Entrevista

Cabinda aposta no fomento de produtos agropecuários

A província conheceu, nos últimos anos, um crescimento notável no domínio da pecuária, com um registo de mais de noventa e cinco pocilgas, setenta apristos , 110 galinheiros, elevando a capacidade actual para 10 mil pintos por mês, 650 caprinos e igual número de suínos, que estão a ser distribuidos às comunidades

10/05/2022  Última atualização 08H25
Marcos Alexandre Nhunga, governador provincial ao jornal de angola © Fotografia por: josé aoares | edições novembro | cabinda

Na última parte da extensa entrevista que nos concedeu, o agrónomo fala, também, da cadeia de valores, um programa com potencial para mudar a história agrícola de Cabinda.

Enquanto profissional  ligado ao sector, a agricultura é, certamente, uma área que lhe fascina…Qual é, no geral, o quadro actual?

Relativamente  à agricultura, que é, na verdade, a área da nossa formação,  digo sempre que em Cabinda,tudo pode falhar, menos nesse sector devido às especifidades da região em termos climáticos e a fertilidade dos terrenos.

Tudo temos estado a fazer para que a nossa província possa ter uma evolução equilibrada em todas as áreas. A agricultura é um sector que tem muitos espaços a nível de Cabinda. Só para lhe dar um exemplo, durante esse nosso mandato, a província tornou-se na maior em termos  de produção pecuária a nível nacional, com mais de noventa e cinco pocilgas, setenta apristos, 110 galinheiros e uma capacidade actual para 10 mil pintos por mês. Continuamos a desenvolver acções para melhorar esses cifras.

Obviamente que, para a sustentabilidade de um programa dessa dimensão, temos  uma participação  muito signficativa das comunidades, na criação, sobretudo, de caprinos e suínos.

Isso tem um impacto muito grande e alegra, por exemplo, qualquer ex-militar, que é o grupo de eleição,  além das  comunidades rurais.

 

Que expectativas tem o governo ao envolver as comunidades rurais nesses programas?

As nossas expectativas são muito elevadas, em relação a esses programas. Ora bem, entendemos, por exemplo, que alguém com uma po-cilga, com quatro porcas e um porco, ele ao fim de um ano, se estiver a trabalhar muito bem, consegue ter cinquenta a sessenta porcos. Se tiver trinta a cinquenta galinhas, no final do ano, cem a duzentas galinhas. Com quatro cabras e um cabrito ele multiplica.

Não digo que ele vai ficar rico, mas pelo menos consegue mitigar a situação da pobreza, que é exactamente o objectivo desses projectos.

Além do programa de combate à pobreza, que outras acções estão a ser desenvolvidas em Cabinda, para benefício das populações?

Na verdade, para além das acções ligadas ao combate à  pobreza, também temos o Projecto  Cadeias de Valores, que, além da agricultura abrange, também, a produção pecuária, uma área em que a província de Cabinda regista, na verdade, um maior défice. Temos que atacar em conjunto esse sector.

Na agricultura - é preciso dizer isso - Cabinda nunca esteve mal, porque é auto-suficiente naquilo  que é a base de produção de bens alimentares. Ou seja, em Cabinda não há fome. O que acontece é que naqueles bens que não são produzidos cá, os preços são muito altos, devido à descontinuidade geográfica

Contudo, essa é uma situação  que vai ser mitigada com a questão do ferry boate e do projecto quebra-mar, que vai impactar grandemente nos preços dos produtos.

 

Mas voltando à agricultura, gostaria que fosse mais explícito...

Devo dizer que Cabinda é uma província auto-suficiente naquilo que é a base alimentar da sua população.  Produzimos em quantidade suficiente, que também exportamos para os dois Congos, como banana, mandioca, amendoím, temos um pequeno défice no feijão, mas em todas as outras espécies, como batata-doce e inhame, Cabinda está bem.

Nós estamos a trabalhar, não só para aumentar a producão  dessas culturas, mas também para incentivar a montagem de unidades de processamento, porque em vez de estarmos a exportar esses produtos para os Congos de forma bruta, se nós conseguirmos transformar será  sempre uma mais valia para a província e, principalmente, para os produtores.

 

Como é que está Cabinda, em relação à produção de rações, uma área onde o país ainda regista um acentuado défice?

Essa é uma boa questão. Temos um problema sério neste domínio e que estamos a tentar resolver. Para nos tornarmos auto-suficientes em termos de produção  pecuária. Aliás, na produção de qualquer sistema pecuário, você só se torna auto-suficiente se toda a cadeia estiver a funcionar.

Ora bem, a nossa maior preocupação é a produção de ração em Cabinda e para isso estamos, agora, a criar incentivos, para que possa haver a produção de milho e soja a uma escala considerável em Cabinda.

Esses são, obviamente, investimentos privados, mas entendemos que tem que haver a promoção do Estado. O Estado tem que participar nisso, por causa do crédito, sobretudo no caso de Cabinda, onde não temos grandes empresários do sector agrícola.

Aqui, maioritariamente, a agricultura é feita pelo sector familiar, logo o Estado tem que jogar algum papel, fundamentalmente na cedência do  crêdito e é o que estamos a fazer, trabalhando com o BDA e outras instituições, para nós conseguirmos ao nível da província de Cabinda produzirmos pelo menos 500 a 1000 hectares de milho, 300 a  400 hectares de soja.

Com essas quantidades, nós podemos almejar um programa ambicioso de produção local de animais e podermos nos tornarmos, ao fim de dois ou três anos auto - suficiente em termos de produção suinícula e avicola e podermos até pensar num sitema de engorda do gado.

A nossa maior preocupação é exactamente a produção em grande escala de milho e soja e termos um grande  centro logístico  para o efeito, com secadores e silos, já que Cabinda tem uma unidade relativa muito alta. E, depois, uma fábrica de ração, isso é fundamental. Digamos que ao nível do sector da agricultura, à semelhança da saúde, se está a fazer uma grande trabalho.

 

Como é que está o projecto de reactivação da produção e cacau em Cabinda?

Cabinda, mesmo no tempo colonial, foi sempre a província onde se produzia o cacau, embora não tenha estado a ser feito no seio das comunidades locais, mas por empresas. As comunidades locais trabalhavam nas fazendas do cacau, diferente do café, onde as comunidades chegavam a deter até dez a vinte hectares.

A cultura do café estava muito mais inserida dentro  das co-munidades, do que o cacau. Os fazendeiros deixaram de produzir o cacau, logo a serguir a independência,mas a três ou quatro anos retomámos esses projectos-piloto da cultura do cacau e do palmar em Cabinda, que tem vindo a dar bastante sucesso.

 

Ligado a isso, ao que sabemos, decorre, no Ghana, uma conferência para a formaço sobre a produção do cacau com a presença de Angola…

Sim…… A formação a que se está a refere teve, efectivamente, a participação de  quadros aqui de Cabinda, que mandámos para o Ghana. Tanto empresários, como técnicos foram colher experiência num país, que ao lado da Côte d’Ivoire, é o maior produtor de cacau em África.

Então mandámos esses quadros, que estão a fazer a formação, para quando voltarem  poderem transmitir os seus conhecimentos e poderem melhorar o ma-nejo das suas unidades de produção.

Tivemos, também, aqui empresários holandeses, interessados na produção local de cacau, um sector em que o sector empresarial mais se interessa, justamente por ter, hoje, mais valor do que o café.

Por outro lado, nós aqui em Cabinda, ao nível do programa Cadeia de Valores, estamos a trabalhar para criar, não só na agricultura, mas nas culturas industriais (café e cacau), para a montagem de unidades de processamento dessses produtos, de forma a conferir-lhes maior valor.

Poderão, de resto, irem aos municípios, visitarem alguns projectos da cadeia de valores e verem exactamente o que está a ser feito.

Temos empresas portuguesas, que no passado já faziam cacau cá em Cabinda e que agora estão  a retornar, para exactamente  retomarem esssa actividade, por ser uma commodities das mais procuradas a nível mundial, sendo que Cabinda reúne condições climáticas excepcionais, para a produção  em grande escala do cacau e café. Outras províncias, como o Zaire e Cuanza-Sul também já estão  a produzir, buscando sementes aqui mesmo em Cabinda.

 

Qual e actual estado das obras da refinaria projectada para Cabinda?

Bom mesmo, seria irem ver com os vossos próprios olhos as obras. Tentaram dizer que a refinaria estava parada, vão e poderão constatar que a refinaria está a evoluir muito bem e com muita dinámica. Aliás, agora, no final do mês vai sair uma uma delegação para os EUA, precisamente para aferir o grau de prepação  da transportação da refinaria para Cabinda, já que as previsões que temos é que a mesma esteja a ser  montada, a partir do mês de Junho e começar a produzir 30 mil litros.

 

Que estratégia é seguida em Cabinda, para a atracço de mais investimentos em diversos domínios?

Temos, sim, estado a trabalhar para atrair investidores. Isso não é dificil, pois estamos numa província estável. O que é importante fazer é que tenhamos aqui três ou quatro factores  fundamentais. Primeiro criarmos um ambiente de negócios favorável, uma rede boa rede de estradas, sistema de energia e água funcionais e outras condições prévias favoráveis.

Temos variadíssimas áreas onde os investidores se interessam, mas há, efectivamente, esse problema das estradas, que precisamos de resolver aqui em Cabinda, que está ligado às estradas. Não é facil sair de Cacongo a para o Alto Sundi ou do município sede para a zona do Yabi. Para lhe dar apenas um exemplo.

Qualquer investidor, por exemplo, quando chega aqui pergunta logo como estão as estradas.

É nesses quesito que nós  estamos a trabalhar, pois há muitos empresários disponíveis para virem investir aqui em Cabinda porque as condiçoes climáticas de Cabinda são muito favoráveis. Estamos num território que mesmo no tempo seco está sempre verde, tem solos impecáveis e no passado fomos sempre grandes exportadores de café e de cacau, além de termos um vasto potencial mineiro e pescas.

 

Muito se falou de uma programa de distribuição de galinhas e porcos às comunidades...

No quadro do programa de combate à fome e à pobreza e cadeias de valores agrícolas estamos a distribuir muitas galinhas e porcos. Neste momento, estamos a trabalhar em unidades satélites de prdução de aves, duas unidades satélites de produção de pequenos ruminantes, para a distribuiçao às comunidades.

Cabinda, agora, tem uma capacidade de produção de  aproxidamente 20 mil pintos na unidade satelite, para serem entregues às comunidades. Temos, também, cerca de  650  cabritos e igual número de suínos, para as comunidades, onde foram implantadas pocilgas e apriscos.

Esse é um processo contínuo  que para ter sustentabilidade  necessita da produção de ração e um centro logístico de conservação dessa produção com silos, secadores e uma fábrica de ração.

 

Qual é balanço se lhe oferece fazer sobre do vosso mandato mandato em Cabinda?

A população de Cabinda está muito satisfeita com o trabalho que o Executivo angolano está a desenvolver aqui, pois há muitos projectos que vamos inaugurar (a entrevista foi feita na véspera da visita presidencial) e que terão um impacto muito signicativo na província.

O sentimento geral entre a população  é de que mais vale tarde do que nunca, pois muitos desses projectos já deveriam ter sido feitos nos primeiros anos da independência. Estou aqui a falar do hospital geral, do terminal marítimo, porto de águas profundas,  estradas e campus univsersiatário. Para citar apenas alguns exemplos, cujos os benefícios são incomensuráveis.

Durante esse mandato, todos projectos estruturantes da província de Cabinda, que andavam paralisados, foram retomados. Uns inaugurados e outros a decorrerem a bom ritmo.          

Daqui a três ou quatro meses teremos a refinaria a funcionar, atracagem de barcos aqui em Cabinda resolvida e esses são  problemas fundamentais que eram de difícil definição. Saber o que era, na verdade, prioritário porque achamos que cada província tem as suas especificidades e no caso de Cabinda, que é uma parcela do território nacional descontinuado, a situação requeria um outro tratamento.

E isso está a ser feito e vai continuar, seguramente.

Intervenção nas estradas é crucial para garantir escoamento dos produtos dos campos

Mas o que está a ser feito, para que a circulação em todo território se faça com toda segurança?

Ora bem, temos as estradas secundárias e terciárias que são da responsabilidade local e as estradas nacionais, da responsabilidade do Executivo. Independentemente de quem é a responsabilidade, o Governo, de uma forma geral, está preocupado com a situação de Cabinda. Nós temos estado a fazer um trabalho paliativo de terraplanagem ao nível das vias secundárias e terciárias.

No quadro do PIIM, vamos ter muitas ruas asfaltadas, principalmente aqui no município sede. Muitas estão agora a ser asfaltadas, como é o caso das ruas do Lubendo, Luvassa, Amaro Tati e outras que estão a ser intervencionadas a nível do condomínio Vila Esperança. Esse é um trabalho muito  abrangente, com a intervenção e asfaltagem de todas as vias secundárias e terciárias.

Quanto à EN 110,  a única parte que está em condições é a que sai da cidade de Cabinda para Cacongo, de lá para o Alto Sundi e aqui na zona Sul, temos muitas dificuldades. Vai se encontrar, agora, uma solução para o efeito.

 A EN 110 é, efecctivamente, muito problemática, mas nós já temos uma luz  no fundo do túnel, vamos ter nos próximos tempos uma intervenção mais aprofundada nesta via de fundamental relevância.

 

 

perfil

Marcos Alexandre Nhunga

Nasceu a 13 de Novembro de 1960, em Buco Zau, província de Cabinda.

Com uma carreira meteórica no sector agrícola, foi nomeado governador provincial de Cabinda em Agosto de 2019, depois de ter exercido as funções de Ministro da Agricultura e Desenvolvimento Florestal.

Do seu curriculum consta um curso sobre a Gestão da  Cultura de Algogão, feito no Egipto e especialização em Extensão Rural, pela  Universidade de Wageningen, Holanda.

Tem uma licenciatura em Agronomia, pelo Instituto Superior de Tashkent, Uzbequistão.

 Foi director  do Instituto de Desenvolvimento Agrário, onde foi adjunto para a área técnica, chefe de Departamento Nacional de Coordenação e Supervisão Técnica.

Entre 1980 e 1982 - chefiou a área de Mecanizaçao e Produção da  Empresa Agrícola do Lau, Malanje.

Leonel Kassana | Cabinda

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