Economia

BPC recupera 50 por cento do dinheiro desviado

Mário Cohen

Jornalista

O Banco de Poupança e Crédito (BPC) conseguiu recuperar 50 por cento do valor de uma fraude que foi detectada em meados de Abril deste ano, depois de os respectivos sistemas informativos terem detectado transferências ilegais para bancos privados, de pelo menos 434 milhões de kwanzas.

05/06/2020  Última atualização 10H58
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Do valor recuperado, 132 milhões não saíram da instituição, por morosidade do sistema de transferências, e 65 milhões de kwanzas foram prontamente recuperados na segunda-feira, 20 de Abril, evitando que o BPC sofresse um “fatal” arrombo em tempo de crise da pandemia do novo coronavírus. No total, o BPC recuperou, com a interrupção das transferências, pelo menos 197 milhões de kwanzas.

Ontem, os membros do Conselho de Administração do banco convocaram a imprensa para apresentar os indicadores do BPC, que este ano deve sofrer prejuízos de 61,5 mil milhões de kwanzas. Segundo o presidente do Conselho de Administração do BPC, António Lopes, apenas em 2021 o banco começa a apresentar resultados positivos, depois de em 2019 ter perdido mais de 400 mil milhões de kwanzas.

Para já, mesmo com as dificuldades por que passa o BPC, ele não vai ser privatizado. O interesse do Estado é maior na mais valiosa participação que tem hoje no sistema financeiro, de 75 por cento, que deve baixar com a estreia do novo accionista, o Instituto de Activos e Participações do Estado (IGAPE), que este ano deve adquirir 37,3 por cento do banco público, que apenas tem participações públicas (Ministério das Finanças, Instituto Nacional de Segurança Social e Caixa Social das Forças Armadas Angolanas).

Por força disso, o Estado deve injectar este ano, no mínimo, perto de 750 mil milhões de kwanzas, dentro da recapitalização faseada do BPC, que deve permitir a recomposição dos seus fundos públicos a um novo quadro de intervenção no mercado financeiro.

O programa de avaliação da qualidade dos activos revelou a necessidade de ajustamentos às contas do banco, no montante de 1,068 biliões de kwanzas e necessidades de recapitalização, de 1.006 biliões de kwanzas, visando adequar o rácio de solvabilidade ao limite mínimo regulamentado pelo Banco Nacional de Angola (BNA), na ordem de 10 por cento.

Com a finalidade de obter novos resultados depois deste ano, o Banco de Poupança e Crédito preferiu vender seis por cento do seu crédito malparado à Recrédit.

O malparado do BPC ronda hoje 951 mil milhões de kwanzas, mas o Conselho de Administração do banco sente-se muito reconfortado com a negociação com a Recrédit.

Banco cede crédito malparado à Recrédit

O BPC cedeu o seu crédito malparado, de 951 mil milhões de kwanzas, à Recrédit por 57,1 mil milhões, em carteira de títulos indexados (Títulos Indx) que representam 6,00 por cento do valor global, no quadro de um programa interno que visa resgatar o maior banco público do país.

Este ano, os sócios do BPC devem assegurar mais de 880 mil milhões de kwanzas, para evitar que o banco fique em endividamento, já que a instituição tem sofrido, ao longo dos anos, aquilo que a própria administração admite ser “um permanente défice de liquidez”.

Em 2019, o resultado líquido do BPC atingiu o valor negativo de 404,7 mil milhões de kwanzas, por força dos resultados de imparidade de crédito e de outros activos, no montante de 321,5 mil milhões de kwanzas, que definem a quantificação adequada do risco destes activos nas demonstrações financeiras, em conformidade com a norma IFRS9.

Ainda assim, o banco teve um desempenho reflectido na redução dos custos operacionais, que registaram um decréscimo de 24,8 por cento, na ordem dos 5,8 mil milhões de kwanzas. Este resultado foi influenciado pela revisão de preços e anulação de contratos de fornecimento e de prestação de serviços, bem como pela redução dos custos com o pessoal.

Um terço da força de trabalho cai na reforma

Um terço da força de trabalho do BPC vai ser despedido dentro dos próximos três anos, ao mesmo tempo que se deve registar o encerramento de pelo menos 20 balcões, dos 60 existentes, e a redução das actuais 35 unidades de negócios para níveis razoáveis, que o Conselho de Administração da instituição ainda não especificou.

Actualmente, são perto de cinco mil, o número de trabalhadores controlados pelo banco de Poupança e Crédito. A administração do banco já admitiu que ninguém ficará no “olho da amargura”, já que a política para a reforma efectiva ou antecipada deve passar por programas de formação e de inserção económica dos funcionários a dispensar. O mais certo, é que o BPC pode gastar perto de 18 mil milhões de kwanzas, para essa operação (indemnização e concessão de crédito para investimento dos trabalhadores a dispensar).

Além disso, o BPC deve reduzir os custos operacionais em torno de 30 por cento, permitindo que a instituição possa, a médio prazo, recuperar a credibilidade e a confiança do público. A implementação de uma rede de agentes bancários será uma das maiores apostas do banco, que é hoje o “caixa forte” do Estado.

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