Reportagem

Bob Marley e sua influência em Angola

Analtino Santos

Jornalista

Bob Marley é uma das estrelas mundiais mais apreciadas em Angola, quer entre os membros do movimento Rastafari, quer entre os vários outros segmentos da sociedade. Se estivesse em vida, no passado 6 de Fevereiro completaria 77 anos de idade e talvez estivesse a balançar os seus dreadlocks. No mês do amor e do feriado nacional dedicado ao Início da Luta Armada de Libertação Nacional, não é demais abordar Bob Marley nas três vertentes: o romântico, o revolucionário e a sua influência em Angola.

13/02/2022  Última atualização 09H40
Bob Marley © Fotografia por: DR
Existe uma frase de um autor desconhecido que afirma que "o amor é o maior acto revolucionário”. Esta ideia está presente quando ouvimos as músicas de Bob Marley e apreciamos as  suas entrevistas, penetrando no seu pensamento sobre o amor e a revolução. Para mostrar estas facetas, são aqui apresentados alguns temas românticos e revolucionários do Ti Bob, como Bob Marley também é tratado em Angola.

No álbum "Kaya”, lançado em 1978, está reflectido o amor em temas como "Is This Love”, "Satisfy My Soul”, "Shes Gone” e outros da época do relacionamento do músico com Cindy Breaskspeare, Miss Jamaica e  Miss Mundo em 1976. "Is This Love” leva a perceber o que todos passam quando estão apaixonados. Numa tradução livre:  "Eu quero amá-la e tratá-la direito / Eu quero amar você a cada dia e cada noite / Estaremos juntos com um tecto bem em cima das nossas cabeças / Nós iremos compartilhar o refúgio da minha cama de solteiro / Iremos partilhar o mesmo quarto, sim, porém Jah proverá o pão”.

Outro tema marcante e eternizado em "Kaya” é "Satisfy My Soul”, que, tal como o primeiro, consta em "Legend”, uma colectânea com os maiores êxitos do artista lançada em 1984. Este tema tem uma versão original como "Don't Rock My Boat” no LP "Soul Revolution”, lançado no início da carreira, em 1971. Em "Satisfy My Soul”, em português "Satisfaça a Minha Alma”, mais uma vez, Marley toca nos corações apaixonados: "A cada pequena acção, tem uma reacção / Você não pode ver o que fez para mim? / Eu fico feliz por dentro, todo, todo o tempo / Quando a gente anda juntinho / Eu me sinto como um rei, orgulhoso nos seus domínios / Quando te encontro ao dobrar a esquina / Junto com você todo o meu ser se ilumina / Então menina, não vê, você tem que acreditar em mim”.
Em "Shes Gone” fala da dor da separação.

Marley volta a carregar pesado no amor em "Exodus”, em temas como "Turn Your Lights Down Low” e "Waiting in Vain”. O primeiro, depois de passar despercebido no ano do lançamento, conquistou os amantes com a versão de Lauryn Hill, sua nora, que fez um dueto tecnológico. É uma canção para recuperar o amor.
"Waiting In Vain” é o apelo de uma relação correspondida: "Eu não  quero esperar em vão pelo seu amor / o amor que você foge é o que estou esperando”.

No álbum que marca a estreia da relação do cantor com a Island Record, "Catch a Fire”, de 1972, encontramos "Stir It Up” e "Baby We’ve Got a Date”. Na primeira canção temos este trecho, aqui traduzido: "Eu colocarei a lenha e avivarei suas chamas / Então, satisfarei o desejo de seu coração / Eu disse que vou me mexer, sim, a cada minuto, sim / Tudo que você tem a fazer é ficar firme, bebé”. Em "Baby We Got a Date” Marley fala de um encontro romântico numa noite que promete ser quente.

No último disco lançado ainda em sua vida, "Uprising”, a canção "Could You Be Loved” é uma das mais aclamadas. O amor apresentado nesta canção não é tanto o que emana do romance, é mais um olhar ao próximo, com mensagens de superação. Ainda encontramos temas como "Soul Shakedown Party”, "Try me”, "Mellow Mood”, "Do It Twice”, "No Water” e outros de cariz romântico, com incursões no erotismo, à época do casamento com Rita Marley.  Mas nenhuma supera "No Woman no Cry”.

Esta música é talvez o maior sucesso romântico de Bob Marley, isto para a indústria como para os que não estão muito por dentro da sua obra. "No Woman no Cry” foi lançada na fase mais revolucionária do músico, no LP "Natty Dread”, mas a sua versão mais conhecida está no álbum "Live” de 1975. Marley coloca o seu  guetho no centro da história de amor, ao lembrar quando se sentavam no jardim, observando os hipócritas e os bons amigos que perderam ao longo da caminhada. "Neste grande futuro, você não pode esquecer o seu passado / então enxugue suas lágrimas, eu digo / mulher não chores mais”, assim eternizou Bob Marley este sucesso que outros continuam  a cantar e a ouvir.


Fase revolucionária

Quando em 1972 saiu o LP "Catch a Fire” com o selo da Island Records, foi o ascender de uma banda revolucionária, "The Wailers”,  com três vocalistas: Peter Tosh, Bunny Wailers e Bob Marley. Este, com o seu carisma, evidenciou-se. Os álbuns seguintes "Burnin”, "Natty Dread” e "Rastaman Vibration” consolidaram-no como um cantor de intervenção social, um artista revolucionário. Esta vertente volta a estar patente em "Survival”, onde o grito de libertação do Zimbabwe e o apelo à unidade africana marcam a obra discográfica, assim como em "Uprising” e "Confrontation”, lançada após a sua morte.

Recorremos  à revista "Bilboard”, publicada em 2015, que apresenta as dez maiores músicas de protesto de Bob Marley, num texto de Dan Reilly. Apresentada de forma cronológica, a título excepcional abrimos com "Revolution”, tema que fecha o LP "Natty Dread” de 1974, obra discográfica puramente "revu”, onde encontramos "Live Up Ypurself”, "Them Belly Fully (but we hungry)”, "Rebel Music” e  "Talking Blues”.
"Revolution” começa ao ataque: "É preciso uma revolução para encontrar uma solução”. Muito contundente, noutro trecho o músico diz: "Nunca deixe um político conceder-lhe um favor / Eles sempre querem / controlar você para sempre”... 

Agora, fazendo a sequência da Bilboard,  tem "Concrete Jungle”, onde fala da selva de concreto que são as grandes cidades, em que os sonhos falham, com guetos onde as pessoas têm pouca esperança. "Sem correntes em volta dos meus pés / Mas não sou livre / Sei que estou preso em cativeiro”. O tema está em "Catch a Fire”, com  "Slave Driver”, "400 Years” e "No More Trouble”.

No álbum seguinte, "Burnin” de 1973, o peso da contestação está presente em "Get Up, Stand Up”, "I Shot the Sheriff” e "Burnin and Lootin”. Considerada como uma das principais canções de protesto de todos os tempos, tem sido usada em várias  campanhas de luta pelos direitos humanos. É uma composição de Peter Tosh, com um coro forte: "Levante, resista, lute pelos seus direitos / levante, resista, não desista” e ainda passagens como "você pode enganar algumas pessoas às vezes, mas você pode não enganar todas as pessoas o tempo todo”. Outro tema marcante é "I Shot the Sheriff”, inspirado pela violência e opressão policial na Jamaica politicamente dividida. Esta música, tal como as outras, continua actual, dadas as tensões que deram origem ao movimento Black Lives Matter. Por sua vez "Burnin and Lootin” reflecte a frustração e a raiva das pessoas que se sentiam sufocadas pelos toques de recolher e pela força policial corrupta de Kingston.

Lançado em 1974, em "Them Belly Full ( But We Hungry)”, livremente traduzido para "Eles estão de barriga cheia  (Mas nós temos fome)”, olhando para as assimetrias sociais, onde uns têm muito e outros estão privados de quase tudo, Marley alerta que "uma multidão faminta é enfurecida”. Em 1976 saiu "Rastaman Vibration”, que tem as proposta "War” e "Crazy Baldhead”. Na primeira recupera parte do discurso de Hailé Selasié, Imperador da Etiópia, nas Nações Unidas.  Marley canta "Até que a filosofia /  Que entende uma raça como superior / E outra, inferior / Seja final e permanentemente / Desacreditada e abandonada / Em todo lugar haverá guerra / Eu disse guerra”. Diz ainda: "Até que os ignóbeis e infelizes regimes / Que prendem nossos irmãos em Angola / Em Moçambique, África do Sul escravizada / Não mais existam e sejam destruídos / Haverá guerra, eu disse guerra”. (Na altura em que Marley escreveu esta letra Angola e Moçambique viviam sob o jugo colonial português e a África do Sul sob o regime do Apartheid).

A segunda canção, "Crazy Baldhead” fala dos que exploram os pobres, contrastando com os Rastas que os consideram "carecas malucos” e dá uma indirecta ao lucrativo sistema prisional americano, apelando à construção de escolas.
O último som escolhido pela "Bilboard” é "Redemption Song”, de 1980. Nele o cantor reflecte sobre a escravatura e as amarras mentais que muitos têm, por isso diz: "Tudo que eu tenho são canções de liberdade”. O tema é um autêntico resumo do que Bob Marley fez ao longo da carreira musical. Não constam da lista da "Bilboard”, mas acrescentamos "Africa Unite” e "Zimbabwe”; o primeiro é um hino à unificação de todos os filhos de África e o segundo marca o processo da independência da antiga Rodésia do Sul.


Marley e as suas ramificações em Angola

Há quem date as primeiras manifestações da música e do visual de Bob Marley em Angola ainda antes da independência. O jornalista Dias Júnior, um dos primeiros a se assumir como Rasta em Angola nos anos 80, garante que Jorge Valentim, político que se notabilizou nas hostes da UNITA, usou dreadlocks nos anos 70.  Em Luanda consta que um membro da família Kiffen já circulava com dreadlocks, sendo depois considerado um dos primeiros a carregar a "juba” em Lisboa, numa altura em que Portugal dava os primeiros passos na democracia após o 25 de Abril. 

É importante realçar o papel da Rádio Nacional de Angola na divulgação dos principais nomes do género musical que tem como rei Bob Marley, com destaque para Peter Tosh, Bunny Wailer, Jimmy Cliff, Gregory Isaac, Third World, Steel Pulse, UB-40, Eddy Grant e outros, que, mesmo não fazendo regularmente Reggae, lançaram sucessos nesta vertente. São os casos de Stevie Wonder com "Master Blaster”,  Lionel Ritchie em "Se la” ou Kool and Gang com "Let’s Got Dance”.  
Fazendo um pouco de história da produção musical Reggae no país e por angolanos, devem ser mencionados, na primeira fase, temas como "Teté” de Taborda Guedes e "Grilo e Makas” de Filipe Zau. Este na altura colaborava nas composições infantis da Sala Piô da Rádio Nacional de Angola. Nesta sala despontaram vários sucessos infantis na vertente Reggae, destacando-se Lopes Cortês como o "miúdo do Reggae”. Eduardo Paim era o principal produtor e fora do ambiente dos kandengues também deu um toque Reggae a temas de Jacinto Tchipa e Diabick.

Mas o primeiro grande sucesso do estilo foi "Kimbele”, na voz de Pop Show com o seu Afra Sound Star, mais tarde regravado por Abel Dueré. Importa reter nomes como Prince Wadada, Legalize, Kussondulola e Mercado Negro, que, a partir de Portugal, começam a trilhar o estilo que vem da Jamaica com alma africana. Os Powers, Luanda Dread Band, Os Contrastes, Ismael Ndongo e outros começam a assumir-se como regueiros, em paralelo com artistas de outros estilos que vão colocando Reggae nos seus trabalhos. Actualmente uma nova geração está chegando e tocando Reggae, sendo que, como acontece na indústria musical, nem todos estão ligados ao movimento Rastafari.


RNA e João Miranda 

A nova geração pouco sabe e mesmo muitos dos que viveram aquela época não se lembram como as músicas de Bob Marley eram amplamente divulgadas e dançadas nas festas de contribuição que aconteciam nos quintais em Luanda. O programa radiofónico (da RNA) "Para Jovem” foi um dos "culpados” dessa ampla divulgação, com uma equipa constituída por Zé Neto (Alves Fernandes) e João Miguel das Chagas, que não dispensava o Reggae. Não foi por acaso que João Chagas, Nguxi dos Santos e Dias Júnior, quando criaram a sua empresa de audiovisuais, a denominaram Dreadlocks.

O LP "Uprising”, o último disco de estúdio lançado por Bob Marley em 1980, chegou a Angola por intermédio de estudantes bolseiros e tripulantes da Angonave. "Foi um estrondo”, segundo Ilídio Brás. Carlos Crespo, técnico de som do antigo conjunto Os Merengues, confidenciou ao Jornal de Angola que a música ambiente, depois dos testes de som, era ao ritmo de Reggae, e de preferência Bob Marley and The Wailers com "Uprising”.

João Miranda, actualmente embaixador de Angola em França, foi jornalista da Rádio Nacional de Angola e, nesta condição, teve a oportunidade de cobrir a proclamação da Independência do Zimbabwe, em Abril de 1980, que contou com a presença de Bob Marley. Depois teve outra missão que envolveu o Rei do Reggae: desta feita, em 1981, foi à Jamaica ao funeral da maior estrela musical de então, acompanhado pelo técnico Pedro Guida.

Jah Isaac, Tony Sofrimento e Nguxi dos Santos sempre respiraram Reggae. Este é outro trio que deve ser realçado na divulgação em Angola do Reggae e da mensagem de Bob Marley. Jah Isaac pela forma como foi desconstruindo o Reggae e apresentando os fundamentos do Movimento Rasta, muitas vezes fazendo um paralelismo com a vida de Bob Marley. Tony Sofrimento é dos mais eclécticos coleccionadores da música Reggae, mas quanto mais absorve diferentes tendências, mais chega à conclusão que "Bob Marley é o maior”. Nguxi dos Santos, jornalista da TPA, foi um dos rostos na divulgação de iniciativas como o Ras Bar, o Festival de Reggae em Angola, no cine Karl Marx e no apoio aos regueiros nacionais. 

O rosto da divulgação do Reggae nas últimas décadas em Angola, Mario Kaley "Ras Sassa” vem do centro geodésico do país, Camapupa, onde nasceu em 1972, ano do lançamento do LP "Catch a Fire”, que marca o casamento entre Bob Marley and The Wailers com a Island Record de Chris Blackwell e projecta o Reggae para fora da Jamaica. Ras Sassa saiu do seu berço natal para Luanda e mais tarde rumou para a Europa, primeiro a Jugoslávia e depois vai colher outras experiências de vida em países como Suécia, Suíça, Itália, Espanha, França e Inglaterra onde criou o Positive Vibration Sound System.

Ras Sassa, depois de duas décadas na diáspora, regressou ao país para dar corpo a NARA, Núcleo dos Amigos do Reggae de Angola que depois se transformou em associação, mantendo entretanto o acrónimo NARA. A organização não só tem se distinguido na divulgação e promoção do Reggae como também em actividades sociais e filantrópicas, com realce para a Taça Bob Marley, torneio de futebol realizado em diferentes províncias. São várias as festas e festivais organizados pela NARA, com realce para o Reggae Catumbela, além de outras iniciativas que merecem um tratamento fora deste artigo.


Bob Marley, o bom rebelde

Robert Nesta Marley nasceu aos 6 de Fevereiro de 1945  em Nine Mille, Jamaica. Foi um dos pioneiros na divulgação do estilo Reggae e da filosofia e modo de vida Rastafari. Morreu aos 11 de Maio de 1981, aos 36 anos de idade. Com Peter Tosh e Bunny Livingston fundou os The Wailers, uma das principais formações da história do Reggae. Dentre os vários reconhecimentos Bob Marley foi distinguido com a "Medalha da Paz do Terceiro Mundo” pelas Nações Unidas; a revista Time em 1999 considerou "Exodus” o "Álbum do Século”. Marley está entre os 100 maiores artistas de "Todos os Tempos”. Em 2001 foi-lhe atribuído a título póstumo um Grammy pelo conjunto da sua obra. A canção "One Love” foi considerada "A Canção do Milénio” pela BBC. Isto é só uma pequena citação do amplo reconhecimento mundial do cantor jamaicano. Bob Marley ainda hoje tem influenciado artistas e personalidades de vários segmentos e proveniências. A sua obra tem sido continuada pela esposa, filhos e netos.

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