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“Até hoje não vimos o corpo do nosso pai”

Clementina Alberto Monteiro é filha de Mateus Monteiro, um antigo capitão das Forças Armadas Angolanas (FAA), morto no conflito armado pós-eleitoral, em 1992, na cidade de Mbanza Kongo, província do Zaire, onde estava em missão de serviço.

02/06/2021  Última atualização 05H25
Clementina Alberto Monteiro quer certidão de óbito do pai © Fotografia por: Alberto Pedro | Edições Novembro
Clementina Alberto Monteiro recordou que, quando o pai morreu, na casa em que os filhos viviam, na província do Uíge, houve um in-cêndio, que "queimou todos os documentos”.
"Até hoje não vimos o corpo do nosso pai”, razão pela qual, por ser uma morte presumida, a viúva e os filhos nunca conseguiram obter a certidão de óbito, documento de que necessitam para receber uma pensão de sangue e de viuvez na Caixa de Segurança Social das Forças Armadas Angolanas (FAA). 


Antes da abertura do processo de entrega de certidões de óbito às famílias de vítimas dos conflitos políticos, a viúva e os filhos não foram bem sucedidos quando se deslocaram à Caixa de Segurança Social das FAA, por não terem levado um documento que atestasse a morte de Mateus Monteiro.
Primeira de sete filhos de Mateus Monteiro, Clementina Alberto Monteiro, actualmente com 49 anos, disse estar grata ao Presidente João Lourenço por ter tomado a decisão de criar uma comissão para a entrega de certidões de óbito e restos mortais às famílias das vítimas dos conflitos políticos em Angola.
Quanto ao pedido de desculpas e perdão feito pelo Presidente João Lourenço, Clementina Monteiro disse ter recebido de coração aberto. 


"O perdão é a primeira coisa que a Sagrada Escritura fala”, acentuou Clementina Monteiro, que disse ter o pai morrido aos 34 anos, de cujo falecimento tomou conhecimento através de um colega do progenitor.
O colega contou à família de Clementina Alberto Monteiro que, no conflito armado em Mbanza Kongo, depois das eleições de 1992, Mateus Monteiro caiu numa emboscada com colegas e foi morto a tiro, tendo sido o único que perdeu a vida.   


O colega referenciado por Clementina Monteiro na conversa com o Jornal de Angola deslocou-se até à província do Uíge "para dar a triste notícia”.
"Ele confirmou a morte do meu pai depois de ter ficado três dias em andamento na mata até chegar à sua unidade, já na província do Uíge”, descreveu Clementina Alberto Monteiro.
Na conversa com o Jornal de Angola, Clementina Monteiro chorou copiosamente, algo que sempre acontece quando se lembra do progenitor, sobretudo nos momentos em que vem à sua mente o que mais a preocupa: não saber, até hoje, onde estão enterrados os restos mortais do pai.


"Se conhecesse o lugar onde o meu pai está enterrado para poder chorar a sua morte e visitar,  já ajudava a tirar essa dor que carrego há vários anos”, lamentou Clementina Monteiro, que disse estar a aguentar até hoje "este martírio” pela fé que sempre teve em Deus.  Clementina Monteiro realçou que a  única recordação que guarda do falecido pai é uma fotografia a preto e branco, tipo passe, que carrega sempre na sua carteira de documentos.

Processo histórico e marcante
Também abordado pelo Jornal de Angola foi José Pascoal, membro do grupo técnico do Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos, para quem, "o processo de entrega de certidões de óbito e restos mortais de pessoas que perderam a vida em conflitos políticos é histórico e marcante para os angolanos”.  "Aqui está também a nossa reconciliação”, declarou José Pascoal, que enalteceu a contribuição de músicos, que exaltam a paz e a reconciliação nacional nas suas canções.  "Até porque já estamos juntos, vamos fortalecer ainda mais a nossa paz e dizer sempre aos nossos filhos, netos e bisnetos que a guerra trava o desenvolvimento de qualquer país”, sublinhou o técnico do Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos.

Pereira Dinis e Kílssia Ferreira

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