Entrevista

Celso Rosa: Degradação dos indicadores operacionais impele o Porto do Lobito para o capital privado

Presidente do Conselho de Administração do Porto do Lobito revela, nesta entrevista, que dos 300 navios esperados até a esta altura do ano, apenas 155 o fizeram, numa evidência de como os efeitos da crise gerada pela pandemia da Covid-19 criam constrangimentos à gestão da companhia e anuncia um profundo trabalho de reestruturação que inclui a entrada de empresas privadas na gestão de terminais, com a adopção do conceito de “Porto senhorio”

26/08/2020  Última atualização 15H58
DR

Sabemos que completou, recentemente, os primeiros 100 dias do seu mandato como novo presidente do Conselho de Administração do Porto Comercial do Lobito: como avalia o seu desempenho neste período?

No decorrer dos primeiros 100 dias do meu mandato, o Conselho de Administração do Porto Comercial do Lobito realizou mais de 400 acções, destacando-se, entre elas, a criação de 17 comissões de trabalho que, entre outros aspectos, vão-se encarregar da reorganização e reestruturação do funcionamento do Porto.

É possível falar-se já em resultados palpáveis em relação ao trabalho que desenvolve em prol da empresa?

Pese embora o volume de receitas que o Porto conseguiu no primeiro semestre do ano em curso, avaliado em seis mil milhões de kwanzas, esses números ainda não satisfazem as perspectivas que criámos em termos de resultados. É preciso trabalhar mais para elevar a produção do Porto, que despende, nos salários, mais de 50 por cento das receitas que absorve. Os encargos com os salários são tão elevados, que, muitas vezes, comprometem a execução de outros serviços essenciais, como por exemplo, o pagamento do fornecimento de água, energia eléctrica, a manutenção dos equipamentos e muitos outros.

O Porto do Lobito está equipado e provido de pessoal de acordo com as exigências das operações?

Temos 180 equipamentos diversos, dos quais apenas 57 funcionam, encontrando-se os restantes 123 fora de serviço. O nosso quadro de pessoal é constituído por 1.630 trabalhadores em efectivo serviço.

O que está a ser feito para se inverter o quadro actual?

Concluímos o levantamento geral da situação e estamos à procura de saídas para a reabilitação dos equipamentos avariados, mas, as dívidas que o Porto tem obrigam-nos a um exercício difícil para conseguirmos realizar aquilo que representam hoje os nossos grandes desafios. Estamos a realizar, em grande profundidade, um diagnóstico sobre os problemas financeiros e organizacionais e a tentar resolvê-los de forma sábia e inteligente, com o empenho de todos os trabalhadores.

Quais são os principais desafios do Porto?

Entre os principais desafios do Porto do Lobito constam vários planos de desenvolvimento em matéria de direcção, ordenamento, gestão ambiental, formação e capacitação dos colaboradores, bem como a evolução de “porto operador” para “porto senhorio”. Está, igualmente, prevista a actualização das infra-estruturas tecnológicas e sistemas de informação. Alem disso, por constituir um dos principais suportes económicos do Centro e Sul do país, é necessário levarmos a cabo a uma revisão das tarifas e garantir maior atenção ao capital humano, tendo em perspectiva o crescimento do Corredor do Lobito. São esses os desafios do momento, cuja execução vai passar pela criação de novos diplomas legais que vão regular a actividade portuária, a formação de quadros, a realização da primeira conferência e a implementação de políticas comerciais mais atractivas, tendo em vista o aumento do volume de negócios.

Em quanto é que estão avaliadas as dívidas do Porto Comercial do Lobito?

As nossas dívidas estão avaliadas em cerca de 22 mil milhões de kwanzas, com Estado, fornecedores, bancos e outros.

As receitas do Porto do Lobito situam-se em 34 milhões de kwanzas por dia. Como decorre o desafio da manutenção dos fluxos financeiros da prestação de serviços?

Os fluxos financeiros provenientes da prestação de serviços asseguram a cobertura dos gastos essenciais para a continuidade dos nossos serviços. Melhorar as nossas “performances” em termos de indicadores é o nosso principal objectivo.

“Reduzimos o tempo de espera a que os navios estavam obrigados”

A sua gestão projecta acções para elevar a competitividade do Porto para equiparar os serviços a empresas concorrentes como outros portos no país e na região?

Isso inclui-se entre os grandes desafios da empresa e, a pensar nesta perspectiva, estamos fortemente engajados na recuperação dos nossos equipamentos e pensamos que, até ao final do ano, teremos a maioria recuperada e em pleno funcionamento, prevendo-se já a um eventual aumento da produção. Também estamos a investir forte na formação do pessoal, com vista a melhorar e a elevar a qualidade dos nossos serviços.

Como é que evolui a questão do tempo de espera para atracagem no Porto do Lobito?

O Porto do Lobito deixou de registar, há já alguns anos, os longos tempos de espera a que estavam obrigadas as embarcações que aportam nos nossos terminais. O Porto registou este ano uma redução drástica nas operações de carga e descarga devido à pandemia do coronavírus e à crise mundial. Dos 300 navios que eram esperados este ano no Porto, apenas 155 o fizeram, criando constrangimentos incalculáveis a sua gestão. Esse movimento correspondeu a um volume de carga avaliada em 415 mil toneladas, acima da metade do que conseguimos no ano homólogo, com 944 mil toneladas. Com um cais com capacidade de atracagem de seis navios de longo curso, em simultâneo, por semana, estamos a receber, em média, dois navios.

Explique o conceito de “Porto senhorio” adoptado para o desenvolvimento do Porto do Lobito.

"Porto senhorio" é o novo modelo de gestão dos portos onde o Estado, na sua qualidade de detentor das infra-estruturas, concessiona parte destes serviços aos privados. Na sua decisão de concessionar os terminais do Porto do Lobito, o Estado teve, entre os seus principais objectivos, a rentabilização, o máximo possível, destes espaços, alocando-os a operadores internacionais com experiência reconhecida no mundo da gestão portuária. Sem querer desvalorizar as nossas capacidades de gestão, torna-se, entretanto, sintomático, termos que admitir que existem, em outros países, instituições muito mais desenvolvidas em termos de know-how e mesmo equipamentos que nós, e com potencial para trazerem melhores resultados para o país e para o
Porto Comercial.

“Oferta multimodal reduz custos para consumidor final”

Qual será, com as novas opções, o papel do Conselho de Administração na gestão do Porto?

Vamos deixar de ser operadores e passar a ser mais uma autoridade fiscal e de auditoria, no que diz respeito aos actos de gestão e exploração a serem realizados pelos operadores que, eventualmente, venham a vencer os concursos públicos.

Já existem resultados do concurso público para a adjudicação dos terminais de carga?

Pelo que sabemos, a comissão criada para avaliação do processo está já a trabalhar no assunto.

Com que investimentos vão contar para a contínua modernização do Porto e os valores que vão precisar?

A curto prazo os principais investimentos necessários para a contínua modernização do Porto estão relacionados com a instalação de energia eléctrica de média tensão nos terminais, a reabilitação e manutenção das infra-estruturas técnicas-tecnológicas e aquisição de equipamentos mais modernos. Quanto aos valores, continuamos a fazer prospecção de mercado, com vista a determinar o valor real do investimento que pretendemos aplicar.

A oferta multimodal proporcionada pelo Porto do Lobito, incluindo caminhos-de-ferro e aeroportos, representa uma vantagem competitiva. Há benefícios contratuais e financeiros decorrentes das vantagens multimodais?

Sim, a oferta multimodal representa grandes vantagens competitivas. Existem muitos benefícios contratuais e financeiros decorrentes das vantagens multimodais. Elas reduzem os custos dos produtos para o consumidor final, bem como facilitam uma maior utilização da tecnologia de informação. É ainda possível, através deste sistema melhorar as infra-estruturas de apoio logístico, mais concretamente em termos de armazenagem e transbordo, aumentando a competitividade do Corredor do Lobito, e diminuir os custos de operacionalidade. No futuro, o Porto do Lobito prevê aderir à iniciativa da introdução de uma Janela Única Portuária, optimizando as vantagens multimodais.

Em quanto orçou a modernização do Porto?

De 2008 à 2012 o Porto do Lobito investiu cerca de dois mil milhões de dólares para, a médio e longo prazos, dotar o Porto do Lobito com infra-estruturas e equipamentos diversos com condições operacionais à altura das suas necessidades.

O volume de carga que o Porto recebe anualmente corresponde às expectativas criadas com a sua modernização?

O volume de carga que o Porto recebe anualmente não corresponde às expectativas criadas com a sua modernização. Desde 2014 que temos vindo a registar uma queda abrupta no movimento de navios, devido à crise económica mundial que assola, igualmente, o nosso país. De lá para cá, os indicadores foram baixando gradualmente. Das três milhões de toneladas que operámos em 2013, o valor baixou para 1,8 milhões em 2019, uma queda em cerca de 40 por cento em relação aos anos anteriores.

Acha que modernização do Porto do Lobito obedeceu aos ajustamentos que se impõem a nível dos caminhos-de-ferro: quais são os ajustamentos que ocorreram no Porto para corresponder à exportação de minério da RDC?

Julgamos que sim: para se ajustar a nossa operação à exportação de mineiro da República Democrática, as obras no Porto do Lobito passaram pela reabilitação da linha férrea, o aumento da profundidade do cais e a realização de estudos para revisão do tarifário da carga em trânsito.

“Angola pode oferecer aos armadores carga dos países sem costa”

Quais são os tipos de minérios aceites e a sua proveniência?
Os principais tipos de minérios aceites são o manganésio e o cobre. Em carga de trânsito, também passam o enxofre e outros produtos químicos, tais como ácido nítrico, que são provenientes, essencialmente, da RDC, Rússia e Austrália, e têm como principais destinos a Índia e a China.

Há negociações para contratar operações de comércio internacional da Zâmbia?

As negociações estão em curso.

O Porto do Lobito é conhecido pela frequência de conflitos laborais que incidem quase sempre em reivindicações salariais: a sua administração tem planos para reverter esse tipo de ambiente?

O actual Conselho de Administração tem estado a trabalhar no sentido de assegurar o pagamento integral dos salários e subsídios diversos, acordados no último caderno reivindicativo e, actualmente, tem as suas obrigações em dia. Para melhorar os aspectos motivacionais, estamos a trabalhar na elaboração do qualificador ocupacional e o Plano de Carreiras.

Grande parte dos navios que aportam em Angola passam pelo problema que em muitos casos resulta em gastos para os grandes armadores, de terem de regressar à origem sem mercadoria: na ausência de exportações, que ofertas Angola pode fazer aos armadores?

Na ausência de exportações, Angola pode oferecer aos armadores a promoção da carga em trânsito dos países sem costa marítima, usando o Corredor do Lobito, com pacotes promocionais mais competitivos em relação aos concorrentes.

O Conselho de Administração do Porto liderado por si anulou, recentemente, uma lista inicial para a distribuição de apartamentos num condomínio construído pelo Porto?

A dita lista para a distribuição dos apartamentos foi anulada pelo Conselho de Administração devido às graves irregularidades a que caracterizaram a sua elaboração, eivada de vícios que comprometiam a distribuição, a preceito, dos apartamentos que temos à nossa disposição.

Já existe uma nova lista?

Foi criada uma comissão que está a trabalhar com transparência e lisura no sentido de apresentar à Administração os critérios para a devida atribuição aos eventuais beneficiários.

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