Opinião

Atrás vem gente

Caetano Júnior

Jornalista

Os últimos dias, contados a partir do rescaldo das Eleições Gerais, a 24 de Agosto, ficaram marcados por alguma apreensão e intranquilidade. Aliás, paira ainda certo espectro de expectativa e ansiedade, que só deverá desvanecer-se com a tomada de posse do Presidente eleito, João Lourenço, a nomeação e entrada em função do novo Governo e a ocupação dos assentos, no Parlamento, pelos deputados.

11/09/2022  Última atualização 08H21

Será, então, o retorno à normalidade política e, em consequência, o reatar dos procedimentos e das actividades interrompidas pelas limitações impostas pelo "Governo de Gestão”, que se vive desde a "ordem de partida” para a campanha eleitoral, no dia 24 de Junho.

Desde então, o país guia-se nos limites que o impedem de ir além da "Gestão Corrente”. Mas é preciso que saia desta espécie de contenção e recupere a normalidade; urge que retome a actividade política; é imperioso que o Chefe do Executivo e os responsáveis dos departamentos ministeriais tenham condições legais para praticar acções de gestão no âmbito da governação.

A Assembleia Nacional também não pode esperar. Deve executar os actos legislativos, além de dar provimento à discussão e à aprovação do Orçamento Geral do Estado (OGE), até, no máximo ou na pior das hipóteses, ao final do ano. Do OGE depende, aliás, a permeabilidade do percurso por onde caminham a Saúde, a Educação, a Construção, a Defesa e Segurança, enfim, os sectores que dão vida à continuidade da edificação do País. É, igualmente, o OGE que abre espaço à robustez do tecido empresarial, à criação de empregos, à prestação de serviços, à construção de infra-estruturas sociais e económicas, à formação de quadros e à qualificação de técnicos ou à competitividade que gera progresso.

O rescaldo das eleições de 24 de Agosto fez descer uma realidade que os angolanos precisam de encarar, avaliar e, depois, responder à teimosa pergunta: ainda se justifica a permanente suspeição à volta dos resultados? Um quadro repetitivo de tal intensidade, que chega a entediar, a desgastar e a cansar. Independentemente da perspectiva com que cada um o encara, a verdade é que o quadro que se vive representa perda de tempo; implica atraso nos procedimentos conducentes ao contexto de normalidade que deve marcar os dias a seguir. Ainda que se esperassem reclamações e que se accionasse o contencioso eleitoral, o bom-senso deve colocar um limite a quem pensa arrastar indefinidamente o processo. Assim como os dias são eternos, eleições haverá sempre, agregadas à opção por concorrer. Basta ao candidato atender aos preceitos.

Portanto, as queixas ou as reclamações na sequência da disputa eleitoral não devem transformar quem as faz em "herói do processo”, nem o encorajar a carregá-las por longos e cansativos dias, fazendo atrasar projectos e anseios de todo um país e de cidadãos desejosos de dar provimento aos desafios que têm pela frente. "Prosseguir com o processo de litigação noutras instâncias”, como prometem fazer a UNITA, a CASA-CE, a FNLA e o PRS, ou levar o inconformismo à justiça internacional, é contraproducente; abre as fronteiras do país, que tem a soberania bem exercida, à ingerência externa. A preocupação mais premente, para quem vê Angola acima de qualquer prioridade, deve ser o desbloquear das contingências que ameaçam atrasar-lhe a normalidade.

Os mais de 33 milhões de cidadãos não merecem ter as ambições, as pretensões, as aspirações, enfim, a vida em suspenso, a depender de compatriotas que teimam em negar a realidade que as urnas trouxeram à luz. Não se simpatize com o Presidente João Lourenço e com o MPLA ou se odeie o candidato Adalberto Costa Júnior e a UNITA, a verdade vai muito além de sentimentos e de simpatias: reflecte a escolha popular, que, no caso, recaiu sobre quem apresentou projectos de governação que convenceram, pela exequibilidade, sem sofismas, nem ilusões. De 24 de Agosto até ao momento, passa tempo demais, perdido na indefinição e na incerteza, que em nada contribuem para a paz e a tranquilidade emocionais de que precisam as pessoas, para responder às exigências do dia-a-dia. Já é tempo para permitir que a vida e o país sigam o curso normal, rumo à realização de projectos do Governo, do Estado e de cada um.

Os instantes são, igualmente, para repensar o percurso do País e avaliar os custos do atraso que leva, se trouxermos à conversa os 48 anos de Independência. Foram, aliás, décadas permeadas por conflitos internos, que contribuem para que hoje esteja ainda longe dos substractos ideais, nos rankings da qualidade, não importa o sector. Devemos ter em atenção os males que "desinteligências” trazem aos povos e aos países. Os jovens, felizes contemplados pela era digital, sem experiência das vicissitudes por que passou o País, assumiram compromisso com as Redes Sociais, por via das quais acreditam conhecer o espaço que os acolhe e outras realidades. Sofisma! Deviam, por uma vez que fosse, fazer uma visita ao passado, empreender uma viagem à História, para saber o que custou aos seus bisavós, avós e pais a Angola hoje soberana.

Podem até chegar por incitamento nas Redes Sociais e Plataformas Digitais, mas o caos, a violência urbana ou a guerra, quando descem, para atormentar, arreliar, enlutar e destruir, são reais e dolorosos. Não são virtuais. Angola já perdeu tempo demais. É preciso recuperar as oportunidades que a falta de coesão e de patriotismo deixou fugir. O País precisa de avançar, porque atrás vem gente. Nem sempre boa, amiga ou solidária. Há aquele que aparece para incitar à violência e criar o caos e a destruição.

Chega de correr permanentemente contra o tempo, o imperador que dificilmente permite ao opositor celebrar vitória.

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