Mundo

Cabo Verde: Campo de concentração à espera de ser museu

O município de Tarrafal, em São Nicolau, quer tornar museu o que resta do primeiro campo de concentração do regime colonial em Cabo Verde e que antecedeu o de Tarrafal em Santiago, tendo garantia de financiamento para o projecto.

04/10/2022  Última atualização 09H40
© Fotografia por: DR

Em entrevista à agência Lusa, o presidente da Câmara Municipal de Tarrafal de São Nicolau, José Freitas, admitiu que o projecto para conservar e "musealizar” o que resta da estrutura que em 1931 foi construído nos arredores da localidade, então para receber os deportados políticos da revolução da Madeira, já tem alguns anos, mas há finalmente garantia de financiamento, pelo Fundo do Turismo, com o apoio do Instituto do Património Cultural (IPC).

"Uma vez que temos a parte histórica, vamos redimensionar o projecto e já temos uma garantia, não o montante em si, mas já temos a garantia do Fundo do Turismo que será financiado”, afirmou.

O objectivo é replicar e explicar alguma história ali vivida há quase cem anos, num campo de concentração que funcionou durante um ano e meio, até Dezembro de 1932, e que esteve na génese da posterior construção do campo de concentração em Tarrafal, ilha de Santiago - o qual por sua vez funcionou até 1974 e por onde passaram presos políticos portugueses e das várias colónias.

"Vamos fazer alguma réplica do espaço que existia no campo de concentração, para que possamos torná-lo uma atracção turística. Fica a memória de pessoas e do campo, antes de passar para o campo de concentração do Tarrafal de Santiago”, acrescentou o autarca, recordando que este é, de resto, o motivo da germinação entre os dois municípios Tarrafal, de São Nicolau e de Santiago.

"Este ano nós podemos garantir que vamos ter o projecto pronto juntamente com o IPC e ver o financiamento através do Fundo do Turismo”, garantiu José Freitas.

Em conversa com a Lusa, o historiador José Cabral, de São Nicolau e que passou praticamente metade dos seus quase 60 anos a investigar a instalação naquela ilha do presídio para os deportados políticos da revolução da Madeira, inicialmente instalado no seminário da ilha e depois partilhado com o campo de concentração nos arredores da vila do Tarrafal, lamentou o desinteresse, até hoje, em conservar a memória do que ali aconteceu.

"Ao fim de tantos anos, o espaço está na mesma”, observou, recordando a importância, partilhada por outros estudiosos do tema, de São Nicolau no início do regime ditatorial português. Aquela ilha cabo-verdiana, após a revolta da Madeira, serviu como "experimento do novo modelo prisional” do regime, que até então via as ilhas "como o degredo”. "Esse modelo passa de ilha prisão para prisão na ilha”, recorda, sobre a escolha de São Nicolau.

Após Maio de 1931 começaram a chegar a São Nicolau os deportados portugueses, instalados no então Seminário-Liceu na vila de Ribeira Brava, outra das localidades da ilha: "Vieram várias levas e o espaço não coube. Foi-se edificar de raiz um campo de concentração em Tarrafal de São Nicolau, que eram pré-fabricados de madeira, de origem alemã”.

O historiador recorda que o primeiro campo de concentração em Cabo Verde resistiu pouco tempo, mas no decreto de criação da colónia penal em Tarrafal de Santiago, o campo de concentração que acabou por funcionar até ao fim da ditadura em Portugal, estava "expressamente dito” que era para recorrer ao "material utilizado na tentativa de instalação do campo de concentração de São Nicolau”. Pelo que essas casernas, cujas marcas das fundações ainda podem ser reconhecidas em São Nicolau, foram desmontadas e transportadas para Santiago.

Cabo Verde recebeu na altura, estima, cerca de 400 deportados políticos da revolução na Madeira, muitos dos quais militares portugueses condecorados da I Guerra Mundial, que foi rapidamente abafada pelo regime, metade dos quais foram concentrados em São Nicolau.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Mundo