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Centenas de pessoas marcham em apoio às mulheres iranianas

Centenas de pessoas manifestaram-se, este domingo, em cidades da Turquia, exibindo retratos de mulheres iranianas que foram mortas na repressão às manifestações que agitam aquele país.

03/10/2022  Última atualização 05H55
Organização iraniana de defesa dos direitos humanos apela as autoridades a proteger as mulheres © Fotografia por: DR

As manifestações ocorreram em Istambul, Diyarbakir (uma grande cidade do Sudeste de maioria curda) e em Kadikoy (um distrito no lado asiático de Istambul).

Em Kadikoy, centenas de mulheres e homens gritaram slogans hostis ao Governo de Teerão e em apoio às mu-lheres iranianas.

"Os manifestantes agitaram rosas vermelhas, bandeiras iranianas e cartazes (com a mensagem) 'Mulheres, vida, liberdade', o principal slogan do movimento de protesto desencadeado pela morte da jovem curda iraniana Mahsa Amini, após a sua prisão pela Polícia de moralidade”, escreveu a agência France Press.

Em Diyarbakir, uma cidade localizada a 350 quilómetros da fronteira iraniana, cerca de 200 pessoas, a maioria mulheres, seguraram fotos de várias mulheres iranianas mortas desde o início da onda de repressão, bem como cartazes e uma grande faixa com o slogan "Mulheres, vida, liberdade”.

Uma manifestação de apoio às mulheres iranianas também foi realizada na noite de sábado, em Izmir, a terceira maior cidade da Turquia, reunindo várias centenas de pessoas, segundo imagens publicadas nas redes sociais e verificadas pela agência francesa AFP.

Pelo menos 92 pessoas foram mortas no Irão desde que os protestos começaram há duas semanas, disse a Organização Não-Governamental Iran Human Rights (IHR).

A organização com sede na Noruega disse, também, que além dos protestos relacionados com Amini, as forças de segurança iranianas mataram 41 pessoas na sexta-feira, em Zahedan, uma cidade da província Sudeste de Sistão-Baluchistão.

O Irão foi abalado por uma vaga de protestos após a morte de Masha Amini, de 22 anos, a 16 de Setembro, três dias após ter sido detida pela Polícia moral por ter infringido o estrito código sobre o uso de vestuário feminino previsto nas leis da República islâmica, em particular o uso do véu.

A família disse que Amini foi espancada até à morte durante a detenção.

A Polícia referiu que a jovem morreu de ataque cardíaco e negou ter exercido violência, enquanto autoridades oficiais anunciaram que o incidente estava sob investigação. Os protestos estenderam-se já a mais de 80 cidades iranianas. A morte da jovem motivou, também, manifestações de protesto em muitos países da Europa.


Diplomata acusa "figuras” externas de fomentar os protestos

O embaixador do Irão em Lisboa acusou "algumas figuras do país e de fora dele” que estão "contra o Governo” de instigarem as manifestações de protesto.

"Infelizmente, algumas figuras no país, aquelas que estão contra o Governo, tentam aproveitar-se deste tipo de situações e apropriaram-se dos protestos, tornando-os violentos. Em dois ou três dias, emergiu a violência. Alguns foram detidos pela Polícia na posse de facas e de armas. A Polícia não tem facas e só dispõe de armas com balas de borracha. Alguns agentes da Polícia foram mortos com facas e com balas reais. Depois atacaram bancos, mesquitas, edifícios religiosos, empresas privadas, enfim, houve uma disrupção na sociedade”, afirmou Jami.

Nas declarações à Lusa, Jami acrescentou que as instigações vêem também de fora do país, nomeadamente de comentadores que, nas televisões britânicas, apoiadas pela Administração norte-americana, "começaram a bombardear, notícias a dizer ter chegado a hora de uma nova revolução”.

Esses comentadores, acrescentou, exigem mudanças na lei do emprego e no comportamento da Polícia da moralidade, "o que tem desencadeado violência” com o objectivo de "obrigar o sistema a cair”.

"Inicialmente, há 10 dias, não era um protesto nacional. Eram protestos pequenos e pacíficos em Teerão e noutras cidades. As nossas leis permitem reuniões de protesto, até contra o Governo. Nessa altura, as forças da ordem foram bastante pacíficas em relação aos protestos”, defendeu Jami.

Sobre o que está na base dos protestos, o diplomata iraniano admitiu, porém, tratar-se de um "incidente triste e lamentável”.  "Isto aconteceu a uma jovem, oriunda de uma pequena localidade, que veio a Teerão para visitar a família e que não estava vestida decentemente, sem o 'hijab', de acordo com o que disse a Polícia da moralidade. Aconteceu algo que preocupa muitos iranianos. Todos ficaram preocupados com o incidente”, sublinhou Jami, lembrando que até o Presidente do Irão, Ebrahim Raisi, exigiu uma investigação ao incidente.

Segundo o diplomata iraniano, foi criada uma comissão especial para investigar o incidente, que elaborará um relatório e entregá-lo-á às autoridades judiciárias.

"Se houver má conduta, ou crime, as autoridades e responsáveis serão julgados. A imprensa tem exagerado e empolado (a situação) e todos devem aguardar pelos resultados da investigação”, referiu. Questionado pela Lusa sobre a necessidade de, no Irão, ainda existir uma Polícia da moralidade, Jami admitiu que já há uma força de segurança responsável pela segurança da sociedade, que poderia garantir as competências de moralização.

"Uma mulher que não cumpriu a vestimenta correcta não pode ser vista como uma criminosa. Essa discussão entrou na nossa imprensa, na nossa sociedade e algumas personalidades têm pedido uma revisão à forma como se poderá lidar com tudo isto, porque se trata de uma questão cultural. Talvez devessem existir outros métodos, outros órgãos para analisar e responsabilizarem-se por estas questões”, declarou.

Jami afirmou-se convicto de que, após o fim dos protestos, "regressará a calma e a tranquilidade” e que, depois, poderá haver uma "grande revisão da lei sobre a Polícia da moralidade”, lembrando que alguns deputados iranianos já defenderam que o Parlamento deveria envolver-se na questão.

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