Cultura

Centro Cultural e Recreativo Kilamba festejou os seus vinte anos de actividade

Analtino Santos

Jornalista

Os Kiezos, Tony do Fumo Filho, Banda Movimento, Lulas da Paixão e Dom Caetano foram as atracções para uma animação musical que serviu para assinalar a efeméride e, também, matar as saudades aos frequentadores daquela que é considerada a Catedral da Música Angolana.

09/01/2022  Última atualização 06H45
© Fotografia por: DR
Domingo, 19 de Dezembro, um dia antes da data que marca o aniversário do Centro Recreativo e Cultural Kilamba, o que aconteceu foi uma farra rija, um ambiente  típico das festas de quintal que no passado animavam as zonas suburbanas luandenses e não só.

O momento também foi aproveitado para recordar artistas e personagens que actuaram no local e que já deixaram este mundo como Zé Mueleputo, Juca Vicente, Nando Batera, Pakito, Carlos Timóteo "Calili”, Mamukueno, Zecax, Zé Keno, Chico Montenegro, Mateus Pelé do Zangado, Morimba Show, Candinho e outros. Domingos António Miguel da Silva "Kituxi”, que tinha acabado de falecer dois dias antes, foi homenageado em palco pelos "kandengues” dos Kiezos.

Os seus kandengues aproveitaram a actividade para homenagear o kota, abrindo o concerto com "Monami Ua Seca”, um dos raros temas onde Kituxi tem a voz principal. Hildebrando Cunha (solo), Gegé Faria (contra-solo), Dulce Trindade (baixo), Habana Mayor (congas), Tony Samba (teclados), Sabino (bateria), Manuelito (dikanza e voz) e Zé Manico (vocalista principal) exploraram alguns dos mais representativos temas do conjunto como "Obrigado Meu Amigo”, "Candonga”, "Za Boba”,  "Maximbombo”, "Milhoró”, "Kuxingue Ngamba”, "Princesa Rita” e outros não regulares nas actuações.

O conjunto ainda acompanhou Tony do Fumo Filho para interpretar os temas do pai, antigo vocalista que teve sucessos com os Kiezos. Do progenitor, Tony do Fumo Filho reviveu e revisitou temas como "Kiezus Já Bu Kia”, "Kamba Kamba”, "Rumba Kalumba”, "Sul Africano”, "Monami Messene”, "Kiasabalo” e outros sucessos.

Os Kiezos começou a ser moldado em 1965, quando Domingos António Miguel da Silva "Kituxi”, na zona do Kaboloboxi, no bairro Marçal, juntou os vizinhos e amigos Marito, Avozinho, Adolfo Coelho e Gabi Pireza para formarem o mais antigo grupo musical angolano em actividade. Kituxi vinha de uma experiência das Turmas, pequenas formações que antecederam os conjuntos modernos, onde se notabilizou em 1964.  Antigo trabalhador da FIB -Fabrica Industrial de Borracha "Macambira”, comprou a primeira viola para o conjunto e também foi o primeiro guitarra ritmo. Desde então, vários artistas passaram pelos Kiezos: Marito, Vate Costa, Adolfo Coelho, Humberto Vieira Dias, Juventude, Hélder Leite, Carlitos Vieira Dias, Joãozinho Morgado, Carlos Timóteo "Calili”, Zecax, Toni do Fumo e tantos outros.


Banda Movimento

A Banda Movimento foi o grupo escolhido para acompanhar os outros dois artistas individuais, Lulas da Paixão e Dom Caetano. O agrupamento da Rádio Nacional provou ser a principal referência quando o assunto é tocar a música de raiz e dar o suporte aos artistas que estão nesta linha. "Tia”, "Josefa”, "Ta Amarrado” e "Está Stalar”, músicas de consumo obrigatório da Banda Movimento, estavam no repertório, com outros sucessos nacionais. Para tornar mais sagrada a festa, o grupo fechou o espectáculo com um tema da linha Gospel.

Lulas da Paixão foi o primeiro artista a ser acompanhado pela Banda Movimento, com temas como "Tio”, "Kamaka”, "Pepé” e "Xikola”. Foi uma curta mas bem aproveitada presença em palco. O artista, que tem o Kilamba como um dos locais que o impulsionou para uma carreira como cantor, era apenas reconhecido como compositor, antes de conquistar sucesso como intérprete com as seguintes canções: "Nguami  maka”, "Garan”, "Nga quinga nga lembua”, "Kim”, "Xicola”, "Kalumba Eva”, "Muadiakime” (Kuabite Muvu) e "Pepé”.

Temas como "Kamaka” com o amigo Taborda Guedes, "Mukagiami”, "Lolito”, para Carlos Burity, "N’ga Kinga”, com Pedrito, "Ti Chico”, na voz de  António Paulino e "Zinha”, para Dina Santos provam este lado deste axiluanda (luandense).


Dom Caetano

Dom Caetano recorreu a temas como "Diala Dya Hongo”, "Ueji Ki Usokana”, "Vizinha”, "Tia” e fechou com "Nova Cooperação”.  O artista é uma voz reconhecida da música angolana e o seu percurso artístico começou a ter visibilidade no Duo Dom Caetano e Zeca Sá, e posteriormente nos conjuntos Os Jovens do Prenda, Instrumental 1º de Maio, Semba África e Banda Movimento. Tem os álbuns "Mateus:7:7”, "Adão e Eva”, "Esperança Divina”, assim como participações em vários projectos discográficos.  Dom Caetano realça os grupos que o forjaram como artista no Sambizanga e Lobito como Seven Boys e Combo Revolution, este último em Cuba.

Com dois álbuns, "Kufikissa” e "Espontaneidades”, a Banda Movimento foi fundada a 2 de Março de 1999 e era apadrinhada pelo Movimento Nacional Espontâneo. Justino Fernandes, António Fiel "Didi” e Job Capapinha foram as figuras que impulsionaram o surgimento da banda. Em 2002, o conjunto passou a integrar a Rádio Nacional de Angola, altura em que Chico Madne, funcionário da estação radiofónica se juntou à banda.

 Na primeira formação estavam  Romão Teixeira (baterista), Diogo Sebastião "Kintino” (guitarra ritmo) e o baixista Canhoto. De outros conjuntos juntaram-se Teddy Simão Nsingi (guitarra solo), Santos Fortuna, Massoxi (percussão), Augusto Mateus e Neto, teclas. Na composição actual encontramos Mister Kim, Massoxi Miguel Correia (percussão), Chico Madne (teclado), Nininho (teclado), Teddy Nsingui (viola solo), Romão Teixeira (bateria), Mias Galheta (baixo), Kintino (guitarra ritmo), Beth e Gigi (coros).


Duas décadas a promover
a música e a cultura angolana


O trabalho do Centro Recreativo e Cultural Kilamba em prol da cultura angolana começou no dia 20 de Dezembro de 2001, quando o seu patrono, António Pitra Neto, materializou o desejo de dar vida e manter a mística do Salão Maria das Escrequenhas (ou Rebita Dr. António Agostinho Neto). Vários governantes e personalidades ligadas ao mundo da cultura e da política testemunharam esse trabalho, com realce para o então Presidente da República, José Eduardo dos Santos.

Passaram pelo recinto, ao  longo destes 20 anos, os principais nomes da música angolana. Artistas veteranos há muito fora dos palcos voltaram aos espectáculos como Mamukueno, Massano Júnior, Zecax, Givago e outros. Do lado dos mais jovens Yuri da Cunha, DJ Manya, Margareth do Rosário, Eddy Tussa, Puto Português, Kristo, Karina Santos direccionaram-se para a música matricial angolana. Também passaram pelo Kilamba artistas estrangeiros como Gilberto Gil, na época ministro da Cultura do Brasil, Bana, Tabanka Djazz e outros. 

Por arte e engenho dos seus pensadores, o conceito de concerto, de resgate e valorização da música angolana acabou por ser replicado noutros espaços culturais. O Muzonguê da Tradição é a principal marca do Centro Recreativo e Cultural Kilamba, evento que acontece com uma periodicidade mensal e esteve interrompido devido à pandemia da Covid-19.

O Centro já teve na programação outras actividades, igualmente atractivas, como "Farrar ao Antigamente” e "Show à Sexta-feira”. É importante destacar que, para além da música, o Kilamba acolheu espectáculos de teatro durante muito tempo, com actividades regulares dos grupos, promoveu debates, dando contributo para um melhor conhecimento da cultura nacional. Ao longo das duas décadas, a música angolana de raiz foi sempre o principal foco do Centro.

Estêvão Costa, gestor do Centro, afirma que "a nossa música voltou a ser tocada nas rádios e executada ao vivo depois do nosso surgimento e da parceria com o Programa ‘Poeira no Quintal’, da Rádio Nacional”. E, por outro lado, acrescentou, "impulsionamos artistas jovens a apostarem na música de matriz angolana”.

Com a actividade alusiva aos 20 anos, realizada no passado domingo, foi confirmado o regresso, a partir de Fevereiro de 2022, do Centro Cultural e Recreativo Kilamba santuário dos ritmos e ambientes tipicamente mwangolê, onde grandes passistas riscam o chão ao som dos conjuntos e artistas do antigamente, bem como jovens que recriam "cassetes” antigas.

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