Opinião

As mãos de Deus!

Augusto Cuteta

Jornalista

Tinha uns três meses de estágio ou menos do que esse tempo quando o editor Manuel Correia, o nosso Man-Cocas, meu antigo e primeiro chefe no Jornal de Angola, indicara o meu nome para uma deslocação em serviço à província do Bié.

10/10/2021  Última atualização 10H45
© Fotografia por: DR
Sem qualquer experiência jornalística em coberturas fora de Luanda, acatei a ordem, sem olhar para trás. Seria a primeira viagem e, como estagiário, queria ter essa oportunidade no meu currículo. Fui o primeiro do meu grupo de estagiários a beneficiar desse privilégio. Esse grupinho era constitutído por mim, Teixeira Cândido, Bernardino Manje, Adriano de Melo e Maimona Kuma, todos acabados de sair do IMEL, onde fizemos o curso de Jornalismo.

Nessa época, entre 1999 e início dos anos de 2000, o país esteve, ainda, mergulhado no conflito armado, sem previsão para o seu fim, embora houvesse várias negociações entre o Governo e a Unita.

Essa guerra era levada a cabo por irmãos da mesma terra, que, por ambição desmedida ao poder, principalmente, partiram, já depois da Independência Nacional, para um conflito armado que dizimou milhares de pessoas, desagregou inúmeras famílias e conduziu outras tantas à miséria severa, destruiu vários empreendimentos socioeconómicos e suas infra-estruturas, entre outros prejuízos para a Nação angolana.

Esse cenário de guerra, embora fosse eu muito jovem, não me coibiu. Aliás, o meu pai chamava-me sempre a atenção para a necessidade de eu aceitar os riscos próprios da profissão que escolhi. E, aceitei o desafio. As martirizadas regiões do Cuito e Cunhinga eram os destinos.

Dois dias depois da proposta, aceite pelo director do Jornal, numa altura em que não era muito comum essa coisa de estagiário viajar. Viajei, mesmo sem ter recebido um único tostão da empresa.
E parti para o centro do país. O voo do PAM, que nos tirou de Luanda, deixou-nos no Cuito, onde ficámos por pouco tempo. Daí rumamos para o Cunhinha, numa rota feita sob viaturas das Nações Unidas.

Antes, ainda no aeroporto da capital biena, ouviam-se alguns bombardeios. Nesse momento, sentia-se o estremecer do solo. Dava a sensação, para mim, que os barulho da artilharia pesada não viesse de muitos quilómetros de onde estivemos.
Foi nessa altura que o medo começou a tomar, ainda mais, conta de mim. O João Lígio e o Pedro Neto, que saíram comigo de Luanda, juntamente com os homens do PAM, estavam tão serenos. Esses dois profissionais, o primeiro, se bem me lembro, foi pela TPA e outro pela RTP, já andavam habituados com aquela cena!

No Cuito, antes da partida para o Cunhinga, visitámos alguns projectos desenvolvidos pelas Nações Unidas. Foi num desses locais que conheci o Abel Abraão, um renomado radialista do Bié e correspondente da Rádio Nacional, falecido a 26 de Novembro de 2019.

Quanto mais conhecia a cidade, mais tomava contacto com os escombros e marcas da guerra. Era muita destruição! Com isso, eu ficava cada vez mais aterrorizado. Eram imagens que só via ou ouvia pela TV, jornais e rádios. Dessa vez, era eu um espectador das maldades do conflito armado.

Depois, partimos para Cunhinga. Pelo caminho, o cenário era ainda pior. Gente desamparada, crianças abandonadas, casas sem qualquer característica que as identificassem como tal. Era fome e miséria, mas miséria extrema mesmo.
Era esse cenário que as Nações Unidas queriam corrigir ou, no mínimo, tentar minimizar. Por isso, levou bens alimentares, produtos e materiais de cultivo agrícola para os diversos povoados. Também levou pequenas moageiras.

Voltando a mim, que embora com pouco tempo de trabalho, sabia que nunca deveria confiar na memória apenas. O professores José Rangel, Maria Lectícia "Ticha” e Quim Paulo tinham ensinado bem isso, no IMEL. Os apontamentos em blocos e a gravação de som eram sempre aconselháveis.

Mas, diferente de outras actividades que cobri, durante os meus poucos meses de jornalista estagiário, nessa ida ao Bié, não escrevi nem gravei qualquer coisa. Eu só queria sair daí e voltar a Luanda. Estive tão arrependido de ter aceite o desafio. No coração, cheguei a pensar uma série de maldades contra o editor. O Man-Cocas tinha na editoria jornalistas experientes como Luísa Rogério, Carlos Alberto, José Meireles ou Pandy Santana, mas por que escolheu a mim? Eu, até, bumbava bwê, mas isso não era tudo. Era a minha vida que esteve em risco! Pensei comigo, lá no Cunhinga.

Medo? Sim. Eu tinha tanto medo, que nem sentia os meus dedos. A cabeça doía para caramba. O meu corpo estava no Bié, mas a minha alma tinha regressado a Luanda. Juro que a cada "bummmm", de bomba ou granada, e tiroteios, eu pensava na minha mãe, no meu pai e nos meus irmãos. Era solteiro, mas tinha compromisso de noivado assumido com a minha Lady. E mais: era muito cedo para eu morrer!

Olhava sempre ao relógio. Cinco horas mais tarde, a actividade terminou. Regressamos a Luanda. Posto no aeroporto doméstico da capital, fiquei mais aliviado. A alma voltou ao corpo. Foi aí que me lembrei que não tinha comido nem bebido nada durante as horas que estive no Bié.

Apanhei o "ndonga” para o cubico. Lá, os velhos deram abraços, beijos e quiseram saber como foram as coisas. Expliquei tudo. A mamã lacrimejava, enquanto o pai dizia que eu tinha de estar calmo, porque oraram muito e sabiam que Deus esteve comigo.
Na segunda, fui ao jornal. A viagem tinha sido numa sexta. O chefe quer a peça. Eu não cheguei a gravar nada nem tirei apontamentos. Não sabia o que fazer. Pousei a cabeça junto ao teclado do computador e adormeci por uns 20 ou 30 minutos.

Alguém acordou-me e perguntou se já tinha terminado o texto. Não respondi. Abri o computador e comecei a escrever. Não sabia ao certo o que escrevia, até ao momento em que fui reler o texto. Gravei na disquete (não usávamos ainda o pendrive) e entreguei o material ao editor.

O kota leu e disse gostou da peça, ao ponto de abrir a página com o meu texto, que mereceu, depois, chamada de capa!
No dia seguinte, o pessoal do PAM enviou uma nota de agradecimento ao Jornal pelo salu. Eu não sabia ainda o que se passara quando o editor me tinha chamado. Pensei logo que tivesse notado alguma "bandeira”, mas nada. O relato é que esteve muito bom e o pessoal gostou.

O Man-Cocas, depois disso, ganhou maior confiança e o pessoal da editoria e da chefia de redacção, também. Por isso, comecei a fazer, cada vez mais, coberturas fora de Luanda, coisa que veio a triplicar quando me foi incumbida a função de repórter para o sector da Saúde, depois de admitido como jornalista efectivo. Hoje, graças a isso, conheço o país, com excepção à província do Moxico.

Mas, uma coisa, ainda, me pergunto, até hoje. Na verdade, não sei como escrevi aquele texto. Não seria, da minha parte, algum exagero acreditar que aquela reportagem foi feita não por mim, mas que as minhas mãos fossem usadas pelas mãos de Deus!

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