Economia

Captura de peixe miúdo está a condicionar oferta

Manuel Barros| Cacuaco

Cooperativas de pesca artesanal do município de Cacuaco, Luanda, insistem em capturar peixe miúdo (cabuenhas), o que tem condicionado a oferta de pescado em quantidade e qualidade no mercado informal, lamentou, em entrevista ao Jornal da Angola, o presidente da cooperativa Kilamba Kiaxi.

12/08/2022  Última atualização 08H05
Líderes pedem “mão pesada” no combate às infracções que colocam o ecosistema marinho em risco © Fotografia por: DR

Esteves António disse que a oferta de pescado que, nesta época, deveria ser farta, torna-se escassa devido à pesca ilegal de peixe miúdo, praticada por algumas cooperativas daquele e de outros municípios de Luanda, que insistem na prática desta actividade proibida pelo Executivo.

"A pesca em fase de desova e crescimento é proibida por lei, mas alguns pescadores de determinadas cooperativas insistem em capturar e comercializar este tipo de peixe nas praias do município”, notou o cooperativista.

Segundo a fonte, a deficiência na fiscalização faz com que muitos pescadores acabem por capturar o peixe miúdo que devia ser devolvido ao mar para maturação e manter o ciclo normal de crescimento.

Nas praias de Hotanganga, Mundial, Sarico e da Barra do Bengo, várias espécies são capturadas às toneladas ainda em fase de crescimento, pondo em causa a boa pesca que deve ocorrer nos meses de Outubro a Maio, considerados os mais produtivos em termos desta actividade.

Uma outra fonte que não se quis identificar, disse que muitos fiscais são coniventes com essas práticas, promovendo o incentivo à contínua captura de peixes miúdo ou em fase reprodutiva.

" Muitas vezes os fiscais até conseguem deparar-se com o pescador com a chata cheia de peixe miúdo, mas são aliciados com quantias monetárias e deixam passar a embarcação, fazendo ‘vista grossa’ àquela realidade”, afirmou a fonte.

Segundo Esteves António, a captura de espécies em desenvolvimento provoca danos à actividade, porque caso não se respeite a fase da maturação, haverá mais dificuldade em capturar o peixe adulto. Referiu que a captura de grandes quantidades dessas espécies vai fazer com que diminua o peixe no mar e os pescadores sejam obrigados a capturar mais distante do que no passado e a ter mais custos operacionais.

Adiantou que os fiscais devem penalizar pescadores que insistem nesta prática, de maneira a desincentivar este comportamento.

 

Mão pesada

Já o presidente da cooperativa da Barra do Bengo, João Generoso, informou que alguns pescadores são teimosos, considerando que deviam sentir "a mão pesada” das autoridades para desincentivar tal prática.

"Se continuar a esse ritmo, a pesca nunca será sustentável, até porque já estamos a ter dificuldades, uma vez que o nível de captura tem baixado significativamente a cada dia que passa”, disse.

João Generoso afirmou que, no presente mês, as capturas estão muito baixas, variando de 500 a 700 quilos por dia, quando, no passado, chegavam a cerca de uma tonelada, além de que a pesca está a realizar-se em zonas mais distantes da orla marítima de Cacuaco.  "Agora chegamos até à zona da Samba, porque na nossa região está difícil encontrar peixe”, salienta.

O vice-presidente da Cooperativa de Pesca dos Jovens Empreendedores da Barra do Bengo (COPAJE-RL), Manuel Luís, adiantou que no município, existem muitas salgas e é frequente ver peixe miúdo a ser seco.

"A pesca desse tipo é crime. Por exemplo, só uma chata de sete metros cheia de peixe miúdo, se o deixar crescer, dá um navio cheio. É um grande prejuízo, até para a própria preservação do ecossistema marinho”, afirmou.

 

Espécies desaparecidas

Algumas espécies de peixe já não aparecem com tanta frequência como no passado, segundo alguns pescadores. O peixe burro, savelha, pungo, macôa e corvina são apontados entre os de oferta menos frequente nos mercados. Segundo as trabalhadoras das salgas na praia da Boca do Rio, pode-se salgar mais de uma tonelada de peixe por dia.

"Nós usamos vários buracos feitos no chão, de até um metro de profundidade e seis de largura, onde por dia podemos chegar até as 60 bacias de 50 quilos de peixe miúdo das espécies da marionga, paieta, sardinha, kimbumbu, savelha, carapau ou corvina.

Depois de seco, são comercializados em bacias de 30 quilos, ao preço de cinco a seis mil kwanzas, tendo como destino os mercados do Quicolo, Sabadão, e 30, bem como pequenas praças do interior dos bairros.

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