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Cazenga e Cacuaco foram os seus berços e hoje é licenciado no Brasil

Israel Mawete Ngola Manuel é filho de Kamba Miguel, vendedor de massa de tomate na praça antiga do Kikolo, e de Ngonji Ngola, vendedora de bolinho (mikate) na porta de casa. “Venho de uma família periférica, sendo 4 rapazes e 6 meninas, sou o sexto, nasci no Cazenga em 1992, no limiar da guerra civil.”

16/08/2020  Última atualização 17H21
DR © Fotografia por: Israel Manuel é investigador no grupo de pesquisa África-Brasil

A infância de Israel Manuel decorreu sempre no Cazenga e Cacuaco. “Sublinho os bairros habitados por nós, pois cada um tem uma história e realidade diferentes que me marcam.”

No bairro da Mabor Le Village, as memórias que carrega são de uma vida muito difícil, “mesmo de miséria, a casa era minúscula”: “Na hora de dormir amontoávamo-nos e não se fazia distinção de mulheres e homens, todos dormíamos no mesmo lugar, sem qualquer intimidade nem ventilação.”

No Kikolo, a realidade era a mesma. “Só dormíamos depois de o meu pai acabar de jantar porque era preciso remover todos os objectos da sala para colocar esteiras (lwandu) e dormir.”

Devido às condições muito precárias em que vivia, a família andava sempre à procura de casa melhor. Israel Manuel tinha 5 anos, decorriam os anos 1997 a 2000.

Em 2001 a família arrenda outra casa no Bairro Comité com melhores condições. “A casa tinha 2 quartinhos, o meu pai e a minha mãe dormiam num, as minhas irmãs no outro, eu e outros irmãos continuámos na salinha.”

Nesse ano o pai de Israel Manuel muda de negócio. “O meu pai passa a vender postiços (“Maria”, entre outros tipos).” Neste ano, Israel Manuel começa os estudos primários na Escola Raimundo e Filhos, “Colégio Adelino”.

“Estudava das 7h às 10h, assim que a aula terminava eu e a minha irmã mais velha íamos vender petróleo no Kikolo. Por falta de clientes na bancada, éramos obrigados a zungar toda a praça.”

As pessoas estranhavam: “Até petróleo na zunga!” Voltavam para casa desmotivados, mas a mãe motivava os filhos. “Era mulher de coragem, fomos as primeiras pessoas a vender petróleo na zunga na Praça Nova do Kikolo. Hoje é prática corrente.”

Em 2003, o pai constrói uma pequena casa no Malweka. Israel Manuel estudava a 3ª classe, era considerado um aluno com “boas habilidades” mas reprova por não pagar a taxa das provas.

Em 2004, repete a 4ª classe, mas agora vendia gelado de múkwa e água fresca para apoiar os estudos. “Morava no Malweka e estudava a 4 Km. “Todos diziam que não haveria outro futuro para mim senão como bagageiro.”

Esse ano foi muito difícil para a família, em particular para a vida estudantil de Israel Manuel. Em 2007, consegue uma vaga na escola pública no antigo Bairro Comité, na escola 847 (hoje 8047). Fez a 7ª, 8ª e 9ª classes nesta escola, caminhando longas distâncias a pé.

Em 2010, aproveita uma vaga na Escola do Ensino Secundário do II Ciclo 1080/21 de JAN-FAN conhecida como FAPA, no bairro do Rocha Pinto. Israel Manuel morava no Malweka e por dia devia gastar mil kwanzas de transporte, mas como não tinha ia a pé.

“Andava a pé de São Paulo até ao Rocha Pinto, no 1º e 2º anos saía de casa às 8h e voltava entre as 21h e as 22h.”

Em 2011 teve Ernesto Domingos “Eda-k Cangondo” como professor e a sua forma de ensinar despertou-lhe interesse em seguir uma carreira em Sociologia.

Reprova no exame de acesso à UAN em 2013. “Parecia que tudo estava perdido, mas a família pedia-me para não perder a esperança.” Conhece o sociólogo Pedro Moniz Sebastião, seu vizinho durante 6 meses, que o incentiva nos estudos de Sociologia.

Dois anos mais tarde decide-se de novo pela UAN mas opta pelos cursos de Língua e Literaturas em Língua Francesa e Sociologia e é aprovado na Faculdade de Letras.

No final do 2º ano, um amigo fala-lhe do Processo de Selecção de Estudantes Estrangeiros da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), inscreve-se, é seleccionado, viaja para o Brasil em 2017 e hoje é graduado em Humanidades e faz outra licenciatura na mesma Universidade em Ciências Sociais (Ciência Política, Sociologia e Antropologia).

É investigador do Grupo de Pesquisa África-Brasil: Produção de conhecimento, sociedade civil, desenvolvimento e cidadania global vinculado à UNILAB/IHL, no grupo de estudo e pesquisa Grupeafro, presidente eleito da Associação de Estudantes e Amigos de África (ASEA). Pesquisador do Programa Latitudes Africanas, e em 2019 ganhou uma bolsa para o projecto Núcleo Artístico Latitudes Africanas: Afro-linguagem, corpos, literatura e estéticas (PIBEAC/UNILAB). Em Maio, a ASEA realizou a Semana da África na Bahia, com a presença de especialistas e pesquisadores internacionais.

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