Cultura

Bismas das Acácias e a nostalgia por Mário Kajibanga

Hermínio Fontes | Benguela

Jornalista

João Massela, co-fundador do grupo de dança folclórica “Bismas das Acácias”, que viu a luz do dia aos 21 de Abril de 1984, considerou a morte por doença do seu director, Cristóvão Mário Kajibanga, na passada terça-feira, no Hospital Geral de Benguela (HGB), “uma interrupção” das investigações culturais em prol da nossa identidade. Segundo Massela as regiões Centro, Sul e Leste do país perdem um dos maiores defensores da angolanidade no pós independência, que escolheu Benguela para viver há mais de 40 anos.

03/10/2021  Última atualização 07H30
Luto na cultura © Fotografia por: DR
Como é reviver os feitos culturais de Cristóvão Mário Kajibanga em prol da dança? Conte-nos por favor...
Mário Kajibanga no Bismas foi, inicialmente, o patrocinador e mais tarde director, até a data da sua partida para a eternidade. Os seus feitos são muitos. Falo da nossa primeira participação no Festival Nacional de Cultura e Artes (FENACULT), em 1989, quando conquistamos o primeiro lugar a nível da dança tradicional; e só conseguimos este grande feito porque trabalhamos a dança em sistema de palco e a levamos nesse festival que se realizou em Luanda. E outro grande feito que nos marcou foi a nossa primeira saída para o exterior do país. Fomos representar o folclore de Angola na cidade de Esmailia, no Egipto, em 1988. Foram estas duas primeiras saídas que nos abriram portas para o sucesso cultural. A partir destas, foram surgindo outros convites.


Para Kajibanga a docência no campo da investigação e também na qualidade de antigo quadro da Acção para o Desenvolvimento Rural e Ambiente (ADRA) teve alguma influência na melhoria da actuação do Bismas?

Claro e muito. Lembro que tivemos a nossa participação cultural com a dança dos Mundombes (Dombe Grande) na Expo´98, na capital portuguesa. Repetimos a proeza na Expo’Saragoça, Espanha, dez anos depois. Em 1999/2000, na Suécia, com outras danças representamos o nosso país, numa iniciativa de recolha de fundos para as crianças. Fomos erguer a nossa bandeira no Rwanda, durante o Festival Africano de Danças Folclóricas, em 2013. Estivemos também na África do Sul, na Feira Internacional de Turismo na cidade de Durban.


Essa visão investigativa já vos proporcionou formar gentes de outras partes do mundo?
Em 2014 voltamos a Lisboa a convite da Organização Imaginário para um Festival de Rua, na cidade da Santa Maria da Feira. Nesta circunscrição portuguesa demos seminários relativos à dança africana, estivemos também há pouco tempo, a convite do Colectivo Raízes, no Brasil, na cidade de São Paulo.


E no país?
Com relação a nacionais, temos tido muitos convites para enaltecermos aquilo que é a nossa dança, a dança desta vasta região do país e até mesmo africana. Dizer ainda que estes feitos foram sempre sob comando do senhor Mário Cristóvão Kajibanga. É realmente constrangedor, lamentável... Estamos todos abalados com esta perda irreparável. Ele deixa viúva e oito filhos.


Com a partida prematura do director  do Bismas das Acácias, o que nos pode adiantar do futuro do grupo com mais títulos e distinções da dança folclórica no Centro, Sul e Leste do país?

Por enquanto ainda é prematuro avançarmos quem vai dirigir os destinos do Bismas. Estamos a falar de um grupo com mais de 40 membros, cuja presidente da Mesa da Assembleia Geral é Alice Cabral. O secretário-geral é o José António, o vice-presidente Tomé Siwendo e os vogais João Massela (eu), João Teka e a Deolinda Trindade, que também é a responsável do grupo, para além dos responsáveis do grupo teatral, o Aly Patrick e o Neves.
A seu tempo, vamos realizar um encontro e esperamos fazê-lo ainda no presente ano. Antes do infausto acontecimento o mesmo (Kajibanga), chegara a manifestar a intenção de repousar.  
Lembrar ainda que o Man Kajy há três meses para cá deixou de ser o director provincial da Cultura. Com esta decisão nos disse que passaria apenas a ocupar o cargo de conselheiro no Bismas, porém, nós adiantamos que ainda era cedo demais para repousar, porque sempre acreditamos que mudanças do género precisam de ser preparadas da melhor maneira.


Comunidade canta "Mbangula Sessa”

A comunidade Rasta em Benguela, em homenagem à partida por doença do "Ras - Man” Cristóvão Mário Kajibanga, canta o hino da sua identidade nesta província, "Mbangula Sessa”. Escrito e musicado ainda na década de 80 por Kajibanga, "Mbangula Sessa” tem para a Comunidade Rasta duas facetas vividas marcantes, o antes e o depois da paz alcançada em 2002.
O músico conceituado Ras Sajambela disse que a música "Mbangula Sessa” perdeu a sua alma. "Sentimos a falta de mais uma voz, para melhor cantarmos este hino que para nós é o postal de visita da comunidade em Benguela. Mam Kajy ensinou-nos a cantá-la da melhor maneira e agora entendemos a falta que faz o seu criador”.
Ras Sajambela, que também é compositor de vários sucessos como "África twalikuate o tchimunga” e "Susana” promete, em nome da Comunidade Rasta nesta província preservar o legado de "Ras Kajy” para as gerações vindouras. "Somos a continuidade da história, por isso, interessa-nos defendê-la, preservá-la e ensiná-la às novas gerações, para saberem quem foi o músico e activista social Cristóvão Mário Kajibanga”.

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