Cultura

Calabeto homenageado no palco do Show do mês

Analtino Santos

Jornalista

Foi na terceira edição da nona temporada do Show do Mês, que Calabeto, nas noites de sexta-feira e sábado, na Casa das Artes do Talatona, celebrou 60 anos de carreira artística e da conservação da cultura angolana.

25/07/2022  Última atualização 07H35
Músico mostrou toda sua “ginga” em duas noites na Casa das Artes e fez prova de ser um showman © Fotografia por: DR

O artista e a produção da Nova Energia no reportório apresentado proporcionaram um retrato histórico do perfil artístico e pessoal de Calabeto, em sintonia com o da música e o da sociedade angolana.

Foram vários momentos onde Calabeto mostrou e reforçou o estatuto, de um verdadeiro Kota Bwé e um eterno jovem. Lulas da Paixão, Dom Caetano, Mister Kim e Neide da Luz foram os artistas convidados para a festa. O Governo Provincial de Luanda associou-se à homenagem e em representação da governadora Ana Paula de Carvalho, coube ao director provincial da Cultura, Manuel Gonçalves, entregar o Diploma de Honra a um luandense de nascimento e vivência pelo seu envolvimento na cena artística e trajectória de vida.

   

Um roteiro de sembas

O artista, que tem como marca nas composições mensagens consideradas  por alguns não muito simpáticas para as mulheres, abriu as suas actuações na Casa das Artes com "Mbinza kusuca”, a história da esposa que deixou a camisa vermelha na lixívia. A reflexiva "Nzambi” marcou esta fase inicial onde com tristeza suplica à Deus a morte da mãe.

Com "Zé Pulungungu”, o showman apresentou toda a pulunguza com uma manifestação dos presentes nas cadeiras impossibilitados de dar um pé de dança. "Tua Bombo Tua Lembwa”, o semba fez-se sentir com Lutuima a marcar correctamente na dikanza, o instrumentista foi alternando a dikanza e a puita, mantendo a raiz da música angolana emanada das Turmas e do Carnaval. Neste ro- teiro de semba ainda teve "Malanje”,  um apelo para o regresso à terra de origem. Na mesma linha do ritmo de bandeira "Nga Mussengue” e "Sumba Nguingui”  levaram a alegria vibrante na sala e mais uma vez as mensagens não muito simpáticas para as mulheres.

Nem tudo foi semba. Em "João Papo” esteve patente o lamento pelo assassinato do amigo brincalhão, tendo o músico mostra o lado intolerante de alguns comerciantes colonialistas. Também em "Ngui dya Ngui Nua”, na qual Teddy Nsingui e Rigoberto mostraram sintonia entre os solos da guitarra e os sopros. Numa rítmica rumba em "Nguami Maka” e a balada "Vida Triste”, num dueto com Neide da Luz, poucos minutos antes das 23 horas, as cortinas encerram com Calabeto a resumir habilidades do canto, dança e teatro nos sessenta anos celebrados em "Ngolo Yami” e assim foi o fecho apoteótico para todos voltarem a casa da mãe.

Os arranjos foram de responsabilidades da Nova Energia, numa formação que contou com os seguintes integrantes: Joãozinho Morgado (tambores) Teddy Nsingui (solo), Sancara (ritmo),  Mias Galheta (baixo), Lutuima Sebastião (puita e dikanza), Jack Costa (bateria), Osmar (percussão ligeira), Eufraim La Trompa (trompete), Rigoberto (trompone), Chinguma (saxofone), Neide da Luz (coros) e Raquel Lisboa (coros e dikanza).

 

Canção de rádio

O artista, que começou a dar os primeiros passos na carreira na Turma do Rio de Janeiro, mostrou a paixão pela música brasileira em "Eu também sou gente” de Waldir Soriano, um bolero ao estilo das canções de rádio do passado. Não ficou nas ondas do autor da co-nhecida "Eu não sou ca-chorro, não”. O tango, com estilo angolano, foi entoado em "Divórcio”, com Benny nas teclas e Rigoberto na clarinete, em momento de inspiração. Ainda no continente americano com o amigo, Dom Caetano mostrou o seu lado rumbeiro.

 

O valor dos Kambas

Com Mister Kim a interpretar Bangão, Lulas da Paixão e Dom Caetano o valor de Calabeto pelos amigos foi evidenciado. Mister Kim foi o primeiro "kamba” a subir ao palco para dar voz a "Ukoami”, um dueto original com Bangão, artista que há sete anos já não faz parte do nosso convívio.

Com Lulas da Paixão foi a vez de Kota Bwé reviver Ta-borda Guedes em "Ka-maka”. Lulas da Paixão deixou os dotes de um bom bailarino e terminou ao som de "Quim”, uma mensagem de recordação que a par de "Kamaka”, é uma história que relata o sentimento da perda de um amigo.

Dom Caetano partilhou a paixão pela música cubana e pela terceira vez fizeram dueto no Show do Mês em "Como estás Miguel”, desta vez, tendo Chinguma segurado os solos no saxofone.  Como irmão mais novo, Dom Cateano agradeceu o companheiro de vida e fechou a sua participação com "Vizinho”, também outra produção artística onde a amizade está em evidência,  recriando o instrumental do sucesso de Beto de Almeida.


A fase do Agrupamento Kissanguela

A patriótica "Ngola Yetu” esteve no alinhamento e serviu  para abordar a fase do agrupamento Kissanguela, afecto à organização juvenil do Movimento Popular de Libertação de Angola (JMPLA). Um tema com uma orientação política, segundo Calabeto, revelou na segunda noite, que resumiu da seguinte maneira:"a nossa Angola é grande e é necessário que todos trabalhemos para sermos felizes”.

Na parte final voltou a interpretar o tema "A Vitória é Certa”, a música pertencente a um passado histórico marcado por mensagens de exaltação ao MPLA, mas nas duas noites o artista retirou trechos do original.

O Agrupamento Kissanguela foi um colectivo artístico (poesia, teatro, jogral e música), ligado ao sector cultural da JMPLA e foi dirigido por Zé Agostinho, sendo usado como instrumentos de mobilização e sensibilização político-patriótico. Muitas vezes acompanhou o Presidente Agostinho Neto em digressões no exterior. Calabeto teve como colegas:  Artur Adriano (voz), Belmiro Carlos "Nito” (guitarra), Beto Pederneira (trompete), CEl Belo (voz), Fató (voz), Filipe Mukenga (voz), Jorge Varela (voz), Juca Vicente (bateria), Manuel Claudino "Manuelito” (baixo), Mário Silva (voz), Raul Tolingas (percussão) e Santos Júnior (voz).

A suspensão da actividade artística e as implicações no Top dos Mais Queridos partilhada por Calabeto, nas duas noites foi um dos momentos mais tristes da sua carreira musical. O músico foi impedido de actuar por ter chegado depois das autoridades governamentais, num espectáculo no Karl Marx. Foi considerado atraso, apesar de ser a atracção para o final  do espectáculo. O incidente provocou uma suspensão da actividade artística durante seis meses. Esta situação teve implicações finais na disputa do Top dos Mais Queridos em 1986, na altura conquistado por Mamborrô e Calabeto ficou na segunda posição com "Nguami Maka”.

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