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Cabinda é o orgulho dos habitantes da província mais a norte do país

Bernardo Capita | Cabinda

Jornalista

A então Vila Amélia, actual cidade de Cabinda, completa hoje, 29 de Maio, 66 anos de existência, desde que, no longínquo ano de 1956, por portaria exarada pela antiga Administração colonial portuguesa, ascendeu à categoria de cidade.

29/05/2022  Última atualização 09H30
Cidade de Cabinda completa 66 anos © Fotografia por: José Soares | Edições Novembro
De lá para cá, a cidade evolui substancialmente do ponto de vista de crescimento socio-urbanístico, a julgar pela variedade de infra-estruturas, quer imobiliárias, quer rodoviárias, como outros serviços sociais indispensáveis à vida humana, que proporcionam uma melhor qualidade de vida.

Conhecida também por "Tchiowa”, a cidade de Cabinda é hoje, o epicentro da maior densidade demográfica a nível da região, albergando, segundo dados estatísticos do censo da população de 2014, cerca de oitenta por cento da população global da província. Tem um conjunto de infra-estruturas que, há 66 anos, não possuía e que constituem  motivo de grande orgulho e alegria dos seus habitantes.

Tem, também, vias rodoviárias devidamente estruturadas, rede escolar e sanitária dotada de infra-estruturas modernas e construídas de raiz, porto e aeroporto, faculdades públicas e privadas, e a maior indústria petrolífera do país, que constitui a sua maior "relíquia”, com uma produção média diária de 79 mil barris de petróleo e milhões de pés cúbicos de gás natural.

Os sectores de Energia e Águas também conheceram uma grande evolução. O Executivo central tem estado a direccionar avultados investimentos nos dois sectores, tudo no interesse de se ultrapassarem alguns constrangimentos de ordem social. No domínio da energia eléctrica, foi reforçada a capacidade de produção da Central térmica do Malongo, com mais uma turbina a gás de 25 megawatts, perfazendo um total de quatro. Isso permitiu elevar a produção da maior fonte energética da província para 120 megawatts, para além de outras fontes complementares geradoras de energia eléctrica espalhadas um pouco pela cidade.

O grande "boom” social foi, sem sombra para dúvidas, o investimento de 209 milhões de dólares feito no sector das águas. O dinheiro foi empregue no "mega” projecto de construção da Estação de Tratamento de Águas de Sassa-Zau, com capacidade disponível de 51.840 metros cúbicos, para abastecer a cidade de Cabinda e a vila de Lândana, no município do Cacongo.

A ETA de Sassa-Zau já se encontra na fase experimental e a abastecer água potável a muitos bairros periféricos da cidade de Cabinda, incluindo Lândana.

A iluminação pública e saneamento básico são dois outros aspectos positivos que também têm merecido atenção das autoridades locais e que indiscutivelmente têm estado a contribuir, quer para a mudança da imagem da cidade, quer para a sua limpeza e embelezamento e, com isso, aumentar a auto-estima, dignidade e prazer aos munícipes de viverem na cidade capital da província.

 

Pedido para mais autocarros públicos

Clemente Domingos, 28 anos, formado em relações internacionais, quer mais autocarros públicos para facilitar a mobilidade dos citadinos que reclamam mais oferta desses serviços para reduzir os aglomerados de passageiros nas paragens.

Não obstante isso, Clemente Domingos corrobora da opinião de que a cidade de Cabinda está a registar uma evolução social satisfatória, o que o anima bastante e que lhe dá mais crença de que o futuro será ainda melhor.

"A cidade está a crescer de forma proporcional, precisa-se, no entanto, melhorar o ramo dos transportes públicos, criando mais rotas de autocarros em todos os sentidos para facilitar a mobilidade dos cidadãos”, disse o também morador do bairro Comandante Gika, que defendeu, por outro lado, a necessidade das autoridades competentes continuarem a dar mais atenção ao sector de desenvolvimento social, particularmente no que toca o desporto, para ocupar o tempo livre de muitos jovens.

"Os jovens devem estar inseridos em várias actividades ocupacionais para tornar a cidade mais dinâmica ainda”, defendeu Clemente Domingos, para quem o sector de saneamento básico pode ser também uma outra área em que os jovens, incluindo a sociedade no geral, podem se empenhar com acções de limpeza em "muitos bairros periféricos onde existe lixo”. 

Jeovânia Yoba, 20 anos e estudante do 1º ano do curso de Gestão de Recurso Humanos, no Instituto Superior Politécnico Lusíadas, perfilou no mesmo diapasão, referindo que se sente bastante orgulhosa por saber que vive numa cidade em franco crescimento social, onde é visível muitas infra-estruturas sociais que conferem melhor dignidade a todo aquele que nela habita.

A título de exemplo, apontou o Terminal Marítimo de Passageiros e o Hospital Geral de Cabinda, dois importantes equipamentos sociais que "vieram proporcionar uma melhor qualidade de vida, não só aos munícipes locais mas também a todos habitantes da província”. "A nossa cidade tem estado a crescer e isso é muito bom”, reconheceu a estudante, que aconselhou a todos os munícipes no sentido de conservarem o património público que tem sido construído com muito sacrifício.

Márcia Bonito, 20 anos, colega de curso e instituição de ensino de Jeovânia, disse ser um orgulho viver na cidade de Cabinda, apesar de exigir em alguns bairros algumas dificuldades de ordem social, nomeadamente "irregularidades no fornecimento de energia eléctrica, falta de fontanários públicos, amontoados de lixo e, fundamentalmente, a delinquência”.

Apontou a paragem do Yema como o ponto com o maior índice de delinquência na cidade de Cabinda. A zona é frequentada maioritariamente por imigrantes ilegais da RDC. Aqui é frequente casos de assaltos de de carteiras, telemóveis e dinheiro.

Tal como António Gime, Márcia Bonito também deplorou a actuação dos moto-taxistas. "A Polícia deve actuar energicamente contra todos aqueles que desrespeitam as regras do Código da Estrada”, defendeu.

A voz do munícipe

O munícipe António Manuel Gime, 72 anos, nasceu, cresceu e continua a viver na cidade de Cabinda. É um cidadão muito atento aos fenómenos sociais que ocorrem no seu município.

Ao falar a propósito do aniversário da cidade de Cabinda, disse que a urbe tem estado a registar melhorias significativas, ano após ano, devido ao esforço conjugado empreendido, não só pelo governo da província, mas também pela administração do município e pela própria população, "que tudo faz para marcar sempre a diferença, fazendo com que ela cresça para o bem social comum”.

"Há muitas melhorias. A imagem da cidade hoje é completamente diferente! Com a idade que tenho, confesso que o que vi ontem na cidade de Cabinda, certamente que não é o mesmo que vejo hoje. Há uma evolução muito grande em todos os domínios”, reconheceu.

António Gime disse acreditar que a cidade poderá evoluir ainda mais, se "o mesmo empenho continuar a vincar na consciência dos governantes, bem como o respeito que a população deve ter pelo que é feito pelo governo”.   

Destacou a importância da iluminação pública na vida dos cidadãos, salientando que o projecto trouxe maior segurança e momentos de lazer nocturno. "Os munícipes já conseguem, por um lado, pernoitar, andar à vontade sem suspeitarem de uma possível acção de delinquentes e, por outro, a imagem da cidade tornou-se mais esplêndida, sobretudo durante as noites”.

Encorajou o governo da província e a administração do município a prosseguirem com acções idênticas, não somente na vertente da iluminação pública, mas também de outros serviços sociais indispensáveis, nos bairros e aldeias que ainda carecem de tais condições.

 

Imigração ilegal

O assunto que deixa particularmente preocupado António Gime é a imigração ilegal. "Há muitos cidadãos estrangeiros em situação migratória ilegal a viver na cidade de Cabinda” desabafou, para acrescentar que a imigração ilegal tem estado a causar muitos distúrbios na cidade.

Os imigrantes ilegais têm promovido a delinquência, deixando as pessoas de olhos acordados, por receio de que a qualquer altura a sua casa possa ser assaltada por indivíduos munidos de armas brancas ou mesmo de fogo.

"Apelo às forças de defesa e segurança para trabalharem afincadamente no âmbito das suas atribuições, protegendo as populações para o bem-estar de toda sociedade onde eles também são parte integrante”, exortou.

António Gime condenou também as construções anárquicas que são feitas nas proximidades da cidade e no casco suburbano, exortando os órgãos de fiscalização a ter mais controlo. "As construções anárquica não só desestruturam urbanisticamente a cidade, como também dificultam o acesso ao interior de muitos bairros em caso de uma emergência ou mesmo para instalação de alguns serviços sociais básicos, como água, energia eléctrica, transportes públicos entre outros”, disse. 

António Manuel Gime terminou deplorando a atitude "extremamente negativa” de muitos moto-taxistas, maioritariamente imigrantes ilegais da RDC, que, sem a mínima noção das regras do Código de Estrada, "fazem e desfazem na via pública, faltam respeito a quem reclama das suas manobras perigosas”.

Como se não bastasse, carregam dois a três passageiros numa única motorizada, sob o olhar impávido dos agentes reguladores de trânsito. Tal desordem, disse, tem causado muitos acidentes de viação e a enlutar muitas famílias.

Administradora prevê dias melhores

A administradora municipal de Cabinda, Berta Buca Marciano, disse que a antiga Vila Amélia registou um crescimento exponencial, quer na construção de novas infra-estruturas de impacto socioeconómico, quer na sua estrutura demográfica, tendo agora com mais de 600 mil habitantes.

Apesar disso, reforçou, a procura por serviços básicos pelos munícipes é bastante e a administração local vê-se a braços para conseguir distribuir esses serviço de forma abrangente a todas as populações.

Apesar da entrada em funcionamento do novo sistema de tratamento de água de Sassa-Zau, com capacidade de produzir 51.840 metros cúbicos de água/dia, o processo de distribuição é ainda deficitário, admitiu a administradora.

Informou que 15 mil novos consumidores já beneficiam do projecto ao nível da cidade de Cabinda e bairros periféricos, enquanto nas áreas onde o projecto de Sassa Zau não chega serão feitos cerca de 50 furos para distribuir água ao domicílio dos utentes.

A distribuição de energia eléctrica também regista um défice. Berta Marciano garante que, tão logo entre em funcionamento a nova turbina a gás, em montagem na Central Térmica de Malongo, vai ajudar a mitigar o problema.

Adiantou a existência de um projecto de construção, a longo curso, de novas centrais eléctricas no município, uma das quais será instalada na comuna de Tando-Zinze, que vive sérios problemas de abastecimento de energia, devido à dependência com grupos geradores como fontes alternativas.

"A comuna, às vezes, fica muito tempo sem luz eléctrica devido ao elevado custo dos combustíveis e da manutenção dos grupos geradores. Tudo isto acarreta custos elevados. Temos também problemas na zona sul, sobretudo na regedoria do Ntó, onde não existe nenhuma fonte de produção de energia”, disse.

 

Projectos do PIIM

No Plano Integrado e de Intervenção nos Municípios (PIIM), o município de Cabinda tem escrito 46 projectos diversos ligados à construção e ampliação de infra-estruturas escolares, centros de saúde, a construção de uma nova morgue, com 30 gavetas para a conservação de corpos, um mercado de peixe, iluminação pública, sistemas de abastecimento de água, dentre outros.

No sector da Educação, o destaque vai para a construção do novo magistério, com 20 salas de aula e laboratórios, bem como outros empreendimentos que vão permitir o ingresso de mais alunos no sistema de ensino.

"Para melhorar a nossa qualidade de ensino, temos que aprimorar as metodologias e a formação técnica daqueles que têm a responsabilidade de lidar com o ensino primário”, defendeu, queixando-se ainda da falta de mais estabelecimentos de ensino técnico para engajar a juventude em diversas artes e ofícios, facilitando, assim, o seu ingresso no mercado de emprego.

Na área da saúde, o combate às doenças endémicas como a malária, a principal causa de mortes, no município, está associado à melhoria do saneamento básico, com a recolha de lixo, quer na urbe, quer na preferia, para deixar a cidade com uma imagem acolhedora e digna de um postal de visitas da província.

O estado deplorável das vias secundárias e terciárias nos bairros e a existência de 54 ravinas catalogadas são os factores que condicionam a livre circulação de pessoas e bens entre várias localidades.

A administradora municipal anunciou, ainda este ano, a reabilitação da via que liga São Pedro à aldeia do Yabi, numa extensão de cerca de 12 quilómetros. Em relação às ravinas, admitiu que tanto a administração municipal, como o governo provincial, não têm capacidade técnica e financeira para solucionar o problema.

Berta Marciano admitiu, igualmente, que a criminalidade continua a registar números preocupantes para um município que alberga mais de 80% dos habitantes da província.

"Temos um alto índice de criminalidade, praticado sobretudo pelos estrangeiros que aqui vivem ilegalmente. A imigração ilegal é outro mal que enferma o município, devido à vulnerabilidade das fronteiras com os países vizinhos. Há uma invasão diária de estrangeiros para o território nacional”, lamentou.

Propôs às autoridades afins que se faça um registo dos estrangeiros para se conferir a quantidade e onde estão localizados ao nível do município. "As vezes, (os estrangeiros ilegais) metem-se em actividades ilícitas, venda de terrenos e estupefacientes, usurpam poderes e povoam as aldeias abandonadas”, exemplificou. 


Bernardo Capita, e Alberto Coelho | Cabinda

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