Sociedade

Caminhos da Vida: Jovem do Luau chegou a Luanda em busca da realização de sonhos

Rui Ramos

Jornalista

Geraldo Patrício Mafo é natural do Luau, Moxico, nascido a 25 de Maio de 1994. Quinto filho de Eduardo Mafo, ex-funcionário público, e de Maria Catoji, camponesa, ambos residentes no Luau.

23/01/2022  Última atualização 09H42
© Fotografia por: DR
"Sou do império Lunda, de origem Muymana Cassenha, onde se encontra a minha aldeia, onde a avó é soba na parte materna. Ela chama-se Messias Cashimbi”, contou.

Geraldo diz que a mãe tem uma irmã, Teresinha Camuengo, mas a maior referência da sua vida é o falecido avô, Juvenal Dumba, que considerou "homem sábio e íntegro, que foi electricista, informático e instrumentista de processos industriais”.

Em 2001, com seis anos, Geraldo Patrício Mafo ficou doente, à beira da morte. Tinha apanhado Marburg e as borbulhas no corpo levaram quase três meses para desaparecer. "Foi terrível para mim, naquela fase da minha infância, porque era uma  doença que afectava crianças e muitas morreram. A minha mãe chorava sem parar, porque eu era o único rapaz”.

Geraldo Mafo fez o ensino primário no Centro Educativo Dom Bosco, em 2006, saído do Marco 25-Luau, onde vivia com a mãe, para a cidade do Luena. Nos estudos, teve sucesso, porque era uma criança muito aplicada. Depois foi transferido para a Escola Comandante Zorro, no bairro Passa Fome, onde fez a 5ª e 6ª classe, nos anos 2007 e 2008.
Nessa fase, o rapaz ia para a escola com apenas uma camisa, um calção e um par de sandálias. Um ano depois, foi para a Escola Camarada Tchifuchi, onde ficou até 2011 para fazer a 7ª, 8ª, 9ª classes. Em 2008, quando regressa à casa do pai, no bairro Santa Rosa, viveu alguns pesadelos, por causa das acusações de furto. "Eu sofria bulling, ofensas verbais e morais. Estive quase a desistir de estudar, mas o meu irmão Horácio Eduardo Mafo ajudou-me a superar a situação”.

De origem, em 2009, Geraldo Patrício Mafo, pela mão do irmão Cristo Fernando, conseguiu frequentar uma formação de Informática, no Pavilhão de Artes e Ofícios do Alto Luena, em que teve bom aproveitamento. Para fazer o curso, andava todos os dias a pé do bairro Santa Rosa até à escola. "Recebia sempre incentivos dos meus irmãos Boas Chissola, Horácio Mafo e Cristo Fernando”.

Terminada a formação, Geraldo Patrício Mafo continuou a passar dificuldades financeiras extremas,tendo pensado em desistir de tudo. A par disso, o domínio da Língua Portuguesa era um problema porque, na altura, quem não falasse português era considerado homem do mato. "Até, pela cor da minha pele já fui tratado de congolês ou "zairense”  dentro da família. Mesmo matumbo me chamaram”, recordou.

Em 2010, o pai foi transferido para a Huíla e Geraldo Patrício Mafo ficou sem qualquer apoio deste. Por isso, foi trabalhar no Cyber Café do prédio da Messi, onde recebia um salário de três mil kwanzas.

O jovem referiu que viver no Luena, muitas vezes, era complicado, por causa do tribalismo, o chamado "mucuacuiza”, em que ele era vítima de ofensas verbais, até por pessoas mais próximas de mim.

A discriminação é uma marca para ele. "Não tive prazer de viver, até a minha prima que era vizinha me acusava de roubar na casa dela”. Em 2012, continuou os estudos, no PUNIV, onde frequentou o curso de Ciências Humanas, até 2014. Um ano mais tarde, perdeu o irmão Boas Chissola, jornalista da Angop. "Ele era a minha biblioteca, o conselheiro sempre disponível para dar apoio moral”.

Geraldo realçou que a mãe, também, era muito exigente. Aliás, a senhora, muitas vezes, passou fome para  ele estudar. "Nas nossas famílias, quando você é filho da pessoa mais pobre da família, tu sofres humilhações e desprezo”.

Recordou, ainda, Augusto Caiombo Capalo "Mangugas”, irmão mais velho, seu grande conselheiro e mestre e sempre com visão do futuro. "Ele preferia dormir com fome e sustentar os estudos dos seus irmãos e filhos”.

E não esqueceu o reverendo Isaac Moube Mubengai. "Meu amado pai, grande referência na minha vida, quando cheguei a Luanda ajudou-me muito, assim como a sua esposa Rebeca Moube Mubengai. Foram eles que me ensinaram a conviver em sociedade”.

Em 2017, decidiu continuar a formação superior, em Luanda, mesmo sem qualquer apoio financeiro. Hoje, frequenta o 5º ano de Engenharia Electrotécnica, no Instituto Superior Politécnico Tocoísta, para onde entrou aconselhado pelo amigo António Samuel Prata.

Fez o curso de Electricidade Residencial, no Profissional Heleneth Center, na Divina Providência; Electricidade Predial, no Centro GHF, em Viana, 2018; Comandos Eléctricos e Accionamentos de Máquinas nos Laboratórios Personalizantes do  ISPTEC, em 2019; Electricidade de Manutenção e Industrial, Autocad, Revit, no Centro Integrado de Emprego e Formação Profissional do Kilamba, no mesmo ano, onde frequenta agora o curso de Ingles; e Instrumentação Industrial (Cinfotec), em 2021.

Também fez o curso de Energias Renováveis, no MB Electrum, assim como trabalhou no Centro de Escrutínio das Eleições (em 2017) como digitalizador de actas. Neste momento, é professor de Electricidade, no Centro de Formação Profissional Tocoísta.

"Viver em Luanda não é fácil, porque tudo depende de dinheiro. Tenho poucos amigos, por isso, não sou muito vulgar nas ruas ou redes sociais, pois, sei o que quero ser no futuro”, concluiu.

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