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Bom dia, Caculo Canje, aldeia que só quer escoar a produção agrícola

Chegámos de manhã bem cedo, ainda a luz do sol estava fraca e os ventos frescos aliviavam as dores no corpo. Depois de décadas de olhos colados ao mar alto de Cabinda e Soyo, a busca por terras aráveis no meio rural tem vindo a aumentar. Bom dia, Caculo Canje!

16/12/2020  Última atualização 10H26
Comuna do Lombe, província de Malanje © Fotografia por: DR
Após ultrapassar uma pequena subida e a bacia de retenção de água construída por um grande fazendeiro, surgem poucas casas de adobe com muito espaço entre si, uma lavandaria, campo de futebol, uma cantina.
No ar respira-se um silêncio revelador, que caracteriza as manhãs no meio rural, mas que agora é mais profundo devido à menor circulação de veículos e pessoas.

Queremos ouvir as dicas da comunidade, conversar, escutar e perguntar, também. E logo surge a conversa do acesso à terra, das dificuldades em legalizar as terras comunitárias, da procura que aumentou com a gente vinda das cidades, com as novas retóricas políticas, com a antropologia da memória colectiva, com as divisas que fugiram a correr atrás do preço do barril...

É preciso ter cuidado com as utopias fermentadas nas zonas urbanas. Tiago Nzaji, 53 anos, presidente da cooperativa Kitua Kifikile, sediada em Caculo Canje, afirma, de forma convicta, que os potenciais investidores no meio rural devem conversar primeiro com a comunidade. Antes mesmo de reunirem com o soba, com as administrações locais, com os governos provinciais.
"Muitas vezes, chegam aqui pessoas que se dirigem rapidamente à autoridade tradicional, mas isto também não é bom", explica Nzaji.

É verdade que a região tem todas as condições para o desenvolvimento da agricultura de pequena, média ou grande dimensão. E o interesse tem vindo a crescer, motivado pela necessidade de reformar a economia do país.
Mas quem pretende investir na agricultura ou pecuária raramente tem o cuidado de negociar com a comunidade e apresentar directamente, de viva voz, os seus planos e intenções. 

Isto é meio caminho andado para surgirem, depois, os conflitos de terra e os desentendimentos, por vezes violentos ou marcados por grandes injustiças, com a tendência geral de prejuízo para os mais fracos ou com menos recursos financeiros.
São atitudes que geram ainda mais pobreza. Desanimam. Aleijam.
"Há quem venha a Caculo Canje pela primeira vez, já com documentos na mão e muita arrogância", lembra Andrade Hebo, 60 anos, presidente da Associação Kudibangela.

"A comunidade deve ser ouvida em primeiro lugar, antes de todas as outras conversas. Sem esta aproximação, tudo fica mais difícil", garante o líder comunitário, quase a atirar as mãos ao ar, como se estivesse a chover no molhado.
A maioria dos habitantes da aldeia depende do trabalho no campo, lado-a-lado com os animais de pequeno porte, como cabritos, galinhas e porcos. Que andam por ali tipo são pessoas também.

As casas de adobe têm janelas pequenas de ferro com várias cores, algumas são azuis, e as famílias vão organizando as tarefas mundanas do dia-a-dia, agora reforçadas pelos receios associados à pandemia.
Em Caculo Canje, não há registo de casos suspeitos, nem de pessoas com sintomas de Covid-19. Na região, produz-se milho, feijão, jinguba, soja, tomate, repolho, couve. Há uma imensidão de cadeias de valor por aproveitar a pouco mais de 300 quilómetros de Luanda.

Durante a conversa com o Jornal de Angola, Andrade Hebo faz uma ressalva directamente ligada às políticas destinadas ao meio rural: "já estamos fartos de promessas em vão". Alguns programas públicos, como o PRODESI - Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações ou as medidas de alívio económico associadas aos efeitos da pandemia prometem apoiar como nunca a produção nacional.

Há cooperativas a preparar candidaturas a fundos públicos, em formato de crédito bancário, que podem atingir os 50 milhões de Kwanzas. Uma quantidade de dinheiro nunca vista naquelas paragens.
"Não queremos, nem precisamos de mais promessas sem acções práticas. A prática é o melhor mecanismo. Já são longos anos de promessas e agora queremos acções concretas. Estamos a batalhar para desenvolver o país e a realidade do país está aqui", atira Andrade Hebo.

O mais-velho recorda que há pessoas na comuna do Cuale (município de Calandula) que não conhecem um carro, nunca viram estas novidades com mais de 100 anos de existência, porque "desde o fim da guerra que não passam viaturas naquela área".
"No campo, não paramos; estamos a trabalhar mesmo, a nossa rotina é sempre igual", disse Andrade, que aponta o dedo não tanto ao novo coronavírus, mas à falta de estradas, de meios de transporte e aos problemas que estamos com eles: ausência de documentação pessoal, de regularização oficial das terras comunitárias, de apoio técnico-produtivo, de crédito para fomentar as actividades económicas no meio rural.

No fundo, reclama das fracas conexões entre o mundo da cidade e o mundo do campo. A cidade utópica e do barulho das luzes que piscam à noite praticamente colonizou as mentes e as vidas rurais. Só que não há país que se aguente em terra firme sem uma relação funcional entre o meio urbano e o meio rural.

Impactos da pandemia

"A pandemia é gravíssima, empatou tudo, mas estamos sempre a trabalhar", reforça Tiago Nzaji, pai de oito filhos, naquele que é um autêntico manifesto de perseverança. É gente que não está a pensar desistir.
Antes da introdução das medidas que dificultam a movimentação de pessoas, devido à Covid-19, Caculo Canje recebia três a quatro viaturas por semana. Eram intermediários que chegavam da cidade de Malanje ou mesmo de Luanda.

São estes importantes agentes económicos que compram a maior parte da produção agrícola familiar, um pouco por todo o país. Normalmente, os produtos são distribuídos nos principais mercados de Malanje e Luanda.
"Mas agora vem apenas um carro por semana e é sempre o mesmo: um senhor da cidade de Malanje que vem aqui buscar a kizaca para revender no bairro", lembra Andrade Hebo, que tem sete filhos.
Uma parte dos filhos vive em Luanda, registo claro do êxodo rural e da falta de oportunidades em Caculo Canje e na província de Malanje.

No sector do Kinglês, também no município de Cacuso, a poucos quilómetros de distância da aldeia, a comunidade está a construir um mercado municipal que conserva bastante esperança colectiva. Situado na estrada que interliga as sedes municipais de Cacuso e Calandula, é a solução possível para aumentar e promover as vendas de produtos locais.
Mas a estrada não regista um grande fluxo de tráfego automóvel, especialmente nesta fase em que estão limitadas as entradas e saídas da província de Luanda.

Para resolver a distorção do comércio, vertente fundamental para o desenvolvimento rural, é preciso mais articulação entre os diversos agentes do sector e a implementação de políticas públicas adequadas.
"O povo angolano está habituado a momentos difíceis", recorda Andrade Hebo, para frisar depois que o "problema do escoamento dos produtos ainda não terminou".

A ausência de um mercado estruturado acaba por definir as grandes opções de produção e a extensão de terra a utilizar. Ninguém vai arriscar semear aquilo que obviamente não será comercializado.
Não há aqui nenhuma motivação de subsistência, como se estas pessoas não quisessem trabalhar e ganhar mais dinheiro. A questão central é mesmo evitar mais prejuízos. São decisões racionais para qualquer gestor.

Cidadãos bem informados

No geral, a aldeia parece estar bem informada e em alerta sobre a Covid-19. Poderia não ser assim. O acesso à informação é difícil no meio rural, para não dizer que é mesmo impossível em determinadas regiões do país. Salva-se a rádio de ondas curtas. E a televisão, para quem pode dar arranque a um gerador duas a três horas por dia. Já dá para assistir ao noticiário.

Andrade Hebo, presidente da Associação Kudibangela, está convicto dos perigos, mas não está de braços cruzados. Há quem alimente a ideia de ser apenas uma doença da cidade, um problema distante, e, por isso, fácil de aguentar em Caculo Canje.
Algumas aldeias da região têm acesso ao álcool-gel, disseram. Aqui e ali vemos crianças com máscaras, porque, afinal, "as coisas de morte não são para brincadeiras" e a prevenção "é o melhor medicamento", avisa Hebo.

Adágios populares que são úteis para vincar conceitos e alertar os incautos. No entanto, é preciso comer, ganhar algum dinheiro, não esmorecer agora. A vida tem de continuar.

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