Opinião

Carta aberta ao Sr. Celso Filipe do Jornal de Negócios de Portugal

Sou cidadã angolana, leitora assídua do “Jornal de Negócios”, onde o senhor ocupa a importante função de director-adjunto.

19/08/2020  Última atualização 00H07

Na vossa publicação de terça-feira, 18 de Agosto do corrente ano, na rubrica semanal Radar África, veio à estampa um artigo de opinião de sua autoria com o título “A nomeação da filha que fragiliza Lourenço”, insinuando que o Presidente João Lourenço, que fez do combate à corrupção, ao nepotismo, à bajulação, sua principal bandeira de governação, teria caído na tentação de nomear a sua própria filha como administradora executiva da Bolsa de Valores de Angola, supostamente continuando com as práticas do passado que diz combater.
Embora nós, os angolanos, em nome e na defesa dos laços históricos que nos unem e das boas relações de amizade e de cooperação económica que primamos em manter com Portugal, nos abstenhamos de nos imiscuir nos assuntos internos de Portugal, sociedade que como qualquer outra não é perfeita, porque também tem os seus podres, como miséria, desemprego, criminalidade crescente, corrupção e outros males, mesmo assim consideramos que a imprensa portuguesa tem a liberdade de escrever sobre as matérias que entender, sobre qualquer país incluindo Angola, desde que o faça com a responsabilidade própria dos verdadeiros profissionais da comunicação livre.
Como cidadã atenta aos fenómenos sociais, económicos e políticos do meu país, sobretudo de tudo quanto se tem passado nos últimos três anos, por uma questão de justiça entendi ajudar-lhe a compreender melhor o que de facto se está a passar em Angola, não tanto pelos longos discursos do Presidente João Lourenço, mas sobretudo pela força do seu comportamento exemplar.
Como o senhor próprio diz, depois da sua formação em Londres e Nova Iorque, a Cristina sempre trabalhou na função pública, um direito que cabe a todo cidadão angolano, salvo se pessoas mal-intencionadas defendam que filha de Presidente tem de ficar no desemprego, desperdiçando o investimento que o país fez na sua formação.
A função de administradora executiva da Bolsa de Valores não é da nomenclatura de cargos de nomeação do ou pelo Presidente da República; para ser mais clara, não foi nomeada pelo senhor Presidente.
Os angolanos mais atentos e que mais do que qualquer estrangeiro são os primeiros interessados em tudo fazer para não ver este Presidente a cair nas ciladas em que o seu antecessor caiu, talvez por pressão da família, seremos os primeiros a denunciar eventuais casos comprovados de nepotismo, que felizmente não vimos acontecer.
Foram feitas muitas movimentações de pessoas nos cargos mais importantes desde 2017.
Se o Presidente fosse nepotista, quando da nomeação dos Conselhos de Administração da Endiama e da Sodiam, teria colocado como PCA de uma dessas empresas a irmã, economista de formação e quadro da Endiama há mais de 30 anos e hoje colocada na SODIAM, mas não o fez.
Tem filhos na SONANGOL, mas das duas movimentações que fez ao Conselho de Administração da empresa não nomeou nenhum deles, nem como administradores e muito menos como PCA da empresa.
Um dos irmãos e uma cunhada do senhor Presidente são reconhecidos médicos da nossa praça, cirurgião e especialista em doenças infecciosas, respectivamente, ambos docentes universitários, e não nomeou nenhum deles para ministro ou secretário de Estado da Saúde. Isto apenas para ajudá-lo a enxergar melhor e não ver fantasmas onde não existem.
Espero que me entenda que, longe de criticá-lo, pretendo, antes pelo contrário, ajudar-lhe a compreender melhor a realidade dos factos para que possa continuar nesse seu afã de, com a sua caneta, ajudar Angola a combater a corrupção que, na gíria angolana, chamamos de cabritismo ou de gasosa (para rir um pouco), a bajulação e outros males.
Queira desculpar-me se fui muito terra-a- terra, mas acredite que procurei ser o mais honesta possível, sem a intenção de magoá-lo ou pretender coarctar a liberdade que tem, enquanto cidadão e jornalista, de escrever sobre o meu país.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião