dinâmicas que se vêm instalando em função das suas localizações, dos instrumentos que  utilizam, das principais actividades que promovem, das infra-estruturas instaladas e, sobretudo, em função da estrutura organizativa. Nesse sentido, os resultados não são lineares: ou seja, nem sempre as melhores instaladas e localizadas funcionam melhor ou promovem produtos artísticos e culturais mais bem conseguidos, actuais e de particular interesse ou relevância.

Outra dinâmica assente em Luanda e quiçá, no país, é a falta de distinção clara entre os produtos artísticos e culturais e o lazer e o entretenimento, sendo que estes últimos fazem parte dos primeiros, mas não são exactamente a mesma coisa: tratando-se de produtos de lazer e de entretenimento ou se, quisermos de cultura de massas, estes tratam é do prazer inconsequente e escassamente educativo, enquanto que os produtos artísticos e culturais de relevo, propriamente ditos, o são, sobretudo pela sua óptima qualidade e excelência.

Evidentemente, os limites entre uns e outros não são estanques e há certo subjectivismo e relativismo na hora de os avaliar: perde-se muito quando não existem parâmetros e referências que permitam qualificar, explicar e analisar o que se vai fazendo, um deficit que conspira contra a elevação dos índices de qualidade dos produtos artísticos e culturais, em  circulação entre nós: é como se, pese embora os enormes esforços que fazem para existirem enquanto tal, os centros de arte e de cultura que funcionam, de um modo geral, tendessem a nivelar por baixa na qualidade do que apresentam ao público.

Com o panorama descrito é evidente que, por um lado, os centros de arte e cultura tradicionais em Luanda precisam de um bom abanão em termos de gestão de rotina e de adequação no seu objecto social, empoderando-os para que, com os devidos recursos financeiros e humanos, possam ter uma programação à altura do que os próprios representam no tecido social da cidade: é sabido que a maior parte deles recebe um orçamento de funcionamento que, de tão escasso, pode ser designado de subsistência.

Por outro, já é hora do Estado activar todos os mecanismos que lhe permitam executar a sério as políticas que tenha desenhado (e quando não, deve desenhá-las) para permitir o acesso das instituições privadas, ou com gestão co-participada, aos fundos públicos de gestão e de realização de projectos, através de mecanismos de avaliação, de controlo e de prestação de contas, capazes de contribuir na identificação e selecção de parceiros idóneos e profissionais do sector, capacitados para fazer um trabalho de utilidade pública, nem que em pequena escala, mas sempre com qualidade, imaginação criativa e compromisso com o desenvolvimento da arte e da cultura.

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