Entrevista

Bibliotecas vão continuar a ser uma realidade por muitos anos

Adriano de Melo

Jornalista

Estudantes são os frequentadores habituais dos espaços, que têm procurado se adaptar aos novos tempos com projectos regulares e a formação contínua dos quadros especializados. Diana Luhuma defende o papel das bibliotecas nas comunidades, não obstante o avanço das tecnologias, considerando que nem toda a informação está disponível na Internet e nem todos têm acesso a esta ferramenta tecnológica.

02/07/2022  Última atualização 09H15
Directora da Biblioteca Nacional defende a capacitação dos técnicos ligados ao sector, que têm tido acções de formação periódicas © Fotografia por: Edições Novembro

As bibliotecas também foram obrigadas a se adaptar aos efeitos da pandemia?

Sim, com certeza. A pandemia veio reforçar a necessidade de as bibliotecas adaptarem-se à dinâmica das novas tecnologias de informação, a fim de poderem prestar serviços aos usuários.

 Quais os "danos” causados pela pandemia, em relação à solicitação dos serviços das bibliotecas?

Como os usuários são maioritariamente estudantes, e durante a pandemia as instituições de ensino estiveram encerradas, consequentemente,  tivemos uma redução considerável de usuários

 Como está o acervo actual, em termos de conservação e número de títulos?

Dentro daquilo que nos é possível, temos feito tudo para garantir a eficaz conservação do acervo, não obstante a necessidade de termos um espaço mais adequado para alocar o acervo bibliográfico, visto que o depósito local já não corresponde à demanda dos títulos que dão entrada na instituição. Outrossim, há também necessidade de termos meios adequados e técnicos, para dar tratamento do acervo bibliográfico.

Quantos títulos tem actualmente a Biblioteca Nacional?

No que se refere a números, o acervo bibliográfico da Biblioteca Nacional tem 100 mil títulos, de documentos diversos, entre livros, jornais, revistas, mapas, discos e cartazes.

Quem são, em termos de perfil, as pessoas que mais solicitam os serviços das bibliotecas?

Na sua maioria são os estudantes que diariamente frequentam a Biblioteca Nacional, sendo que temos tido igualmente investigadores tanto nacionais, como internacionais.

Quais os livros mais  solicitados?

As obras mais solicitadas são aquelas relacionadas a ciências sociais (Sociologia, Filosofia, Direito e Educação), História de Angola do século XXI, Tecnologia, Medicina, Linguística, História geral e Filosofia e Gestão.

Qual o número de visitantes registados, nestes primeiros seis meses do ano?

Até ao momento, tivemos um total de 8.490 usuários.

Já temos livros suficientes para atender as solicitações do público?

Temos sim. A Biblioteca Nacional de Angola é a instituição responsável pelo depósito legal, sendo que todas as obras produzidas devem ser armazenadas na instituição. Isto nos permite ter um vasto acervo bibliográfico, tendo em conta também as ofertas e doações de livros que recebemos. Claro, que há uma necessidade constante de se actualizar o acervo.

Com o crescente aumento tecnológico  e dos e-books, não há o risco de as bibliotecas serem relegadas para o segundo plano?

Julgo que não. Não podemos negar a necessidade da existência das bibliotecas, apesar do avanço das tecnologias. As bibliotecas sempre deverão existir, considerando que, nem toda a informação está disponível na Internet e nem todos têm acesso a esta tecnologia. Além disso, nem todos podem pagar para ter e-books e a internet não é livre para todos.

 Em relação aos quadros, estes estão devidamente qualificados?

Os técnicos da Biblioteca Nacional estão capacitados para dar respostas às solicitações, claro que, há sempre necessidade de os capacitar mais e melhor afim de melhor prestarmos o serviço que nos é incumbido.

 Os técnicos têm tido formações de aprimoramento?

Sim, a Biblioteca Nacional de Angola tem ministrado cursos de capacitação profissional em Biblioteconomia aos técnicos das bibliotecas públicas e privadas, inclusive, durante o dia de hoje (ontem), dia 1 Julho, entregaremos certificados aos participantes do curso, que teve início no passado mês de Maio na nossa instituição.

Já há um outro projecto de formação?

Depois, os técnicos da Biblioteca Nacional de Angola vão participar de uma formação que é ministrada pelo Programa Ibero-Americano de Bibliotecas Públicas.

Existe alguma iniciativa para maior expansão da rede de bibliotecas pelo país?

A Rede Nacional de bibliotecas públicas, coordenada pela Biblioteca Nacional, comporta, com base no Decreto Presidencial nº 270/11 de 26 de Outubro, todas as bibliotecas criadas e tuteladas pelo Estado. Por isso, hoje já temos bibliotecas públicas em quase todas as províncias do país, num total de 39, entre provinciais, municipais, comunais, distritais e até salas de leituras. Porém, apesar deste número, há ainda a urgência de se construir mais bibliotecas, bem como capacitar técnicos e apetrechar os espaços com os devidos meios técnicos. Este trabalho deve ser realizado em conjunto com as administrações locais, prestando a Biblioteca Nacional de Angola o devido apoio metodológico.

As bibliotecas públicas já são devidamente valorizadas?

A biblioteca tem papel fundamental na sociedade, e muito mais do que guardar livros, a biblioteca é um local de acesso à informação e ao conhecimento, um local de debates e manifestações culturais e artísticas. E o acesso à informação é fundamental para a participação dos cidadãos, processos decisórios, para que estes façam as suas escolhas e tomem as suas decisões, então precisamos continuar a advogar pelas bibliotecas, instituições que possibilitam o acesso à informação, a fim de que estas possam efectivamente desempenhar melhor o seu papel.

A rede de bibliotecas comunitárias já é uma realidade à altura da população?

Existem algumas bibliotecas comunitárias, mas ainda não é o suficiente para atender a demanda da população. Por isso, temos apoiado metodologicamente estas bibliotecas, com a oferta de livros e a capacitação dos seus integrantes.

E quanto às bibliotecas escolares?

A biblioteca escolar apoia os objectivos educacionais da escola. Ela estimula as crianças para que desenvolvam o hábito da leitura e têm a função de ensinar o aluno a pensar de forma crítica, reflectir e questionar mais. São muitas as escolas em que as bibliotecas não funcionam como tal, então há esta necessidade e preocupação de termos as bibliotecas escolares a funcionarem.

Há critérios para a criação de uma biblioteca?

Existe sim critérios para a criação de uma biblioteca. O diploma legal, que aprova o estatuto da rede nacional de bibliotecas públicas, define que os programas e os projectos para a construção e/ou adaptação de edifícios para as bibliotecas carecem de parecer prévio e vinculativo, bem como do acompanhamento da Biblioteca Nacional de Angola. Vários são os critérios a serem tidos em conta para a criação de uma biblioteca, inclusive a densidade populacional da circunscrição em que esta vai ser inserida, para atender, realmente, as necessidades informativas, e não só, da população para a qual ela está a ser criada.

 Que actividades têm agendadas para celebrar a data?

Para esta efeméride realizaremos uma palestra com o tema "A actuação e os desafios das bibliotecas no processo de promoção da leitura” ainda hoje, dia 1 de Julho, na sede da Biblioteca Nacional, por volta das 10h00. A actividade, além de celebrar a efeméride, tem como objectivo orientar e reforçar o papel activo das bibliotecas junto da sociedade, em especial em relação às acções para incentivo e promoção da leitura. A leitura é uma porta para o conhecimento e a informação, através dela obtemos a chave para mudanças e transformações no indivíduo e consequentemente na sociedade, por isso,  temos a obrigatoriedade de promover o livro e a leitura.

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