Cultura

Caminhos da linguística em Angola

Tenho vindo a sentir um vácuo na linguística angolana em relação a debates a respeito da historiografia do português angolano. Julgo ser um assunto necessário e urgente, conhecer o processo histórico que constrói o percurso e o panorama do português nesse país.

03/10/2021  Última atualização 03H00
Cada língua é uma realidade constituída colectivamente e é no seio de uma comunidade. © Fotografia por: DR
 Os linguistas precisam pensar caminhos para o mapeamento que compreenda o processo de formação do português angolano, partindo da perspectiva histórica descrita na documentação histórica, nos seus aspectos explícitos e implícitos, bem como reflectir sobre encaminhamentos que nos levem ao estudo da língua portuguesa no país.

Conhecer o português angolano passa também por conhecer a realidade, as formas de construção argumentativa do passado, evidenciando aspectos que envolvem o tempo e outros factores, como os aspectos metalinguísticos, epilinguísticos, históricos e culturais.
 
As primeiras discussões em torno da historiografia da linguística tiveram início no final da década de sessenta, altura em que o livro "The Structure of Scientific Revolution” (1962), de Thomas S. Kuhn exerceu um papel preponderante nesses estudos que descreveram os factos do passado histórico-linguístico, permitindo explicações sobre mudanças e tendências linguísticas que marcam um período da história.

Bastos e Batista referem no seu artigo "Entre a história e a ciência: a constituição da historiografia da linguística como área de pesquisa e ensino nos estudos sobre a linguagem” que "a historiografia linguística faz perguntas linguisticamente relevantes sobre as ‘práticas historicamente relacionadas à linguagem: assim, historiógrafos da linguística podem, ou devem, oferecer insights aos linguistas interessados ‘no que estão fazendo’” (SWIGGERS, 2010 apud BASTOS e BATISTA, s/a, p. 69). Porém, a historiografia da linguística está pautada nos acontecimentos cronológicos num determinado espaço, permitindo o registo e descrições da construção do pensamento e da práxis linguística.

Os aspectos extra-linguísticos inerentes ao espaço e à cultura estão sempre atrelados à língua, facto que sustenta o seu carácter interdisciplinar. Sobre essas questões, Swiggers (2010), no seu artigo "A historiografia da linguística: objecto, objectivos, organização” reafirma a relevância do historiador na construção do ideário linguístico, bem como o seu desenvolvimento envolvendo a análise de textos que descrevem um determinado contexto. 

Nessa perspectiva, o pesquisador como farejador faz recurso ao seu saber linguístico para alcançar as profundezas, além da superfície que se pode depreender dos documentos escritos no período colonial. O alcance diacrónico pressupõe interpretações que ampliam a percepção do conhecimento sobre a linguagem.

Esse processo historiográfico envolve um movimento contínuo e retroalimentador, pois a língua é vista como a prática social de grupos, sendo ela que permite estabelecer a interacção humana. Portanto, a familiaridade estabelecida pela historiografia da Linguística com as várias práticas linguísticas que envolvem mudanças no tempo e no espaço permite pensar a relevância do planeamento de línguas e as respectivas políticas linguísticas.

A historiografia linguística é uma área dos estudos da linguagem que está preocupada com problemas linguísticos, históricos, culturais e literários. Assim, descrever, explicar, compreender a narrativa na vertente argumentativa e interpretar registos linguísticos através da interdisciplinaridade entre os processos históricos e linguísticos é sua preocupação. O exercício da prática historiográfica pode contribuir para o ensino do português promovendo a interdisciplinaridade.

Porém, a prática revela a relação triangular estabelecida entre o homem, a língua e sua respectiva história. Esse processo histórico da língua ajuda-nos a compreender questões como (i) a diacronia das mudanças linguísticas; (ii) a periodização da história do português angolano, entre outros. Do descrito acima surgem-me os seguintes questionamentos que servirão de reflexão para os linguistas e os decisores de políticas educativas: O que se espera do contributo da historiografia da linguística? Que ideologia, que cultura permeava o discurso passado?

Não é meu propósito responder às questões acima descritas, mas dar pistas reflexivas em torno da relevância da abordagem historiográfica da linguística no português angolano, a saber: i) permitir a escrita diacrónica do português angolano; ii) registar o passado, o futuro e o presente do português angolano; iii) (re)construir os estudos sobre a linguagem em Angola; iv) motivar a prática para o tratamento da língua; v) reflectir a ciência da linguagem através de interpretações de momentos históricos, entre outros.

É nesses moldes que a compreensão e a legitimação da prática linguística contemporânea estão assentes no seu passado, contribuindo para a construção de memórias e identidades, influenciados também por questões extralinguísticas e até questões socioeconómicas. Partindo do pressuposto de que "a linguística é essencialmente uma ciência humana e social”, a historiografia linguística como produto histórico-social atenta-se aos estudos da análise linguística, dos avanços e recuos, continuidade e descontinuidade, da maneira de se expressar por meio da linguagem, permite a percepção da língua utilizada pela elite e a língua utilizada pelo povo – a língua vernácula. Essa construção de corpora sobre o estudo histórico, diacrónico se torna fundamental para a ciência da linguagem.

Impõem-se desafios aos linguistas e aos decisores de políticas educativas no país para incorporar nas grades curriculares das instituições de formação de professores e na Faculdade de Humanidades a disciplina de história da língua portuguesa e que a mesma venha a ser uma disciplina teórico-prática, de modo que se crie uma base de documentos sobre o português angolano, promovendo conhecimentos do uso da língua envolvendo o contexto histórico-social em que se insere. Somos convidados a investir em formação de pesquisadores voltados à filologia e à linguística histórica, de modos a responder às necessidades do país.

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