Opinião

As vitórias da nossa juventude

A história Eu estava nas “textualidades,” conversa de escritor com os leitores, uma boa invenção de Adriano Mixinge que passa num auditório do Memorial Agostinho Neto. Havia dito ao Adriano que ali era fora de mão para pessoas que não têm transporte e seria bom passar um autocarro e divulgar para os que não têm meio de locomoção para se deslocarem. Também não seria despropositado descaracterizar aquele ermo verde, abrir toldos coloridos, baloiços e divertimentos para crianças, contadores de “estórias,” músicos, capoeiristas, caricaturistas, pombas, muitas pombas para a alegria de ser e estar. O certo é que auditório estava cheio e o acto foi sem escondidos medos recentes, participativo e com muitos jovens estudantes universitários.

05/09/2019  Última atualização 07H22

Começou o Mixinge pedindo uma salva de palmas em homenagem a Amélia Mingas. Foi uma sentida ovação. Sandra Poulson, autora de TAMBWOKENU -VIAGENS PELA MINHA TERRA, moderava. E eu com o pensamento nas Pérolas do nosso andebol feminino. Basquete, andebol ou futebol, acompanhava sempre que a televisão permitia e quando, como normalmente acontece nestes encontros, colóquios e similares, veio à baila a questão da juventude que, para alguns, mesmo de boa-fé, passou a ser o bode expiatório de todas as desgraças desta nossa sociedade, principalmente no que toca à leitura e conhecimentos sobre a literatura nacional. Endireitei a curva e saltou-me para a voz os sucessos do nosso andebol, principalmente o feminino, era a juventude que tantas vezes nos fazia esquecer a tristeza. Uma vez, estávamos, uns e outros aos tiros na cidade de Luanda, as jovens da selecção embarcaram debaixo desse stress e trouxeram o ouro de campeãs. No Basquetebol, nunca me esquece, quando numa final, escrevi um poema na hora, meu neto falava “o avô não deve chorar assim,” o poema passou no ecrã, houve logo telefonemas, fomos campeões e mais uma vez a juventude trouxe-nos a alegria. Ali, nas Textualidades, saiu da trincheira o compositor e intérprete Euclides Dalomba para destacar que a cultura e o desporto são o melhor para a visibilidade do nosso país no exterior.
Falam que a juventude não lê. E onde é que estão os livros? Quantas livrarias (não é lojas com livros) existem em Angola? Qual é a política do livro no nosso país? Os jornais chegam às Províncias? Quem “manda,” na edição dos livros escolares, quem são os editores? São estas pontas soltas que quase sempre se omitem. As pessoas, preferem falar na juventude delinquente, que assalta de motorizada. Esquecem a multidão de jovens que daqui até para lá de Talatona ou daqui para lá de Viana ou da praça das Marias, calcorreia quilómetros e quilómetros a tentar vender gasosa fresca, ligações para informática, óculos, roupas e mil e tantas bugigangas importadas pelos armazenistas estrangeiros, verdadeiras inutilidades quando não deve haver divisas para medicamentos e os que faltam nas farmácias, alguém manda os miúdos vender a preço vezes dez ou vinte. É a juventude que alimenta as forças armadas e a polícia que deve proteger os cidadãos. É a juventude que se organiza em grupos de teatro nos bairros, grupos de poesia, de artes plásticas. É a juventude que faz música que ultrapassa as nossas fronteiras. É a juventude que sofre o desemprego mesmo quando acaba de obter uma licenciatura. Porque não há uma educação sistémica em que os estudantes, a meio do curso começam a conviver com o posto de trabalho garantido e não acontecer formar-se em informática sem ter manuseado suficientemente um computador. É a juventude que engrossa os corais da música das igrejas. Foi a juventude que se organizou para apoiar os nossos refugiados num país vizinho. E foi a juventude, do antigamente, que empunhou as armas para que fossemos a Angola de um só Povo e uma só Nação.
Quando acabou o encontro com muitos autógrafos e selfies levaram-me a jantar num restaurante da ilha. Estava emocionado pela prosa, poesia e as cantigas mas tinha o coração a bater por causa do resultado da final africana do andebol feminino.
Quando cheguei a casa liguei para um jovem quadro de uma televisão. Tínhamos ganho! E também nos masculinos! Só que lhe parecia que não tinha havido transmissão directa, só extratos de gravação. Não acreditei e ainda hoje não acredito que, pelo menos, a televisão pública não tivesse mandado aquela turma que grita Angola!
Aí, desbobinei a memória. O estádio cheio. Os quadros humanos a fazerem desenhos na arquibancada. Era um deslumbramento, principalmente para as crianças, as que viam e as que participavam para o orgulho dos pais que não as descortinavam na mole humana que desenhava a vida na aprendizagem do ser parte do maravilhoso colectivo. Desbobinei mais. E em cada terraço um grupo de dança de crianças que passavam na televisão a branco e preto. E ainda os caçulinhas da bola. Nessas também “horas difíceis” foi a alegria da juventude que nos fez acreditar naquilo que à juventude pertence: o futuro.
Estas coisas do antigamente próximo devem ser contadas nas escolas. Os atletas que nos honram lá fora devem visitar as escolas e é preciso fazer posters para distribuir e imprimir camisolas para serem oferecidas às crianças que são melhores no desporto. É preciso fazer mais concursos literários para crianças e adolescentes. É preciso desenhar melhor a nossa lavra de forma a não esquecermos que ali tem mandioca e não esquecer a rega, a troca e a repartição.
Temos que pensar com ambição. Queremos muito. Até que chegue o dia em que por cada escola que se abra se feche uma cadeia.

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