Opinião

Bolsonaro é vergonha velha

“Bolsonaro é hoje sinónimo de vergonha internacional para o Brasil”, escreveu uma colunista de jornal.

06/11/2021  Última atualização 06H40
O artigo era, salvo erro, a propósito da COP26, em Glasgow, onde o país que lidera foi tratado como Darth Vader do mundo. Ou seria a propósito da reunião do G20, em Itália, na qual foi ignorado por todos embora tenha mantido "reunião com Jim Carrey” (queria referir-se a John Kerry)? Ou talvez fosse ainda a propósito do discurso na ONU, quando recomendou um remédio para gado na pandemia? Ou a propósito do relatório que a CPI do Senado fez chegar a Haia sobre eventuais crimes seus contra a humanidade?
Bom, fosse qual fosse o propósito da coluna, esta outra coluna serve para desmenti-la - é falso que Bolsonaro seja hoje uma vergonha mundial para o Brasil.

O actor britânico Stephen Fry é também um interessante autor de documentários, como Out There, sobre os desafios dos homossexuais no mundo. No filme, Fry entrevistou o pastor ugandês Solomon Male, para quem ter relações anais pode estilhaçar os pénis.

Falou também com Joseph Nicolosi, psicólogo norte-americano que dizia transformar homossexuais em heterossexuais, e com o deputado russo extremista Vitaly Milonov, segundo o qual, o seu país é o que tem menos gays no mundo graças às políticas homofóbicas de Putin. "O senhor diz esse absurdo com base em quê?”, pergunta Fry. "Estudos.” "Quais?”, insiste o inglês. "Estudos”, conclui o russo.

Finalmente, o actor vai ao país onde mais morrem homossexuais apenas por serem homossexuais - o Brasil - para conversar com um homofóbico. "Nós não odiamos homossexuais, simplesmente não gostamos”, explica-lhe o então deputado Bolsonaro.

"Eles [homossexuais] querem que os héteros façam crianças para no futuro elas se tornarem gays e os satisfazerem sexualmente, isso está sendo plantado aqui e agora”, garante. Após anunciar que pretende organizar "uma passeata do orgulho hétero”, o hoje presidente ri. Fry edita então a gargalhada, que ecoa - macabra, lúgubre, sinistra - enquanto o actor caminha numa praia carioca. Pelo meio, desabafa: "Este foi um dos encontros mais arrepiantes da minha vida.”

Ellen Page, hoje Elliot Page, depois de se assumir transgénero, realizou Gaycation, documentário semelhante. Um dos entrevistados foi Bolsonaro. Confrontado com a declaração de que se deve bater num filho até ele deixar de ser gay, o deputado justifica-se. "Se o seu filho for violento, você dá um corretivo nele e ele deixa de o ser, porque o contrário não vale?”

Depois, o espectador é presenteado com a história da homossexualidade no século XX, segundo Bolsonaro. "Quando eu era jovem, falando em percentual, existiam poucos, ok? Com o passar do tempo, com as liberalidades, drogas, a mulher também trabalhando, aumentou bastante o número.”

A entrevista acaba com Bolsonaro a dizer que se fosse mais jovem assobiaria para Elliott (então, Ellen) na rua. A câmara passa para a entrevistadora, que, mantendo-se calada e séria, constrange Bolsonaro. E, por vergonha alheia, quem assiste.
O documentário de Fry, difundido em dezenas de países, é de 2013; o de Page, nomeado para os Emmys, de 2016. É falso que Bolsonaro seja hoje uma vergonha mundial para o Brasil, já o era antes de, em 2018, mais de 57 milhões de brasileiros perpetrarem a sua eleição.

* Jornalista do Diário de Notícias -
João Almeida Moreira | *

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