Opinião

As guerras de Trump (II)

Abordamos, há dias, neste mesmo espaço a “luta” interna de Donald Trump que se arrasta até ao Congresso, em defesa da sua “dama”- a construção do muro fronteiriço, entre os EUA e o México. Mas, o Presidente norte-americano tem outra frente de batalha, nomeadamente a “guerra comercial" com a China. Se, no Congresso, o que está em jogo é a conquista da Casa Branca, por detrás da "guerra comercial" com a China se perfila a disputa pela liderança tecnológica mundial e o controlo da economia global que ela permitirá.

17/02/2019  Última atualização 08H14

Xi Jinping enunciou, claramente, as suas ambições quando fixou como objectivo do seu programa do «made in China» fazer do seu país, até 2015, a primeira potência mundial em sectores estratégicos, como a aeronáutica, as energias renováveis, os veículos eléctricos e os transportes, a robótica e, sobretudo, as comunicações e a inteligência artificial. Segundo os especialistas, Pequim estaria a avançar à marcha forçada, em direcção a estes objectivos, apesar do abrandamento do seu comércio externo e do seu crescimento macroeconómico, e estaria, já, na dianteira em relação às teletransmissões da quinta geração (G5) e aos satélites quânticos, motores de arranque da nova revolução tecnológica. Trata-se de uma «corrida» em que está em jogo o controlo das actividades (políticas, económicas e militares) da humanidade no século XXI.
Em relação a este duelo, não há divergências, nem nos Estados Unidos nem entre estes e os seus aliados e parceiros ocidentais. Mesmo aqueles que não partilham a ideologia da «vocação evidente» (ManifestDestiny) relativo à liderança do «mundo livre», a perspectiva de passar sob o domínio da «ditadura chinesa» provoca arrepios. Neste contexto a «guerra comercial» desencadeada por Trump, sob o pretexto de reduzir o déficit abismal da balança comercial americana é apenas uma bandeira eleitoral, para eleitores crédulos ou menos esclarecidos. Aliás, a primeira ronda de negociações que teve lugar, em Washington, de 25 a 31 de Janeiro foi “construtiva” e Trump se diz convencido de que será possível chegar a um “bom acordo” com o “amigo Xi Jinping” - que deverá ser rubricado numa cimeira entre os dois chefes de estado e as sanções, já, decretadas, unilateralmente, contra a China não tiveram grandes efeitos sobre as economias dos dois países, nem sobre o porta-moedas dos seus habitantes.
Só os investimentos directos chineses, nos EUA, caíram 95 por cento num ano e Pequim continua a ser o primeiro credor estrangeiro (5 por cento) da dívida pública americana, que continuou a aumentar. Pode Xi Jinping conceder ao «amigo» Trump uma redução significativa do actual desequilíbrio comercial, entre os dois países? Pode! Dizem os economistas. Decidir adquirir, nos EUA, os produtos agrícolas e parte dos hidrocarbonetos que a China importa, actualmente, de outros países produtores, que seriam as principais vítimas deste acordo, além do abrandamento do comércio mundial multilateral.
Pode abrir (mais) o mercado chinês às empresas e produtos estrangeiros, introduzir uma dose de concorrência que ajudará a modernizar o tecido empresarial e a satisfazer a procura dos consumidores chineses. Mas há questões, sobre as quais, será difícil, para não dizer impossível de chegar a acordos definitivos e, sobretudo verificáveis. É o caso das acusações de «pirataria», pela China, de tecnologias e inovações americanas, por várias razões que têm a ver com os respectivos modelos de desenvolvimento. Enquanto nas economias liberais actuais o essencial da inovação passa por parcerias público-privadas (de que os chamados GAFA, gigantes tecnológicos- Google, Apple, Facebook e Amazon são a ponta de lança), na China são empresas estatais ou para estatais como Huawei ou ZTE.
Ao lançar a suspeição, sobre as alegadas actividades de espionagem e pirataria da Huawei, ao serviço da China (esquecendo as provas existentes da utilização dos GAFA pela NSA-Agência de Segurança Nacional americana, com a mesma finalidade), para obter a sua exclusão dos mercados europeus e japonês, é todo o seu desenvolvimento que os Estados Unidos querem travar. A detenção em Dezembro, no Canadá, da directora comercial e filha do fundador daHuawei, MengWhanzou, acusada pela justiça americana de 13 crimes económicos (violação das sanções, contra o Irão, roubo de tecnologia e falsificações) faz parte desta ofensiva. Mas é duvidoso que o “caso Huawei” faça desviar os dirigentes chineses dos seus objectivos. E não lhes falta meios de pressão, sobre os Estados Unidos, da Coreia do Norte á Venezuela. Como diz o provérbio africano, quando os elefantes lutam, é o capim que sofre…

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