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Casos de gravidez precoce têm tendência a aumentar

André Brandão| Ndalatando

Madalena Rodrigues, 14 anos, sofre de perturbação mental. Foi estuprada no mês de Outubro de 2020, por quatro jovens, quando tinha apenas 12 anos de idade. A acção dos malfeitores resultou em gravidez, que gerou uma menina, agora com um ano e um mês de vida, que pesa, actualmente, cinco quilos e 700 gramas, por conta da falta de leite materno e outros cuidados, segundo o relatório médico da criança.

08/09/2022  Última atualização 10H56
Aumento de casos está a preocupar as autoridades sanitárias © Fotografia por: André Brandão | Edições Novembro | Ndalatando
As marcas de sofrimento por falta de condições para si própria e para a filha são visíveis e agravadas com a dificuldade em se expressar, por conta da doença mental.  Madalena Rodrigues conta que foi agarrada e violentada por quatro jovens, dos 17 aos 20 anos, durante dois dias seguidos. "Os agressores já foram julgados e condenados”, disse um familiar directo.

Em entrevista ao Jornal de Angola, a mãe da menina, Isabel Carlos Rodrigues, explicou que o facto aconteceu no bairro Kilamba Kiaxi, arredores da cidade de Ndalatando, onde vivem. Acrescentou que, depois de dois dias de ausência, Madalena reapareceu com hematomas em várias partes do corpo e revelou que tinha sido violentada.

Preocupada com a situação, Isabel Rodrigues levou a filha ao Hospital Municipal de Cazengo, no bairro Catome de Baixo, onde o diagnóstico médico confirmou o estupro, o que provocou-lhe lesões nos órgãos genitais e ânus e consequentemente uma gravidez.

Madalena Rodrigues, que, felizmente, não contraiu nenhuma doença sexualmente transmissível, está traumatizada e ainda assustada, principalmente quando está diante de muitas pessoas. Sente receio de ir à escola especial e demonstra comportamento de pânico e medo. Sente-se insegura nas ruas e só consegue andar em companhia da progenitora, que actualmente cuida, também, da neta. 

Para ajudar a menina a cuidar da outra criança, pedem ajuda aos vizinhos e ao Gabinete da Acção Social, Família e Igualdade do Género, que tem fornecido algumas cestas básicas. A família passa por diversas dificuldades para obter alimentação adequada para a criança, já que a bebé rejeita o leite materno. A mesma apresenta o corpo franzino e debilitado.

Ao contrário de Madalena, Maria de Jesus Bernardo, 16 anos, concebeu aos 15, com um jovem de aproximadamente 25 anos. Conta que tudo começou como um namoro normal, instigada por amigas. Na altura consumia álcool e frequentava lanchonetes e bares. Depois de engravidar tudo passou a correr mal, foi desprezada pela família e deixou de estudar.

Agora com um filho, Maria Jesus Bernardo foi obrigada a se tornar zungueira e vender bolinhos nas ruas da cidade de Ndalatando para poder sustentar o seu bebé. "As minhas amigas me abandonaram, já não querem saber mais de mim, porque agora tenho uma criança para criar”, lamentou.

Para Josefina Duarte, 17 anos, foi diferente, engravidou porque tinha o desejo de ter um bebé, mas agora diz sentir-se arrependida pela tamanha responsabilidade. O pai da criança, contou, não assumiu a relação e ela tem cuidado praticamente sozinha do filho. Adiantou que vive um calvário enorme, principalmente quando muitas vezes não tem nada para comer, pois tal situação a obriga a depender de terceiros. 

  Dados do Hospital Materno-Infantil

Dados do Hospital Materno- Infantil de Ndalatando revelam que, nos últimos seis meses, a instituição registou um total de 346 parturientes menores de 20 anos.

O director de enfermagem, Fidel João Hebo, alertou que a gravidez na adolescência traz consigo alguns riscos, já que os órgãos reprodutores não estão ainda bem constituídos para a fase de reprodução e no acto do parto podem surgir várias consequências, passando, às vezes, por cesarianas ou partos prematuros.

O técnico lembrou que a realidade pode ser ainda mais grave, visto que estes números são apenas os fornecidos pelo Hospital Municipal, obtidos a partir das consultas pré-natais, podendo os números serem maiores se se tiver em conta o facto de que muitas meninas furtam-se às consultas do género.

Para a psicóloga clínica do Hospital Provincial do Cuanza-Norte, Teresa Dovala, uma gravidez precoce, quer seja por consentimento da mãe ou por violação, tem várias consequências, desde traumas, à perda de confiança nos adultos, sentimento de insegurança, ansiedade, bem como sintomas de crise e ataque de pânico, receio de ter um novo relacionamento, assim como pode rejeitar o bebé. 

Teresa Dovala alertou os pais e encarregados de educação para reforçarem a atenção aos filhos, pelo facto de muitas situações de violação acontecerem no seio familiar, onde os mais velhos aliciam as crianças com brinquedos, doces e até chegam mesmo a fazer ameaças de morte para as silenciar. "Na sua maioria essas situações acontecem com aquelas pessoas que menos esperamos, que fazem parte do convívio familiar. Nestas condições as famílias devem prestar maior atenção às adolescentes, porque podem apresentar alguns desequilíbrios”.  

De acordo com a chefe de Departamento Provincial do Instituto Nacional da Criança, Angélica Cudiongina, cinco crianças, entre os 13 aos 17 anos, grávidas ou com partos recentes, estão a ser acompanhadas.

Acrescentou que, tais situações acontecem geralmente dentro das famílias, quer sejam pobres ou socialmente estáveis, e que a pobreza, analfabetismo, questões culturais e a falta de informação também estão na base do surgimento de muitos casos de gravidez precoce.

Para ela, ter filhos na adolescência mutila alguns princípios da boa convivência infantil, além de perturbar o seu processo educativo e instrutivo. "Quando uma criança se relaciona muito cedo com adultos, restringe as oportunidades das adolescentes no que diz respeito à  auto-afirmação, aumentando os riscos no que toca à violência e abusos, a par de pôr em causa a sua saúde física e mental”, explica.

Advertiu que a gravidez e o casamento precoces podem contribuir  em grande medida,  para as meninas assumirem responsabilidades para as quais não estão física nem psicologicamente preparadas. Angélica Cudiongina advogou a necessidade da conjugação de esforços para a criação de políticas e estratégias, com vista à diminuição dos casos.

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