Cultura

Carnaval de Luanda condicionado pela Covid-19

Victorino Joaquim

Jornalista

A maior manifestação popular, o Carnaval, que anualmente junta milhares de foliões na Marginal da Praia do Bispo, corre o risco de não ser realizada nos moldes tradicionais, na próxima edição, por culpa da pandemia da Covid-19, que continua a fazer vítimas mortais no Mundo.

23/06/2020  Última atualização 08H29
DR © Fotografia por: Dançarinos e líderes dos agrupamentos esperam ter condições para voltarem a desfilar na pista da Marginal da Praia do Bispo

O aumento de casos im-portados e de contaminação local no país pode evoluir a qualquer momento para casos comunitários, situação que deverá condicionar a realização da edição 2021 do Carnaval de Luanda.

Caso o quadro epidemiológico no país apresentar-se em desfavor, a organização pretende criar um “plano b”, de acordo com o director do Gabinete da Cultura, Turismo, Juventude e Desportos, Ma-nuel Gonçalves.

Levar a maior manifestação cultural do país pelas ruas, bairros e avenidas da capital do país, continua a ser o principal objectivo como garantiu, em declaração, ontem, ao Angola Jornal, Manuel Gonçalves.

Embora esteja ainda descartado o pensamento de um possível cancelamento do Entrudo nesta altura, “a ideia é realizar a ‘festa’ daqui a oito meses”, confirmou o director provincial.

Caso não seja possível a realização do Carnaval nos prazos previstos, a organização já prevê a realização de lives nas plataformas digitais.

Como sugestão, disse, existe a possibilidade de se fazer lives (transmissões ao vivo) como alternativa, sem o carácter competitivo. “Podemos realizar lives apenas com carácter demonstrativo e ilustrativo com a participação de algumas das alas dos grupos carnavalescos mais representativos se for o caso”.

Para Manuel Gonçalves, esta não pode ser já apontada como “uma desculpa” para os grupos não começarem já a se organizarem internamente. “Temos procurado sensibilizar os grupos a começarem já a trabalhar, por forma a estarem preparados convenientemente para o desfile do Carnaval de Luanda do próximo ano”, assegurou.

A questão organizativa, que depende muito dos patrocinadores, foi apontada por Manuel Gonçalves como um dos principais problemas. “A edição deste ano foi realizada com muitos apertos porque muitos parceiros desistiram. Estamos a dialogar com os mecenas no sentido de encontrarmos as melhores formas de financiamento sem prejuízos das partes”.

Neste momento, disse, está a ser feita uma informação geral sobre o actual e possíveis cenários da situação, para ser apresentado à nova governadora de Luanda, Joana Lina. “Vamos reunir oportunamente com os grupos, só depois tomaremos uma decisão final. Caso não haja entendimento, o melhor mesmo será o cancelamento, até por uma questão de segurança e evitar a propagação da pandemia”.

Expectativa

A prudência e o acompanhamento do desenrolar dos acontecimentos vão ser determinantes, para quem ainda não pretende “cantar vitória antecipada”, como é o caso de António Custódio, presidente e comandante do grupo carnavalesco do União Mundo da Ilha, vencedor da última edição, na classe A, sendo o mais titulado da história do Entrudo luandense, com14 troféus.

O resultado de muito trabalho, que se prevê para a revalidação do título, pode depender da própria evolução ou não da pandemia no país, disse António Custódio.

A materialização do que se pretende levar à Marginal está condicionada à evolução da Covid-19 até ao final do próximo mês. Por isso, afirmou, vão apenas começar a idealizar aquilo que deverá ser a indumentária para a próxima edição.

Neste momento, desaconselha pensar-se já em como vai ser o carro alegórico, pelos custos que acarreta. “Se eventualmente o Carnaval não for realizado, vamos aproveitar as indumentárias e os adornos para a edição seguinte”.

A contar pelos esforços implementados este ano pelo Executivo, face às dificuldades financeiras, António Custódio mostra-se pouco optimista quanto à realização da “festa do povo” no próximo ano, devido ao surgimento de novos casos positivos da pandemia no país.


Optimismo de alguns grupos

O facto de o Executivo estar a tentar controlar a propagação da Covid-19 está a criar alguma expectativa positiva aos grupos carnavalescos de Luanda.
O optimismo é tão grande, que o comandante e pesquisador do grupo União Njinga a Mbande, António Domingos “Toni Mulato”, prefere não tomar decisões prematuras, por acreditar ser possível a realização do Carnaval de 2021.

O responsável prometeu novidades na próxima edição. Felizmente, disse, todos os voos provenientes do estrangeiro estão a ser controlados e os passageiros internados nos centros de quarentena institucional, o que poderá evitar a contaminação comunitária. “Apesar do Carnaval ser uma manifestação cultural que congrega muitos foliões, ainda assim, estou convicto de que a pandemia vai continuar a ser controlada pelas entidades sanitárias no país”.

Foco

Disciplina e determinação são as qualidades que têm feito toda a diferença na contínua aposta na criatividade e singularidade pelo Recreativo Kilamba, que já começou os preparativos para conquistar o título na próxima edição.

O Recreativo Kilamba vê a inovação como o melhor caminho, segundo o comandante Poly Rocha, que está determinado a trabalhar para a conquista do título. O terceiro lugar da última edição, disse, serviu como “prémio de consolação”.

Nem mesmo a pandemia tem sido motivo de preocupação. “Se a propagação continuar o mais correcto seria mesmo não se realizar devido ao alto índice de contaminação, porque a vida não tem preço”, enfatizou.

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