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As rodas de uma cadeira mudaram a vida de Quitélia

Quitélia Bonifácio tinha dois anos quando deixou de andar. As injecções que fazia para combater um paludismo causaram graves problemas nas articulações e a menina foi perdendo forças nas pernas e nunca mais pôde caminhar por si mesma.

05/08/2020  Última atualização 10H06
DR © Fotografia por: Na imagem, a jovem Quitélia Bonifácio

A menina foi crescendo, mas a paralisia dos dois membros inferiores foi se dando, igualmente, a conhecer cada vez mais e a transtornar a vida dela. Para se locomover ti-nha de colocar os joelhos e os membros superiores no chão e arrastava-se.

E foi assim até à adolescência, altura em que Quitélia ganhou uma primeira cadeira de rodas. Esse meio de locomoção estragou-se e a moça voltou a arrastar-se, de novo, para sair de um local para outro.

Impossibilitada de adquirir uma nova cadeira de rodas, a jovem mulher “andou” aos arrastos pelas ruelas do bairro, durante dez anos. Os membros ficaram calejados, de tanto passar sobre pedras, pedaços de vidros desfeitos (cacos), ferros e outros objectos.

“Não tinha outra solução que não fosse esta”, disse a jovem, actualmente com 29 anos. “O único objectivo era lutar pela minha sobrevivência e pelo futuro do meu filho”, acrescentou a jovem mulher.

Hoje, graças a uma acção solidária, promovida pela fábrica de detergentes Basel e pelo músico Anselmo Ralph, a jovem Quitélia tem uma cadeira de rodas, em resposta aos gritos de socorro que lançou ao longo de quase uma década. “Quero mesmo agradecer pelo gesto, porque essa cadeira de rodas mudou a minha vida.

Já consigo movimentar-me sem muitas dificuldades, fazer compras dos produtos para revender na minha bancada e sair para sítios mais distantes”, realçou.

A viver com o filho, de sete anos, um irmão e um tio, em casa arrendada, na rua da Paviterra, bairro Rocha Pinto, a luta pela sobrevivência de Quitélia começa cedo, às 6h00, quando acorda para montar a bancada à porta de casa.

Vende para-cuca, caramelos e salsichas. Sem receber qualquer tipo de ajuda do pai do filho, a mulher foi obrigada a interromper os estudos, ainda quando frequentava a 7ª classe, para garantir o sustento do filho e do irmão menor.

Apesar das dificuldades que enfrenta, a jovem garante que vontade e forças para voltar a estudar não lhe faltam. O que falta, segundo ela, são condições para suportar as despesas com a formação.

Recorda que quando estudava era discriminada pelos colegas, por causa da deficiência física. “Eles abusavam-me. Eu tentava explicar que fiquei assim não por vontade própria, mas pelas consequências das injecções mal aplicadas. Era estranho para eles me verem a arrastar-me no chão”, lamentou.

Romance da ingratidão

Como qualquer mulher, Quitélia Bonifácio apaixonou-se. Teve um romance, por dois anos, com um jovem vizinho do bairro, quando tinha 18 anos. Depois do filho nascer, o rapaz sumiu e, até hoje, não presta apoio ao menino de ambos.

Quando os familiares souberam da gravidez, receberam a notícia com agrado e deram o apoio necessário, na altura. Porém, o fim da relação com o pai do filho afectou gravemente a jovem, que não sabia o que fazer para criar sozinha o menino.

“O pai não dava assistência ao filho, nem se importou com nada que o menino e eu necessitássemos, mesmo sabendo da minha condição de deficiente física”, desabafou.

Mas, a venda à porta de casa, sua única fonte de rendimentos, dá para satisfazer as pequenas necessidades dela e do filho. Por dia, Quitélia embolsa 1.500 kwanzas. “Eu quero ser empreendedora. Por isso, peço que me ajudem a fazer os cursos de culinária e de pastelaria, para montar, futuramente, o meu próprio negócio”, apelou.

Por agora, ela sente a responsabilidade diminuída, uma vez que a empresa de detergentes “Basel” e o músico Anselmo Ralph conseguiram dar emprego ao irmão de 26 anos, o que vai ajudar nas despesas de casa.

Bens doados

Além da cadeira de rodas e do emprego para o irmão, Quitélia foi contemplada com um fogão, botija de gás, diversos bens alimentares e produtos de higiene.

Essa actividade faz parte de um conjunto de acções de solidariedade que a empresa de detergentes Basel tem realizado, em todo o país, desde o início da pandemia da Covid-19, principalmente em hospitais, orfanatos, centros de quarentena e a pessoas singulares.

O director-geral da Basel, Hussein Khatoun, disse que a missão tem a ver com a responsabilidade social da empresa, em que se enquadram a campanha sobre como evitar a Covid-19, através da imprensa, de outdoors e da formação junto dos cidadãos, uma actividade supervisionada pelas administrações municipais.

Hussein Khatoun considera que, diante desta crise global, é preciso adequar as melhores estratégias no combate à pandemia, como um acto de carácter humanitário. A actividade da Basel em Angola teve início, em 2009, mas a produção nacional começou em Março de 2012. Actualmente, a empresa produz as marcas Ultra, Madar e Glória.

A Basel é uma empresa privada de detergentes, localizada no município de Viana, inicialmente com um investimento de cinco milhões de dólares, tendo hoje atingido os mais de 30 milhões.

Outros investimentos

A fábrica tem capacidade para produzir, por mês, na linha de detergentes em pó, até quatro mil toneladas, duas mil de lixívia, 1200 litros na secção de líquidos e duas mil na linha de sabão.

O director-geral esclareceu que, em termos de matérias-primas, a empresa está bem servida, desde produtos químicos a fragrâncias, rótulos e materiais de embalagem, provenientes da China, Índia, Rússia, Bélgica e Coreia do Sul.

A força de trabalho da empresa é de, aproximadamente, 1.200 funcionários angolanos e 50 expatriados. A Basel é uma das únicas fábricas que produz detergente em pó no país e, agora, produz lixívia com tecnologia de ponta, proveniente da Itália, a partir do sal.

A Basel tem ainda realizado as campanhas de ajuda às “Mamãs Zungueiras”, em que quando essas vendedoras são encontradas só a comercializar produtos da marca Ultra ou Madar é beneficiada com um financiamento de 100 mil kwanzas, para dar impulso ao negócio.

De acordo com responsáveis da empresa, durante este período da pandemia, realizou-se ainda a campanha “Táxi grátis”, para facilitar pessoas que não tinham capacidade de pagar esse tipo de transporte.

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