Entrevista

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Boas práticas conhecem evolução

O presidente da companhia em Angola, José Barata, analisa o processo de adaptação das empresas angolanas à economia de mercado e considera o OGE 2019 como um estágio de preparação para a recuperação, em 2021, apontando ao sucesso da última emissão de Eurobonds sinais de credibilidade do Estado junto dos investidores

17/12/2019  Última atualização 09H05
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A Deloitte está implantada em Angola ao longo de todo o processo de reformas iniciado nos anos 90: que comparação é possível estabelecer, hoje, em relação ao comportamento do mercado nas questões da conformidade legal? 

A Deloitte está presente em Angola há mais de 25 anos. A minha primeira viagem a Angola remonta a 1994. Ao longo destas duas décadas tivemos oportunidade de acompanhar vários ciclos, sejam económicos ou políticos, contribuindo com as nossas competências para o progresso e desenvolvimento do país. A Angola dos anos 90 não é a mesma em que vivemos agora. Assistimos a uma significativa evolução no ambiente de negócios e naturalmente na cultura dos empresários angolanos, com evidentes reflexos no desenvolvimento do sector empresarial e a uma melhor preparação no que diz respeito à captação de investimento externo. Relativamente à regulação, foram tomadas decisões relevantes para a dinamização do mercado de capitais e a preparação da economia nacional para uma perspectiva de médio e longo prazo, por exemplo com a execução de um Programa de Privatizações (PROPRIV) de empresas nacionais de referência, mas também com a introdução do IVA no sistema tributário nacional. Estas mudanças exigentes têm de ser acompanhadas pelas empresas e devem servir para melhorar os seus processos de organização interna e os seus sistemas de informação.
Estas medidas, e outras, alteram os pressupostos sobre a forma como as empresas operam nos seus mercados. Pudemos observar que, ao longo dos anos, o mercado tem vindo a ficar mais preparado para contribuir de forma activa e relevante para a melhoria da economia nacional.

Pode concluir-se que, num ambiente económico de regulação apenas recente, a companhia não abdicou das boas práticas?

A Deloitte está presente em mais de 150 países, com mais de 330 mil funcionários e somos líderes globais na prestação de serviços profissionais de auditoria e consultoria. Esta posição de liderança apenas é possível com princípios dos quais não abdicamos, independentemente do país em que exercemos a nossa actividade, tais como: servir os nossos clientes com distinção e integridade; contribuir para a sociedade como um exemplo a seguir e ser líder indiscutível da nossa profissão. Se hoje somos uma marca incontornável em Angola, com uma elevada notoriedade junto das empresas e da sociedade, é porque conseguimos criar um impacto relevante, isto é, dar um contributo relevante e transpor os nossos princípios globais para este mercado.

A Deloitte Angola é conhecida pelos seus programas de responsabilidade social: a companhia encara o Pact Fund como uma questão de filantropia ou numa perspectiva de desenvolvimento?

Considero o Pact Fund um programa de filantropia e responsabilidade social, o qual tem em vista apoiar iniciativas de desenvolvimento social, e digo isto porque, se por um lado, de facto ajudamos a concretizar projectos sociais, por outro, essa ajuda vai, em última instância, beneficiar a sociedade, seja porque o projecto promove a formação de jovens, como aconteceu na edição passada em que apoiámos a Orquestra Sinfónica Kapossoka, seja porque possibilita a criação de um negócio empreendedor, à semelhança do projecto Horizonte Azul apoiado na 3ª edição do Pact Fund.
O Pact Fund está no centro da nossa estratégia de responsabilidade social, que muito valorizamos, e, apesar de ter como principal objectivo apoiar projectos sociais desenvolvidos por instituições sem fins lucrativos, não nos limitamos a apoiar financeiramente cada projecto e fazemos questão de acompanhar o projecto na fase de implementação e concretização das suas finalidades. As inscrições para a edição deste ano já encerraram, no entanto, e dado o “feedback” positivo que temos tido da sociedade, acreditamos que no próximo ano vamos contar com um número ainda maior de candidaturas.

O OGE 2020 volta a trazer um cenário de fraco crescimento económico (previsão de 1,8 por cento), alta inflação (o dobro da inflação oficial em 2019) e uma modesta produção petrolífera. Será mais um ano de dificuldades para a actividade económica?

O programa de ajustamento negociado com o Fundo Monetário Internacional (FMI) visa melhorar o acesso a mercados internacionais e a um ganho de credibilidade internacional. Tal como observado noutras geografias e programas implementados com o apoio do FMI, trata-se de um processo sempre lento. Os ajustamentos macroeconómicos são sempre difíceis e complexos, mas entendemos que estão a ser dados os passos relevantes para uma alteração do padrão de crescimento sustentado da economia. Assim, é nossa expectativa que 2020 irá ser um ano no qual iremos sentir algumas dificuldades decorrentes dos programas de consolidação orçamental em curso, mas acreditamos que 2021 marcará o regresso de Angola ao crescimento económico mais fulgurante, em virtude da implementação efectiva das políticas que têm vindo a ser definidas pelo Executivo.

Qual deverá ser a aposta do Governo (em termos de programas específicos e processos de reforma) para retomar o crescimento económico?

Entendemos que Angola é um país com um potencial elevado para além do sector petrolífero. O Executivo tem vindo a apostar na diversificação da economia através de inúmeros programas como o Projecto de Apoio ao Crédito (PAC), inserido no Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição de Importações (PRODESI) e o Plano de Acção para a Promoção da Empregabilidade (PAPE). Estes programas estruturantes levam o seu tempo a ser implementados, em virtude de apresentarem várias precedências importantes como a construção de infra-estruturas de apoio, como vias de acesso e redes de água, saneamento e electricidade, bem como a construção de plataformas logísticas para acondicionamento e distribuição dos bens produzidos. Implicam investimentos avultados. Neste contexto, foi recentemente lançado um Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), que prevê a reconstrução e construção de várias infra-estruturas económicas e sociais nos 164 municípios do país.

O OGE 2020 prevê um preço médio do barril de petróleo em 55 dólares. É um valor adequado se olharmos para o contexto internacional?

É nosso entendimento que o preço médio do barril de petróleo considerado pelo OGE 2020 se encontra alinhado com as perspectivas das principais agências internacionais de energia. A título de exemplo, a Administração de Informações sobre Energia (EIA) reviu recentemente em baixa o valor médio do petróleo para 57 dólares por barril para a primeira metade de 2020, ligeiramente acima do valor considerado no OGE 2020. Não obstante, do valor definido no OGE 2020, existe a necessidade de acompanhamento permanente da evolução do preço do barril de petróleo nos mercados internacionais e, caso aplicável, a incorporação durante o próximo ano de possíveis alterações dos pressupostos utilizados durante a fase de execução do Orçamento, decorrente da dinâmica dos mercados internacionais.

 

Prémio Sirius é transformado em plataforma de pesquisas

O Prémio Sirius, promovido pela Deloitte, enquadra-se nos programas de responsabilidade social?

Os Prémios Sirius assentam um pressuposto diferente daquele que é utilizado no caso do Pact Fund, tendo ambos, no entanto, um papel relevante no progresso social. Os Prémios Sirius incidem mais sobre uma perspectiva de promoção das melhores práticas de gestão e excelência das empresas enquanto que o Pact Fund actua numa óptica de apoio a projectos sociais relevantes na área da educação, formação, empregabilidade e empreendedorismo.

O que acontece este ano, em que o galardão e a preparação anterior à outorga não foram anunciados?

Ao longo de quase uma década, os Prémios Sirius contribuíram de forma activa para uma cultura de excelência e transparência no mercado angolano. É indiscutível que deixaram a sua marca no panorama empresarial e os resultados e prestígio alcançados, bem como a aceitação geral desta iniciativa, são para nós, Deloitte, um motivo de orgulho. No entanto, o nosso compromisso em ajudar as empresas a construir uma Angola mais próspera e mais desenvolvida faz-nos querer ir mais além e transformar esta iniciativa, adaptando-a aos novos desafios e ao actual contexto macroeconómico do País. Assim, vamos lançar o Think Tank Sirius, um centro acelerador de ideias e fórum de reflexão cuja missão será contribuir para o crescimento e desenvolvimento da comunidade empresarial angolana. Queremos, com esta nova visão do Sirius, fazer mais e melhor por uma Angola mais próspera e fomentar a investigação e o debate de forma a pensar o futuro e dar um contributo real e tangível para o crescimento e desenvolvimento sustentável do país. Para tal, vamos reunir um conjunto de personalidades com reconhecido mérito e experiência comprovada no mercado, oriundas do meio académico, naquilo que denominamos por Comité Consultivo. Os membros deste Comité serão anunciados a seu tempo e irão ser realizadas periodicamente reuniões de trabalho, as quais têm como objectivo produzir “outputs” tangíveis e relevantes para os diferentes “players” da sociedade (públicos e privados) e, também, do Executivo para, por exemplo, poderem servir de base para o desenho de novas políticas públicas. No início de cada ano civil, haverá um evento anual onde serão publicamente partilhadas, junto dos principais agentes públicos e privados, as conclusões e ideias desenvolvidas no Think Tank Sirius. Acredito que desta forma podemos dar um contributo efectivo para Angola, trabalhando de forma mais activa para o desenvolvimento das empresas e sociedade civil. Estou certo que do Think Tank Sirius sairão conclusões muito relevantes para a construção de uma Angola mais próspera e melhor preparada para os desafios futuros.

Ao longo dos anos em que é outorgado, o Prémio Sirius conseguiu moldar a conduta dos empresários e das empresas?

Os Prémios Sirius tiveram um contributo muito importante na promoção da transparência e aplicação das boas práticas de gestão em Angola. Há oito anos, quando surgiram, vivíamos um contexto diferente no que diz respeito à transparência e aplicação das boas práticas de gestão, que, desde aí, têm vindo a evoluir favoravelmente. Não vou dizer que esta evolução se deva exclusivamente à iniciativa promovida pela Deloitte, pois acredito que o esforço de evolução e crescimento de uma sociedade dependem do esforço colectivo. Contudo, sem falsas modéstias, acredito que o Sirius desempenhou um papel relevante nesse sentido, seja pela exposição mediática que teve, seja pela notoriedade que atingiu. Estou, por isso, convicto que o Think Tank Sirius significa dar um passo à frente pelo desenvolvimento de Angola, reforçando o nosso compromisso e sentido de missão com Angola.

Investidores percebem menos risco nos Eurobonds angolanos

A última emissão de Eurobonds é reveladora da credibilidade de Angola junto dos investidores?

É nossa visão que a última emissão de Eurobonds demonstra que os investidores estão atentos a Angola e têm perspectivas muito positivas sobre o comportamento a longo-prazo da economia nacional, sendo que foram efectuadas duas emissões: uma de 1.750 milhões de dólares, com uma taxa de cupão fixada em 8,00 por cento e um prazo de maturidade de 10 anos e outra de 1.250 milhões, com uma taxa de cupão fixada em 9,125 por cento e uma maturidade de 30 anos. Assim, é possível verificar uma redução de 0,25 pontos percentuais na taxa de cupão face à última emissão de Eurobonds ocorrida em Maio de 2018. Esta redução é ainda mais acentuada quando comparada com a emissão de 2015, na qual foram emitidos 1.500 milhões de dólares, com maturidade de 10 anos e uma taxa de cupão de 9,5 por cento, o que denota uma trajectória de redução do risco percepcionado pelos investidores internacionais à dívida pública nacional.
Segundo dados do Ministério das Finanças, a procura de Eurobonds superou quase três vezes a oferta, o que revela a atractividade e capacidade de captação de investimento estrangeiro, sendo que voltaria a destacar o programa de assistência técnica do FMI que credibilizam as iniciativas que têm vindo a ser promovidas pelo Executivo, quer interna, quer externamente.

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