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Burkina Faso: Governo confirma tentativa recente de golpe de Estado

O Presidente interino de Burkina Faso, capitão Ibrahim Traoré, disse ontem a grupos da sociedade civil que houve de facto uma recente tentativa de golpe contra o seu Governo.

03/12/2022  Última atualização 08H10
A Junta Militar no Burkina Faso chegou ao poder em Setembro deste ano, através de um golpe de Estado Militar © Fotografia por: DR

No último final de semana passado, as redes sociais no Burkina Faso, foram tomadas por rumores sobre uma provável tentativa de golpe.

Na segunda-feira passada, centenas de pessoas que se apresentaram como partidárias de Traoré se reuniram na capital, Ougadogou, para denunciar uma tentativa de desestabilizar o regime.

Dirigindo-se a organizações de sociedade civil e líderes religiosos na capital na quinta-feira, Traoré disse que o golpe foi frustrado, relata Yaya Boudani, correspondente da RFI.

"Graças à vigilância dos "meus” homens e à vigilância dos cidadãos, o inimigo foi derrotado”, esclareceu Traoré, citado por um participante da reunião.

O capitão Traoré, disse que sabia quem eram os autores, mas preferiu o diálogo e não fez nenhuma prisão.

Ele pediu aos participantes que "sejam vigilantes e estabeleçam células de vigilância nos bairros, porque é a sociedade civil que deve garantir o bom andamento da transição”, disse outro participante à RFI.

O presidente interino do Burkina Faso chegou ao poder num golpe de Estado Militar que ocorreu em Setembro, luta contra a instabilização de partes importantes do país questão sob domínio de insurgentes jihadista, há mais de sete anos.

O Governo de Ougadogou está a recrutar membros para constituir os 50.000 Voluntários para a Defesa da Pátria (VDP), uma milícia civil que apoia o exército na luta contra os jihadistas.

Centenas desses voluntários mal  treinados morreram, especialmente em emboscadas ou explosões causadas por dispositivos explosivos improvisados (IEDs) plantados ao longo das estradas.

  Um milhão de alunos sem aulas

Mais de 5.700 escolas foram encerradas no Burkina Faso devido à situação de insegurança, marcada por ataques jihadistas, privando um milhão de alunos do acesso à educação, segundo alertou recentemente a ONG Save The Children, citada pela Reuters.

"O Burkina Faso acaba de ultrapassar o limiar dramático de um milhão de crianças afectadas pelo encerramento das escolas devido à crise de segurança", escreveu a ONG num comunicado, referindo que 5.709 escolas estão encerradas.

Isso é o dobro dos números anunciados pelo Governo no início deste ano.

Desde 2017, grupos islâmicos armados têm como alvo professores e escolas no Burkina Faso, vincando a sua oposição à educação ocidental e às instituições governamentais.

"Esses encerramentos representam cerca de 22% das estruturas educacionais no Burkina Faso e afectam 1.008.327 alunos", disse a ONG, citando o último relatório da Secretaria Técnica de Educação em Emergências, um órgão do Governo.

Segundo o Ministério da Educação, mais de 28.000 professores também são afectados pelo encerramento das escolas.

"No futuro imediato, e dada a urgência, é essencial que os governos, doadores e a comunidade humanitária encontrem e financiem soluções alternativas imediatas para mitigar os riscos associados a esta situação”, disse o director da Save the Children burkinabe, Benoit Delsarte.

"Além de privar as crianças do direito à educação e ao desenvolvimento intelectual, o encerramento das aulas expõe-nas a muitos outros riscos que comprometem permanentemente o seu bem-estar e o seu futuro”, afirmou.

Por mais de sete anos, civis e soldados no Burkina Faso têm estado regularmente de luto por ataques jihadistas cada vez mais frequentes, particularmente no Norte e no Leste, que mataram milhares e forçaram cerca de dois milhões de pessoas a fugir de suas casas.

O capitão Ibrahim Traoré, que liderou um golpe militar em 30 de Setembro contra o tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba, foi nomeado presidente transitório pelo Conselho Constitucional em 21 de Outubro e estabeleceu como objectivo "recapturar os territórios ocupados pelas hordas terroristas".

Este foi o segundo golpe no Burkina Faso em oito meses.

Junta Militar pede armas para combater terroristas

O Primeiro-Ministro de Burkina Faso, Apollinaire Kiélem de Tembela, pediu ontem à França "armas e munições" para os auxiliares do exército que ajudam na luta contra os jihadistas, segundo revela a imprensa local citada pela AFP.

Durante um encontro com Luc Hallade, embaixador da França no Burkina Faso, o Primeiro-Ministro salientou que. "os esforços dos parceiros devem concentrar-se nas aspirações profundas do povo comprometido em defender a liberdade, contra a barbárie e terrorismo”.

"É isto que justifica o lançamento da operação de recrutamento de 50 mil Voluntários para a Defesa da Pátria (VDP)”, os auxiliares do exército, explicou, acrescentando: "a França poderia ajudar esta resistência popular fornecendo armas e munições e também tendo em conta o apoio financeiro dos bravos combatentes.

Às preocupações do embaixador Hallade "sobre a impossibilidade das ONGs francesas sediadas no Burkina Faso se deslocarem ao terreno para as suas actividades", Kyelem de Tembela respondeu: "esta é a razão pela qual devem ajudar-nos a ter o equipamento necessário para ultrapassar o terrorismo".

O Primeiro-Ministro burkinabe também afirmou, durante esta reunião, que o país "está encurralado há seis anos e ninguém se move”.

Ele considerou que a França "mostrou uma solicitude diferente quando se tratou de ajudar a Ucrânia no recente conflito com a Rússia”.

No final do seu encontro com Kyélem de Tembela, Luc Hallade considerou que todos tinham "interesse” em garantir que o Burkina Faso, atormentado pela violência jihadista, "se mantivesse de pé”.

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