Cultura

Banda honra nome de Duia

Analtino Santos

Jornalista

A apresentação aconteceu na zona do Kinaxixe, no espaço da antiga Fanta, agora restaurante com potencial para momentos de música ao vivo. Com o surgimento da Banda Duia os filhos e companheiros pretendem continuar a preservar o legado do homem que, em 1961, fundou o conjunto Gingas, marco na história da moderna música angolana.

12/09/2021  Última atualização 06H00
© Fotografia por: DR
Da família estiveram ainda uma das primeiras filhas a ser "puxada” para a música pelo pai, Zatinha Duia, e a mãe Maria João Bernardo Adolfo "Didi”, que na verdade foi a professora na arte musical de grande parte dos filhos. A tia Chinda e o primo Maninho, netos e outros membros do clã também se fizeram presentes.

Amigos e contemporâneos do Mestre Duia como Carlos Lamartine, e individualidades ligadas ao movimento cultural como Cirineu Bastos, Raul Tollingas, Nguxi dos Santos, Salas Neto e outros personagens da sociedade luandense estiveram igualmente presentes e testemunharam o surgimento da Banda Duia, que tem como manager Romeu Prata.

Nanutu, que foi o mestre de cerimónia, afirmou que "nos ceús tem dois D: de Deus e de Duia” e garantiu que os integrantes da nova banda estão "prontos” para levar o projecto em frente. Chinda Duia (voz e dikanza), a mais nova integrante, prometeu que a banda "tratará muita música de raíz e canções inéditas”. Ao som de clássicos dos Gingas como "Ngazuzé” e "Mariana”, Carlos Lamartine não se conteve e subiu ao palco para encorajar o "conjunto” (sugeriu que a mesma assim seja chamada e não "banda”). O músico apelou às autoridades para investirem e apoiarem os projectos "mais endógenos”. Man Lamas, como também é chamado Carlos Lamartine, regressou ao palco para cantar com os filhos do amigo Duia no momento que interpretavam "Zuateno Milele Ya Xikelela”.

Dias depois do concerto o Jornal de Angola esteve com parte da banda numa sessão de ensaios em casa de Kinito Trindade, guitarrista que deixou a malha característica do seu baixo em vários sucessos e peça fundamental do "movimento de renovação estética da música angolana”, segundo Jomo Fortunato. Foi uma conversa descontraída, num ambiente familiar.
Um filho e duas filhas do Mestre Duia e da Dona Didi encontravam-se no local de ensaio e foi notória a cumplicidade, admiração e respeito mútuos. 

Bebé Duia (bateria) disse o seguinte: "fui um dos primeiros filhos do Duia a tocar guitarra, mas ensinado pela minha mãe, assim como o Pirica, diferente das minhas irmãs Jandaia e Mara, que foi o pai que as ensinou”. Quanto ao seu próprio lado de formador, afirmou: "eu e a Jandaia temos muita paciência; pego em alguém que tem potencial e vou apertando, como fiz com muitos jovens que agora estão no mercado, como o Mayo, o Yark Spin, o Pascoal, o Palucho, o Clóvis e tantos outros”.

Mara Duia (cavaquinho e voz): "comecei com instrumentos de percussão ligeira, Dikanza e Batuque, depois o Pirika tocava cavaco e eu tocava violão mais reco-reco, quase todos nós tocamos mais de dois instrumentos. Depois fomos escolhendo aquilo por que mais temos queda, o Pirica saiu do cavaco e foi para o violão. A Jandaia foi para o baixo, o Bebé para o baixo e depois para a percussão. E tínhamos de tocar bem, porque o pai castigava-nos, ele era muito duro”. 


Jandaia Duia (baixo e voz): "partilhar o baixo com o canto não é fácil, pois existem músicas que nem o coro consigo fazer”. A baixista é de poucas palavras e foram os rasgados elogios feitos pelos irmãos-colegas que nos ajudaram a conhecê-la melhor. "Quando o Pirika era o solista da Banda Vozes Negras, a Jandaia dava-lhe surra no violão e dizia-lhe ‘podes ser o solista lá, mas aqui em casa quem manda como solista sou eu’. Ela também foi minha professora de violão, porque o pai não queria nada comigo no violão, apenas na percussão e quando me perdi foi ela que me foi buscar para voltar a exercitar”, revelou o irmão Bebé Duia. Mara acrescentou: "a Jandaia toca bem nos bordões”. E Rufino fechou a onda de elogios: "a Jandaia tem espírito ‘nigo’”.


Zatinha e Jó
No acto de lançamento do projecto, no final da actividade, Zatinha Duia, a quarta filha de Duia, trocou algumas palavras com Carlos Lamartine e a nossa equipa de reportagem. Foram os irmãos que falaram do potencial de Zatinha e de Jó Duia, a caçula. Zatinha é dona de uma boa voz, segundo os irmãos, e Jó é uma míúda que toca vários instrumentos e também canta, mas de momento a música não é sua prioridade.

Pedimos a Zatinha para falar de si e trazer a público as memórias que guarda do seu pai, ao que ela acedeu. "Nunca fui uma artista profissional, mas aprendi a tocar o violão porque gosto e está no meu sangue. Foi a minha mãe quem me ensinou, mas pelas circunstâncias da vida abandonei o violão e perdi a prática. Os meus irmãos ainda não tocavam nem cantavam e eu já fazia isso em casa ou em ambientes familiares. E isto levou-me a ter o gosto pela música e a cantar.

Os meus irmãos foram crescendo, a minha mãe começou a ensinar-lhes e depois o pai deu continuidade. Em casa as nossas festas eram e são com música ao vivo, porque de forma espontânea todos vão pegando nos instrumentos e cantando. Nunca fui uma cantora de palco. Recordo que em 2012, o Pirika convidou-me para cantar no aniversário do Ministério da Saúde, um evento que aconteceu no Hospital Américo Boavida, um escritor viu, gostou e disse ao Pirika que eu tinha uma linda voz e de seguida pediu para eu  cantar no lançamento de um livro seu”.

"Meu pai deu tanto pela Cultura angolana mas recebeu pouco. Acredito que deveria ser feito muito mais pelo meu pai e espero que o que não fizeram por ele façam pelos meus irmãos. Agradeço à pessoa anônima que conseguiu ver o potencial dos meus irmãos e apostou neles. Peço a Deus que abençoe e guarde esta pessoa que eu também não sei quem é”   (Zatinha deixou-se dominar pelo choro).


Resgatar o Semba e dar os créditos

Segundo Xiko Santos, o grande problema da música angolana "é que está a desaparecer a forma de tocar dos nossos ritmistas do passado, a forma do ‘Trigo Limpo’. E é com a presença do cavaquinho, com aquelas malhas, os seus agudos, que conseguimos   introduzir esta marcação na nossa música. O Semba estava a perder esta rítmica de antigamente, dos nossos mais-velhos”.
Mara revelou que "em estúdio tenho trabalhado com muitos artistas e produtores como Caló Pascoal, Ruca Fançony, Dj Mania e outros nomes da música angolana, são muitos temas conhecidos, mas infelizmente muitos não colocam na ficha técnica a referência à minha participação”.

Xiko Santos aproveitou a deixa de Mara para acrescentar: "é mais fácil os locutores das nossas rádios darem informações sobre a ficha técnica de músicas estrangeiras do que sobre a nossa. Não dão informações de quem participou na música tal de Beto de Almeida, Caló Pascoal, DJ Mania, Ruca Fançony e outros. São muitas participações em músicas muito conhecidas e infelizmente elas não são colocadas nas fichas técnicas”.

Os nossos músicos e produtores têm um grande problema, atirou Bebé Duia. "Se um determinado instrumentista estiver em baixo não aceitam colocar o seu nome na ficha técnica, priorizam os que estão em alta, às vezes sem grande protagonismo no tema”. 

Os filhos adoptivos 
Rufino Cipriano, um dos teclistas mais renomados da praça angolana, com passagens por vários grupos e participações em inúmeros temas musicais, tomou a palavra para dizer: "nós somos uma banda, o nosso lema é um por todos e todos por um. Respeitamos o ponto de vista daqueles que pretendem que nos chamemos conjunto, mas internamente reunimos e decidimos que somos a Banda Duia.

É uma grande responsabilidade fazer parte deste projecto, não podemos pensar que com a Banda Duia vamos ter massa, o nosso objectivo é engrandecer o legado que o Mestre Duia deixou.  As pessoas falam apenas do artista, mas ele também foi um senhor. Quando o conheci eu estava no Dimba Ngola e ele nos Gingas. Como um chefe, um líder, ele tocava tudo, coordenava. A nossa missão não sei se é sorte ou azar, mas acho que é sorte, é como alguém que nunca ganhou nada na vida e de repente ganha o totoloto”. 

Xiko Santos, outro senhor da música angolana, um dos mais respeitados percussionistas, decidiu fazer um pouco de história: "começamos a ensaiar em 2013 ainda no Centro Recreativo Kilamba; na altura o Pirika não estava em Angola e aguardámos por ele. Paramos porque faltava apoio, mas felizmente chegou este momento, em que apareceu alguém de boa fé e vontade que pretende refazer esta banda e fazer reviver este grande senhor, o Duia. Recomeçamos o projecto.

Estamos com muita força de vontade. Um dos nossos grandes objectivos é reaparecer com os temas e a forma de tocar que estão a desaparecer no mercado. Nós temos a sorte de ainda termos bebido dos mais-velhos. Eu, o Rufino, o Nelas do Som, o Nanutu e as meninas que tiveram a sorte de ter o pai que tiveram. Vamos   mostrar à juventude determinados estilos que desconhecem.

A nossa missão é fazer reaparecer estilos como a Senguesa e o Kilapanga e, por exemplo, a forma como os Merengues tocavam "Dizanga dya veia ngongo”, estilos musicais principalmente de Luanda, Catete e Ndalatando, onde parte das nossas famílias nasceu”.  
Nelas do Som, guitarrista de muitos sucessos, homem de poucas palavras, adiantou que "tocar mestre Duia é bué fixe, é uma marca. Eu era do Bairro Operário e frequentava o Marçal, assim pude assistir a algumas actividades e apreciar o estilo dele”.

O que está a ser preparado

Xiko Santos revelou o que está em preparação. "Temos a preocupação de mostrar o trabalho do conjunto Os Gingas, este é um dos grandes objectivos. Estamos a fazer pesquisas, a procurar pessoas que conviveram e trabalharam com o Duia e estão em vida, como é o caso de Carlitos Vieira Dias. A nossa missão não é só tocar, nós queremos ir em busca da raiz.

Também pretendemos fazer um livro e um disco sobre a vida do Mestre Duia. A nossa missão é dura, é um compromisso que aceitamos e que temos de assumir”. Rufino acrescentou: "estamos a fazer um trabalho de recolha, para lá das músicas já conhecidas ‘Mariana’, ‘Ngazuzé’, ‘Kuata Mbingue’ e outras, que a Banda Maravilha interpreta. Estamos a ensaiar e em breve entraremos em estúdio para lançar um single. Depois da apresentação estamos preparados para outros espectáculos”.

 A nova banda já tem uma sede, equipamento, "organização, vontade e condições para trabalhar”, garantiu Xico Santos. "O nosso lema é ‘um por todos, todos por um’. Cada indivíduo tem a sua  função. O maior problema das bandas é o cachet quando não há transparência. Estamos prevenidos, aqui na Banda Duia tudo é às claras”, explicou.

Mestre Duia
Eduardo Garcia Adolfo nasceu aos 28 de Outubro  de 1941 e morreu aos 16 de Abril de 2016. Foi um dos responsáveis pela introdução da guitarra eléctrica na música angolana e principal influência na formação de muitos guitarristas angolanos, com destaque para Marito dos Kiezos. Os Gingas, seu grupo, foi fundado em 1961 e teve como outros integrantes iniciais José Maria Kiavulanga, Kakulo Kalunga, Ressurreição, Honorato Jacinto Silva, Manuel Luciano "Massy”  e Zarga.

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