Opinião

As marcas do Cuito

Adebayo Vunge

Jornalista

Na última semana, por razões profissionais, tive uma breve passagem pela cidade do Cuito.

13/09/2021  Última atualização 10H09
A última vez que tinha lá estado, foi em 2017. Aqui em Luanda, tenho no meu convívio e diversos círculos, muitas pessoas naturais ou descendentes do Bié.

Costumo gozar com o facto de serem pessoas muito afoitas e acérrimas defensoras do seu Bié, ou particularmente do Cuito, dos bairros, missões, clubes desportivos e sociais como o Sporting e o Victória. Enfim, oiço tantas histórias com uma alegria tal que a primeira vez que estive no Cuito me senti defraudado, confesso. Por pouco, com toda a ironia possível, os meus parentes faziam-me crer que o Cuito estava aos pés de uma qualquer grande metrópole desse mundo a começar por Nova Iorque. Eu então fui descobrir o Cuito em 2011, muito longe do retrato discursivo dos meus parentes. De qualquer modo, gosto desse sentimento de orgulho extravagante com laivos de utopia.

Entretanto, na última semana, quando estive no Bié, fiquei deveras surpreendido pelo estado em que se encontravam as ruas da cidade. Limpas, asseadas, os semáforos funcionais e onde não havia semáforo estava lá um velho sinaleiro, como aqueles que já só na memória encontrávamos em Luanda e que impunham ordem e sentido ao trânsito sem o fluxo de carros que hoje temos em qualquer avenida.


Sem a barulheira e com as pessoas comportando-se de forma muito cordata, não posso deixar de felicitar as pessoas e as autoridades que estão hoje no Bié empreendendo uma verdadeira transformação, uma vez que quando recuamos 20 anos, como o fizemos no sábado passado a propósito do 11 de Setembro, encontraríamos uma cidade verdadeiramente martirizada. Em bom rigor, hoje já quase não há lá sinais do quanto a cidade sofreu dos horrores de um conflito estapafúrdio e desqualificado, que nos dividia estupidamente.

Entretanto, tal como o Memorial do Genocídio do Ruanda, ou o Memorial do 11 de Setembro, também no Cuito está a nascer um memorial das vítimas e mártires do conflito e atrocidades do período de 1993 a 1998, anos em que a cidade mais sofreu os pavores do nosso conflito civil, tempos em que as pessoas eram sepultadas onde fosse possível, muitas vezes, nos quintais de casa, passeios, lavras, hortas, etc.. Então, naquele espaço que fica na comuna do Cunje acolhe 7 mil campas, com os restos mortais exumados depois da guerra.

Há também, no espaço, alguns retratos de destruição dos principais edifícios, todos eles verdadeiramente reerguidos. Nos corredores do edifício serão inscritos, num moral, os nomes das sete mil pessoas das campas. Para além disso, haverá exposição de algum material bélico utilizado nas diversas batalhas de operações militares naquela região.

No fundo, é um local obrigatório para que todos os angolanos jamais se esqueçam do que estão proibidos de fazer ou deixar que aconteça. A guerra é proibida. A unidade nacional é um activo que jamais se desvalorizará entre nós. Nada será mais forte do que aquilo que nos une: o sentimento de amor e pertença ao nosso lindo país. Por isso, é extremamente relevante o papel do ensino no sentido desses conteúdos fazerem parte da nossa História ensinada nas escolas. É uma memória que tem de servir de lição e por isso deve ser perpetuada.

Um dos objectivos dessa crónica era também o de reflectir sobre o 11 de Setembro, data relevante em termos historiográficos na medida em que é um evento que vai ditar um antes e um depois na História da humanidade. O cientista político norte-americano, Samuel Huntington resume isso no seu livro e teoria: choque de civilizações.

Para lá de tudo o que se sabe que veio a ocorrer após o ataque as torres gémeas de Wall Street, na maravilhosa cidade de Nova Iorque, África passou a ser vista noutra perspectiva, tornando-se um aliado geoestratégico importante para a administração norte-americana.

O petróleo africano passou a ser revalorizado e alguns países como Angola assumiram, para as diferentes administrações, uma outra primazia. Também em termos diplomáticos será importante o apoio dos países africanos às opções do eixo Washington-Londres-Paris, que obteve  legitimidade do Conselho de Segurança para a sua ofensiva contra o eixo do mal.


É desse tempo o recrudescimento das acções do terrorismo em alguns países africanos como a Somália, o Quénia, a Nigéria, o Mali ou ainda recentemente Moçambique que se tornaram os pontos mais preocupantes do terrorismo e fundamentalismo islâmico no nosso continente. Não é, por isso, desinteressado o facto de a Administração de George W. Bush ter sido aquela que maior apoio financeiro concedeu aos países africanos, sobretudo aos programas de apoio e combate à Sida e malária.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião