Cultura

Centro de Arte Padu é celeiro de talentos e de novos mestres

Francisco Pedro | Lubango

Jornalista

O pintor, escultor, estilista e ceramista Mestre Padu crê que o facto de ter passado por situações de muito sofrimento foi o elixir que o levou à prática artística.

05/06/2024  Última atualização 15H15
Centro de artes surgiu para fazer frente aos actos de delinquência praticados por jovens do bairro Santo António, na capital da província da Huíla © Fotografia por: FOTOS: Arimateia Baptista | Edições Novembro

Cristão, natural do Uíge, Mestre Padu vive na província da Huíla há 29 anos. Ao debruçar-se sobre o projecto do Centro de Arte Padu, uma iniciativa privada que mereceu o apoio do Governo Provincial da Huíla, afirmou que, se o governo local continuar a apoiar,  "nós podemos retirar da rua cerca de 500 jovens delinquentes”.

Embora o centro já exista há dois anos, ainda continua com muitas dificuldades, precisando neste momento de instrumentos de trabalho, como um forno para cerâmica.

A adesão de mulheres ao projecto tem sido elevada, particularmente no corte e costura, em que frequentam o curso 15 meninas, além das que já terminaram a formação, quatro no curso de pintura e duas no de escultura.

O director e patrono do Centro, Mestre Padu, lamentou o facto de disporem apenas de uma máquina de costura, o que impede a produção de peças de roupa e adereços de cozinha e limpeza para venda, criando desse modo um meio de subsistência.

"Por enquanto estamos limitados a dar formação, devido  à existência de apenas uma máquina de costura. Por este facto, a área de produção de roupas não está a funcionar. Se tivéssemos mais máquinas, teríamos muitas jovens a criarem formas de auto-sustento”, lamentou Mestre Padu, nome que lhe veio pela forma como ajuda a ensinar artes e ofícios a crianças e adolescentes de famílias vulneráveis.

O Centro admite formandos com a idade mínima de cinco anos e adultos sem limite de idade. Existem duas modalidades de admissão, uma das quais para famílias vulneráveis, que é totalmente gratuita e a mais concorrida, e a outra para jovens e adolescentes de famílias com algumas posses, aos quais se cobra pela inscrição mil kwanzas e uma mensalidade de cinco mil kwanzas.

Mestre Padu disse que são crianças e adolescentes "com muito talento”.

Projecto do Centro

Mestre Padu conta que pretendia, sozinho, comprar uma casa no bairro Lalula para erguer o Centro, mas não conseguiu por falta de dinheiro. Nessa altura, já tinha mudado de bairro, coincidentemente para outro com o memo nome, em que a delinquência era, também, uma prática constante do quotidiano juvenil.

Para promover alguma acção social e reduzir a delinquência no bairro, Mestre Padu diz ter solicitado apoio ao Governo Provincial da Huíla, que prontamente aceitou propiciar essa ajuda, sublinhando que quase todos os governadores que passaram pela província tiveram conhecimento do projecto, nomeadamente Ramos da Cruz, Isaac dos Anjos, João Marcelino.

Tchipingue e Luís Nunes, que depois de visitas ao espaço decidiram assumir os custos da construção do Centro, cuja inauguração foi feita no dia 20 de Maio de 2022, pelo actual governador, Nunes Mahapi. "Todos eles têm uma história relacionada com o Centro”, realçou o patrono.

Na óptica de Mestre Padu, desde a ideia de construção do Centro até agora passaram-se 22 anos, um projecto que custou 27.800.000 kwanzas aos cofres do governo local.

Actualmente, para dinamizar o Centro, existe a Cooperativa de Artistas da Huíla, que dispõe de três lojas de venda de obras de arte na cidade do Lubango, uma junto à Sé Catedral, outra adjacente à Direcção da Assistência e Reinserção Social e uma outra no interior do Supermercado Kero.

Arte contra a delinquência

O Centro surgiu para fazer frente aos actos de delinquência praticados por jovens do bairro Santo António, onde vivia Mestre Padu.  Conta que vivia na zona da Masqueira, e da janela de casa observava muitas cenas desagradáveis de violência gratuita.

"Via jovens a ‘martelarem’ os mais velhos”, por isso comecei a pensar como acabar com essas práticas. Os actos de delinquência ocorriam, geralmente, a partir das 17 horas, período em que as senhoras saíam do mercado, na zona dos Caminhos de Ferro, para atravessar o lado oposto, no bairro Santo António, onde eram regularmente assaltadas.

Referiu que tentou trabalhar com a Polícia Nacional e o Serviço de Investigação Criminal (SIC), infelizmente não obtinha bons resultados, porque os delinquentes eram presos e pouco tempo depois acabavam foragidos das prisões, voltando às mesmas práticas.

Foi assim que Mestre Padu teve a ousadia e coragem de convidar, de forma individual, cada um dos jovens delinquentes, ocupando-os nas mesmas horas em que antes assaltavam as pessoas. Mestre Padu disse que se encarregava de comprar pão e outra alimentação para evitar que passassem fome e pensassem em voltar à vida anterior de delinquente enquanto aprendiam as primeiras lições artísticas.

"Passávamos juntos todo o dia, não lhes faltava comida, os pais já estavam fartos deles, e quase ninguém acreditava que tudo se estava a passar na minha sala, que mais tarde se tornou pequena para o número de jovens convencidos a deixar a delinquência e seguir uma vida digna através das artes”, explicou, sublinhando que esse foi um dos motivos pelos quais ganhou um prémio pela iniciativa.

Referiu que eram jovens

cujos pais já não depositavam nenhuma esperança na mudança de comportamento, e que no fim os próprios progenitores diziam ao mestre "esse é teu filho, nós já não sabemos como cuidar dele”. Mais tarde, o grupo cresceu e hoje muitos deles conseguem viver da arte.

Dom como terapia

Mestre Padu conta que começou com sete jovens do bairro Santo António, mais tarde decidiu criar o centro na zona da Lalula, porque era também uma questão de delinquência que afligia os moradores de uma área crítica em termos de segurança.

Sobre o significado do seu nome, Padu, disse que se traduz como uma pessoa optimista, que luta para vencer.

"Não foi fácil retirar os jovens da rua para prendê-los aqui no Centro, ensiná -los a desenhar, pintar ou esculpir, ao contrário da vida que eles levavam, para se tornarem homens válidos, úteis para a sociedade, em geral, e em particular para as suas famílias”, ressaltou.

Como resultados, deu a conhecer que muitos dos seus alunos hoje vivem e trabalham no estrangeiro, como o pintor André Malenga, em Portugal, e o pintor Kamati, no Brasil. Alguns deles faziam parte do projecto SOS-Criança, onde Mestre Padu colaborava, dando aulas a essas crianças.

Algumas crianças do projecto SOS, depois de atingirem os 18 anos, beneficiaram de bolsas de estudo no Brasil, Portugal e outros países, onde hoje vivem da arte.

"Por exemplo, o Pedro Kassanda, galardoado com o Prémio Ensa-Arte, passou pelo Centro. Aqui, como no mar, as pessoas é que sabem se levam peixe, água ou areia, ou tudo isso, mas levam sempre alguma coisa”, enfatizou Mestre Padu, afirmando que 99 por cento dos jovens artistas plásticos da Huíla passaram pelo Centro Padu, e "os artistas que não falam do espaço é um problema de consciência, algo pessoal”.

Questionado sobre o poder da arte em tirar pessoas de vícios para que as mesmas sejam úteis à sociedade, o artista considerou que a "magia da arte em transformar pessoas más em boas deve-se ao facto de ser uma terapia, que atinge de maneira profunda e diferente a vida de qualquer pessoa. E dá uma alegria quando vemos um ex-delinquente a pintar, a ver que a obra está a ficar bonita, no momento em que ele contempla o seu trabalho ou quando prefere ficar no atelier até concluir o trabalho, ao invés de ir gastar tempo em actos indignos como outrora, ficando afastado totalmente da delinquência”.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Cultura