Entrevista

Bonifácio da Costa Francisco : " Projectos financiados e com juros bonificados para a produção de café têm sido raros"

O Ministério da Agricultura e Pescas traçou para o quinquénio 2018/2022 o Programa de Desenvolvimento do Café, que prevê o reforço da capacidade institucional, assistência técnica, acções tendentes a aumentar a produção e produtividade, além da promoção do agro-negócio. Em entrevista ao Jornal de Angola, o director do Instituto Nacional do Café (INCA), Bonifácio da Costa Francisco, revelou que ao nível da implementação destes projectos, os resultados têm sido comprometidos pela reduzida cabimentação de verbas. Quanto à produção, este ano, o café comercial, cuja colheita ainda está em curso, a previsão é de atingir as 6 mil toneladas.

25/08/2020  Última atualização 08H25
Edições Novembro © Fotografia por: Director do Instituto Nacional do Café (INCA), Bonifácio da Costa Francisco

O café já foi o ouro de Angola, antes da independência, tendo sido um dos principais produtos de exportação. Os programas actuais para a sua reactivação são as mais adequadas?

O Programa para a Diversificação das Exportações e Substituição das Importações (PRODESI), do Executivo, incluiu o café entre as culturas estratégicas. Procura criar o ambiente de negócios propício para o relançamento da produção e o desenvolvimento da cadeia. Neste ambiente de negócios, o acesso ao crédito para empresários e camponeses organizados em associações joga um papel importante. Outras iniciativas em carteira como o seguro agrícola e a subvenção de combustíveis, a se efectivar, dariam, igualmente, um grande impulso ao relançamento da cafeicultura. O Ministério da Agricultura e Pescas havia traçado para o quinquénio 2018/2022 o Programa de Desenvolvimento do Café, que previa, entre outros, o reforço da capacidade institucional, assistência técnica, acções tendentes a aumentar a produção e produtividade e a promoção do agro-negócio. Ao nível da implementação, os resultados têm sido comprometidos pela reduzida cabimentação de verbas.

O café produzido é ainda maioritariamente por famílias camponesas. Como é que está o processo de apoio a este segmento?

Este sector representa cerca de 95 por cento do café produzido e tem merecido especial atenção. A promoção do movimento associativo visa, principalmente, possibilitar que camponeses isolados passem a ter acesso às linhas de crédito e melhor oferta pela sua produção. As acções voltadas para o aumento da produção e da produtividade, via fornecimento de mudas, têm como alvo este sector, assim como a capacitação dos mesmos via Escolas de Campo, bem como outras acções de assistência técnica.

A acção do sector centrou-se apenas no apoio no fornecimento de mudas?

Não. Para além do fornecimento de mudas, temos em curso acções tendentes a criar variedades de maior produtividade e resistentes a pragas e doenças. Temos realizado diversas actividades de assistência técnica, a regulamentação da comercialização e o licenciamento e a fiscalização da exportação, entre outras.

Até que ponto os projectos inseridos no Programa de Apoio ao Crédito (PAC), que vai permitir o financiamento bonificado da cultura do café e actividades conexas, poderão ser uma mais-valia?

Projectos financiados e com juros bonificados para a produção de café e actividades conexas têm sido raros. Representariam de facto um "boom" na fileira do café.

Existem programas provinciais para o incentivo à produção do café. Como é que está este processo?

Maioritariamente, as acções estão enquadradas no programa quinquenal de desenvolvimento do café, do Ministério da Agricultura e Pescas. Existem algumas iniciativas locais como as incluídas no programa de desenvolvimento da cadeia de valor da província de Cabinda, fomento do café arábica no Huambo, produção vegetativa de mudas no Uíge, entre outros.

O INCA está satisfeito com os resultados?

As diferentes iniciativas têm estado a decorrer conforme os objectivos traçados.

Já há empresários ou fazendeiros que produzem em grande escala?

Sim. Os grandes exemplos são-nos dados pela província do Cuanza-Sul, principalmente no município da Quibala, com fazendas de características empresariais com uso intensivo de máquinas em plantações de café arábica irrigadas e de alta densidade.

Qual é a produção anual deste segmento?

As novas fazendas, com rara excepção, têm plantações muito jovens sem produção economicamente relevante.

Angola produz diferentes tipos de café. Que espécie mais se destaca?

Falamos do café arábica e robusta. Estas plantações são produzidas em regiões diferentes. O arábica é produzido, fundamentalmente, na região Sul, que tem um clima fresco, principalmente nas províncias do Huambo, Bié e Huíla. O robusta é, predominante, na região Centro/Norte, principalmente nas províncias do Cuanza-Sul, Cuanza-Norte e Uíge. Entre estas espécies de café também existe o aspecto re-lacionado com a qualidade. O arábica é o mais solicitado e mais comercial em relação ao robusta.

A produção de café na província da Huíla já é feita em grandes extensões?

Não. É um projecto novo, que está a ser implementado pelo Estado, através de um projecto de fomento do café e que visa introduzir nos pequenos produtores o hábito para o cultivo do café. Só daqui há dois anos, quando as plantações começarem a produzir, é que teremos dados concretos sobre a produção que se pretende. O INCA só considera uma área de produção quando o café começa a dar frutos.

A Huíla é uma das regiões do país que ressente-se muito com a seca.Esta situação foi acautelada?

Sim. Por isso, estamos a apostar na espécie arábica, que suporta um clima fresco até a chegada da estação chuvosa.

Em 2018, a produção de café atingiu 6.510 toneladas de café comercial. Esta cifra vai ser mantida este ano? Qual a previsão de colheita?
Esta produção sofreu uma ligeira redução em 2019 para 4.500 toneladas de café comercial, mas para este ano (ainda está em curso a colheita), a previsão é de 6 mil toneladas.

Quais são as províncias líderes na produção do café e em que quantidades?

As províncias líderes na produção de café são Uíge e Cu-anza-Sul com, respectivamente, 42 e 31 por cento da produção nacional.

Quantos produtores do sector cafeícola estão sob o controlo do INCA?

Actualmente, o sector tem o registo de 17 mil cafeicultores. Este número difere dos 25 mil que, normalmente, tenho dado a outras instituições. De referir que o primeiro é fruto de um novo levantamento que está a ser feito pela nova direcção do Instituto.

Está em curso o processo de relançamento da produção do palmar, cacau e cajú com a introdução de plantas melhoradas e implementação do projecto piloto na província de Cabinda. Como é que está este processo?

Este projecto teve como base o relançamento e a melhoria do desempenho das cadeias de valor do café, palmar e cacau. Possibilitou a produção e a distribuição anual de 500 mil mudas de café à explorações familiares. As mudas de palmar tiveram origem em sementes pré-germinadas importadas da Costa Rica de variedade híbrida, tenra e de grande produtividade. O projecto produziu, durante o ano de 2019, cerca de 427.568 mudas, que foram distribuídas a produtores de óleo de palma, num processo em que foram envolvidas cerca de 2.650 famílias produtoras. O sector familiar chegou a produzir 1.500 metros cúbicos de óleo de palma, enquanto que o sector empresarial produziu 3.000. As primeiras plantações de cacau já se encontram em produção e estão já criadas as condições para a conclusão da preparação do cacau (ma-téria-prima). Na província de Cabinda existem cerca de 277 produtores da cultura do ca-cau, abrangendo uma área de 354 hectares.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Entrevista