Opinião

Assassinato da morte

Pedro Kamorroto

Do fundo do pântano que há em mim, quis sinceramente bendizer o mundo, as pessoas à volta de mim, mas vontades alheias à minha me forçaram a minimizar, a encarar de ânimo malnutrido o mal-estar-abutre que se alojou em mim debicando lentamente a minha estrutura ainda humana.

18/09/2022  Última atualização 09H03

Não esforcei retiro espiritual algum, não me proporcionei o prazer de um descanso sabático, sequer me vi para lá do rio cujo curso dá para reflexão profunda, tinha tudo para fazer-me morrer, mas o mundo é demais pequeno para acolher nos seus braços tantas mártires. Ainda bem que não fui a escolhida, tampouco a capacitada para este regime áspero, para este acto de sacrifício.

Aliás, o mundo que habito é um terreno fértil para ver germinar heroínas. É mais fácil alguém bancar de heroína do que propriamente ser.

Olhei com entusiasmo platónico, romantismo para os resultados clínicos. Para minha situação de quase-morte o médico prescreveu um molho de drogas que não se encontra em farmácia alguma, pelo menos aqui no depósito natural de umbigos: "Tomar caldo e cautela a cada vinte-e-quatro-sóis durante as próximas luas minguantes”.

"Deixar o calejado orgulho ter o merecido descanso por igual período”.

"Colocar adoçante no chá de diálogos a cada sol escaldante para evitar eternos amargos de boca”.

"Deixar uma nuvem de mosquitos poisar na zona mais franca e ribeirinha a cada pôr-do-sol, a fim de criar imunidade de grupo contra a vaidade e arrogância sem metro”.

Assim que recebi a receita médica, mandei ela e toda explicação do médico para o ralo abaixo. Era letra morta, sem serventia alfabética e ontológica. Não valia chá velho sequer.

Não tinha nada que me preocupar com a situação diagnosticada de quase-morte, tampouco levar em consideração o que o médico prescrevera. Preocupações demasiadas, preocupações triviais não fazem um corpo são e uma mente sã.

O importante é que saí expressiva e inequivocamente vitoriosa da disputa com a minha maior inimiga. Uma vez mais venci a morte. Assassinei-a barbaramente.  Digo isto sem contemplar consequências. Era eu mais uma vez ou ela pela primeiríssima vez. Mas a sorte e jogadas de mestras são propriedades inequívocas de audazes como eu. Há várias luas que sei a realidade extra económica e os gastos fixos da minha penthouse. Uma vitória clara, justa, inequívoca, que não  deixa a donzela dúvida fazer sombra e papel de resto. Mais um troféu para ser damo de  companhia  da minha cobiçada galeria.

Uma vitória clara, justa, inequívoca é fisicamente proporcional a um processo igualmente claro, justo, liso e transparente, não é? por isso não vejo razão de não festejar, de não abrir cápsulas de cerveja, de não mostrar a minha cara (des)lavada e maquiada ao mundo. O multiverso precisa saber o quanto tem de hidro e mel o triunfo, meu eterno damo de companhia.

O resultado saído do laboratório de análises clínicas não é nada grave, é apenas um achaque, já passa na próxima vigília. Não afecta e nem afectará de jeito algum o funcionamento do meu corpaço de jarda absoluta. Continuarei a fazer as plásticas necessárias e outros acabamentos estéticos para manter o extra e o ordinário funcionamento do meu corpo. Vivo pelo meu corpo. Dou tudo de mim por ele.

Mantê-lo belo, mantê-lojardado é legítima essa obsessão minha. No espelho está a verdade, por isso é que este objecto só amplia os reflexos da verdade em que acredito.

Essa conquista é sinónimo de que tenho mais vidas para leiloar, para contrariar com todos os ases as investidas da minha principal opositora.

Repito o resultado saído do laboratório de análises clínicas vai ajudar-me a olhar de forma continuada para os lírios dos campos e a vestir-me de forma inequívoca a brancura do algodão. Sema brancura do algodão não há tecido que ganhe sustentabilidade e fama milenar. Sem a brancura do algodão não há Califórnia e Dubai por mais que haja vontade de erguê-las num só sol escaldante. Tudo resto é narrativa (fala)ciosa, técnica de distracção em pasta italiana, e tudo que é dissimulação apoio a sua candidatura à condenação, deve conhecer e enfrentar o corredor da morte histórica.

Olho com o  mesmo entusiasmo por mais essa proeza, aliás, já sou trindade (e carmo) nestas passadas, por isso não levo a sério aqueles que querem forçar vinco na minha expressão de triunfo.

A morte, a minha rival quanto se aproxima mais distante fica, até parece ser a representação fiel do mito, do suplício de tântalo. Ela é que deve fazer uma inversão de marcha, uma autocrítica diante do retrovisor, porque quem sempre soube degustar como eu não desgosta, nunca.

Ó morte, morre só (bem), vais gostar. Morrer é só mesmo isso. Tenha um bom morrer. Atenciosamente, Vida.

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