Opinião

Cafu dá água e visibilidade

Cândido Bessa

Director Adjunto

O projecto Cafu, integrado pelo sistema de captação e o canal de transferência de água do rio Cunene para benefício de várias povoação afectada pela seca, na província com o mesmo nome, recebeu, na sexta-feira, um ilustre visitante: o presidente da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

15/05/2022  Última atualização 08H35

Abdulla Shahid chegou a Luanda depois de participar, em Abidjan, Cotê d' Ivoire, na Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, evento que serviu para chamar a atenção do mundo à acção para garantir que os benefícios da terra cheguem a gerações presentes e futuras.

A restauração de mil milhão de hectares de terras degradadas, até 2030, foi um dos temas bastante discutido entre os presentes, muitos dos quais, como o próprio presidente da Assembleia Geral da ONU, inconformados com a quase inacção global diante da gravidade e avanço dos problemas ambientais.

O alto dirigente da ONU inclui, na sua digressão, a província do Cunene. O objectivo foi o de verificar o primeiro de três projectos desenhados pelas autoridades angolanas para reduzir o impacto da seca que, há várias décadas, assola aquela população.

O diplomata, que escolheu a "Presidência de Esperança”, como lema do seu mandato, justificou a ida ao Cunene com a necessidade de manifestar solidariedade para com o "Governo e as pessoas que, apesar de algumas chuvas, estão no meio da pior seca registada em mais de 40 anos”.  Abdulla Shahid é, entre outros, o responsável pela supervisão do orçamento da ONU, além de nomear os membros não permanentes do Conselho de Segurança, receber relatórios de outras instituições da ONU e fazer recomendações sob a forma de resoluções.

No Cunene, Abdulla Shahid queria ouvir histórias de pessoas directamente afectadas pela seca, principalmente as mulheres, as quais considera as mais vulneráveis às alterações climáticas e que, no seu entender, suportam, muitas vezes, o "fardo mais pesado do impacto deste flagelo”. A falta de chuvas matou pessoas e animais, desestruturou famílias.

No final da visita, o alto dirigente da ONU afirmou: "Gostámos do que vimos. Estamos gratos pelo trabalho do Executivo angolano, liderado pelo Presidente João Lourenço. Foi uma demonstração clara do empenho no combate à seca e às alterações climáticas”.

Num mundo em que os projectos para salvar a natureza e o ambiente andam a "passo de camaleão”, comparado à velocidade dos danos causados todos os dias, manifestações de satisfação de um dos líderes da ONU deve encher de orgulho todos os angolanos. Cafu já não é só mais um projecto. É a esperança de milhares de vidas. Hoje, estima-se que o canal beneficie mais de 235 mil habitantes, dá de beber a 250 mil bovinos e caprinos, além de irrigar uma área equivalente a 15 mil campos de futebol. Mas Cafu pode mais. Afinal, são 160 quilómetros de extensão (quase a distância entre Luanda e a cidade do Dondo, no Cuanza-Norte, ou três vezes entre Luanda e a Vila de Catete). Ao longo do canal, foram construídos 30 reservatórios (chimpacas), para o gado e outros fins. Está claro que a província do Cunene não será a mesma, no futuro.

O dirigente da ONU falou de uma colaboração com o Governo angolano no sentido de se criarem hortas comunitárias, num esforço conjunto para inverter as estatísticas do Programa Alimentar Mundial (PAM) que apontam para cerca de1,6 milhões de pessoas em risco de fome severa, devido a infestações de gafanhotos e a seca no Sudoeste da Huíla e nas províncias do Namibe e Cunene.

A ONU considera que a seca, aliada à pandemia da Covid-19 e à mudança dos padrões climáticos, "estão a inverter os ganhos que Angola tem feito para alcançar os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e a melhorar a vida das pessoas”.

Num texto de opinião que escreveu para o Jornal de Angola, o dirigente da ONU mandou uma mensagem à comunidade internacional: "temos de agir agora, enquanto ainda temos a esperança de inverter os danos que fizemos à natureza e ao ambiente. Temos os recursos. Somos capazes. Vamos reunir a vontade. Devemos isso às gerações futuras”.

Alguns indivíduos (ainda por cima angolanos!), se calhar aversos à criatividade e visão alheias, podem não enchergar o verdadeiro valor social e económico de uma obra como o Cafu e outras que estão a ser erguidas um pouco por todo o país para servir às actuais e futuras gerações.  Mas são, de facto, activo importante para o futuro deste país. O futuro vai agradecer e confirmar as boas escolhas feitas.

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