Cultura

Cem histórias para Neto

Isaquiel Cori

Jornalista

“100 Histórias Para Neto” é o título do projecto do escritor Jacinto de Lemos que consiste na publicação de 100 livros inéditos. Trata-se de 50 “histórias dos musseques de Luanda” e 50 contos infanto-juvenis

25/09/2022  Última atualização 07H00
© Fotografia por: DR

Cada uma das "histórias dos musseques” está vertida em  100/200 páginas A-5, ao passo que os contos infanto-juvenis variam entre 20 e 60 páginas A-4.

"Ao criar essa colectânea de 100 livros (...) pretendemos enaltecer a figura do Dr. António Agostinho Neto e dar o nosso contributo na almejada festa do seu Centenário”, refere o escritor, acrescentando que é também seu propósito "provar que o legado de Neto no campo literário está a ser seguido pela nova geração”, além de "promover a literatura angolana, incentivando o gosto pela leitura, assim como divulgar o acervo cultural adormecido por razões da guerra”.

Jacinto de Lemos esclarece que o projecto resultou de uma recolha feita entre 2000 e 2015 nas regiões de Malanje, Kwanza-Norte, Catete e, sobretudo, Luanda. 

A questão que se coloca agora é a falta de patrocínios para a publicação dos livros. Integrante da União dos Escritores Angolanos, Jacinto de Lemos diz que tem o apoio moral  desta instituição, que reconhecidamente enfrenta problemas orçamentais que não lhe permitem apoiar os projectos editoriais dos seus membros. O autor de "Undengue” deu a conhecer a este jornal que no ano passado fez chegar o projecto "100 Histórias Para Neto” ao Gabinete da então ministra de Estado para a área Social Carolina Cerqueira, que o encaminhou para o Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente.

"Em Novembro do ano passado fui avisado que teria um encontro com o ministro Filipe Zau. Depois avisaram-me que o encontro foi adiado, até hoje, nunca aconteceu”, informou o escritor.

O escritor, cuja pretensão é publicar os cem livros numa colecção específica, enfrenta ainda o cepticismo de quem tem dificuldade em assimilar que um autor possa ter tal número de originais inéditos. Por via disso Jacinto de Lemos arrumou as obras em dois baús que depositou na sede da União dos Escritores Angolanos, onde estão disponíveis para consulta. "Quem quiser tirar as dúvidas é só contactar o secretário-geral da UEA, que vai autorizar a consulta”, disse, acrescentando que é também na sede da UEA onde recebe as pessoas interessadas em saber mais do seu projecto.

O autor deu ainda a conhecer que fora do projecto "100 Histórias Para Neto” tem dezenas de livros por publicar, entre romances e contos.

Jacinto Inácio de Lemos nasceu aos 2 de Janeiro de 1961, na aldeia do Guimbe, município de lcolo e Bengo (Catete). Fez os estudos primários e secundários na terra natal e em Luanda. Alfaiate de profissão, foi professor no ensino de base durante longos anos. Começou a sua carreira literária com a publicação da obra "Undengue” (Infância), menção honrosa no concurso Sonangol de Literatura em 1986.  A sua segunda obra é "O Pano Preto da Velha Mabunda”, editado em 1997 pelo então Instituto Nacional do Livro e do Disco. Em 2002 ganhou o Grande Prémio Sonangol de Literatura, com a obra "A Dívida da Peixeira”. "Chico Nhô” (romance) é o seu último livro, publicado em 2008 em Cabo-Verde, país onde de 2004 a 2011 exerceu o cargo de Adido Cultural na Embaixada de Angola. 


NGUÊNJ I * (extracto)

Até hoje ainda oiço a voz da minha mãe, a imitar o choro do Nguênji, quando ela me contou essa estória.

- Aiu-éé muenhu uami-ééé!(*)

- Aiu-éé muenhu uami-ééé!

- Eme ngi Nguênji!(**)

- Eme ngi nguênji!                                                

 

O Nguênji chorava num dos cantos do quarto da Nga Tina, uma quitandeira de carvão que vendia na Praça do bairro Cemitério Novo. Mas n’altura que o Nguênji chorava, já não era mais pessoa, era já nzumbi.

Vou lhe contar essa estória, caro Leitor.

 ***

Um senhor já de idade, que ninguém sabe de que terra veio, se instalou numa área de Catete chamada Lalama e ficou a fazer seu carvão.

Como fazia bom carvão e vendia barato, não tardou a fuma se espalhar, que ao se espalhar chegou até Luanda e as quitandeiras de Luanda invadiram o senhor na compra do seu precioso carvão.

Nga Tina, Nga Sessa, Nga Suzana Tomaz, Sá Candinha, Sá Guida, vizinha Nanda, vizinha Joana Bendinha e vizinha Isabele Pedro, que faziam uênji de carvão, passaram a comprar carvão no Lalama, no tal senhor e vinham vender na Praça do bairro Cemitério Novo.

O uênji corria bem. Muito bem mesmo. Até porque o carvão quirima (vegetal) nos musseques de Luanda, desde muito tempo sempre se precisou. Passado tempo o uênji deu maka. Maka grande. Maka de mortes.

A maca começou no fracasso do uênji. Segundo conta a narradora da estória, o uênji fracassou porque bateram uma peixeira. Bateram a Sá Ngololo. Sá Ngololo quando enterrou o marido, no acto do óbito precisou de carvão e foi dever carvão nelas. Como estava a demorar a pagar, a Nga Tina e a Nga Sessa combinaram com as amigas pra darem quibeto na Sá Ngololo. Quibeto forte. Quibeto de lhe arrastarem e lhe despirem, que ao lhe despirem, de vergonha, a senhora teve que pedir empréstimo de dinheiro nas amigas da Praça, pra pagar. Tudo aconteceu ali na Praça do bairro Cemitério Novo onde elas vendiam e onde também vendia a Sá Ngololo.

Só que, a Sá Ngololo ao pagar o dinheiro, não se calou. Bem dizer, a Sá Ngololo lhes praguejou naquele mesmo momento. Senhora a sangrar, a bater com as mãos no chão, dizia:

- Só se desde que interrei o mô home, custumo pegar dinhero e sempre que vocês venham mi cobrar, custumo vos pôr finta. Mas se custumo vos falar a verdade, vão ver o que vai vos acontecer… Vão cair na disgraça… Esse dinhero que vos dei, vai vos levar na disgraça… Disgraça de morrer um a um… - Recolhe o sangue no chão misturado com areia, amarra na ponta da saia e acrescenta. - Essa manhinga que vocês mi tiraram vou colocar em cima da sepurtura da minha avó, Mujiji, que foi a maior quimbandera desse bairro… Ela vai vir vos buscar um a um, só se for não sou a primera neta dela…

Minutos depois do cubamento (praguejamento), levanta do chão com ajuda da Lurdes, sobrinha dela e de outras pessoas, lhe sacodem e lhe acompanham até em casa.

 

***

A praga da Sá Ngololo pareceu praga sem importância. Pareceu praga duma pessoa que desabafou só a raiva que tinha. Mas, não. Não porque meses depois as quitandeiras começaram a ter makas de lhes desaparecer dinheiros nos aventais, darem trocos a mais nos fregueses, enfim, muitos mariuanos que começaram a ter e passado tempo ficaram sem nada. Bem dizer, caíram na desgraça.

Ao caírem na desgraça deram conta que foi a praga da Sá Ngololo. Procuraram um quimbandeiro bom pra anular a praga, que no musseque chamam de "kujumununa kibubo”.

O quimbandeiro fez o trabalho. Naquele tempo havia muitas maneiras de anular a praga. Este quimbandeiro que elas consultaram como era mesmo bom, não fez muita coisa. Lhes deu só banho com folhas medicinais e mandou a cada uma falar no pau do muxixeiro que estava no quintal dele. Falar na frente do pau como que a falar com a Sá Ngololo, a ofendida.

 

*Uma das "Cem Histórias Para Neto”, de Jacinto de Lemos  

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